terça-feira, 9 de dezembro de 2025

O Lixo — Luís Fernando Veríssimo (Pedagas digitais)

Em uma aula de "Boas práticas nas Redes Sociais" fiz um comentário sobre "pegadas digitais" e o "lixo" que produzimos ao longo dos anos ao usarmos as redes. Então inevitavelmente veio-me a lembrança o texot "O lixo" do autor gaucho Luís Fernando Veríssimo. O texto oportunizou-nos entender com tanta clareza o que são "pegadas" que posto aqui para quem mais quiser usar. O Veríssimo, com certeza autorizaria... No final, seguem algumas atividades propostas. Boa leitura e bom trabalho. 
Att. Emerson Fulgencio de Lima.

O lixo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo.
É a primeira vez que se falam.

— Bom dia...
— Bom dia.
— A senhora é do 610.
— E o senhor do 612.
— É.
— Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
— Pois é...

— Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
— O meu quê?
— O seu lixo.
— Ah...

— Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
— Na verdade sou só eu.
— Mmmm. Notei também que o senhor usa muita comida em lata.
— É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
— Entendo.

— A senhora também...
— Me chame de você.
— Você também, perdoe a indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida no seu lixo. Champignons, coisas assim...
— É que eu gosto muito de cozinhar, fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...

— Você não tem família?
— Tenho, mas não aqui.
— No Espírito Santo.
— Como é que você sabe?
— Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
— É. Mamãe escreve todas as semanas.
— Ela é professora?
— Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
— Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.

— O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
— Pois é...

— No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
— É.
— Más notícias?
— Meu pai. Morreu.
— Sinto muito.
— Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
— Foi por isso que você recomeçou a fumar?
— Como é que você sabe?
— De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
— É verdade. Mas consegui parar outra vez.
— Eu, graças a Deus, nunca fumei.
— Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimidos no seu lixo...
— Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou.
— Você brigou com o namorado, certo?
— Isso você também descobriu no lixo?
— Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
— É, chorei bastante, mas já passou.
— Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
— É que eu estou com um pouco de coriza.
— Ah.

— Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
— É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
— Namorada?
— Não.
— Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
— Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
— Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
— Você já está analisando o meu lixo!
— Não posso negar que o seu lixo me interessou.

— Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
— Não! Você viu meus poemas?
— Vi e gostei muito.
— Mas são muito ruins!
— Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
— Se eu soubesse que você ia ler...
— Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
— Acho que não. Lixo é domínio público.
— Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
— Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...

— Ontem, no seu lixo...
— O quê?
— Me enganei ou eram cascas de camarão?
— Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
— Eu adoro camarão.
— Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
— Jantar juntos?
— É.
— Não quero dar trabalho.
— Trabalho nenhum.
— Vai sujar a sua cozinha?
— Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
— No seu lixo ou no meu?

VERÍSSIMO, Luís Fernando. O analista de Bagé. RJ: Objetiva. 2002

ATIVIDADES DE INTERPRETAÇÃO – “O Lixo”, de Luís Fernando Veríssimo

1. Compreensão Literal

1. Onde os personagens se encontram pela primeira vez?
2. O que eles estavam carregando quando se encontraram?
3. Por que a mulher sabe que o homem é do Sul?
4. O que o homem descobre sobre a mulher a partir do lixo dela?
5. Por que o homem voltou a fumar?

2. Interpretação e Análise

6. Como o lixo funciona como meio de “conversa” entre os personagens, mesmo antes de eles se conhecerem?
7. O que os detalhes observados no lixo revelam sobre a personalidade de cada um?
8. Em que momento percebemos que o homem começou a se interessar por ela?
9. O que a atitude dos dois revela sobre privacidade e invasão de intimidade?
10. Como o humor é construído ao longo do diálogo?

3. Reflexão Crítica

11. Você considera correto ler e analisar o lixo de outra pessoa? Justifique sua resposta.
12. Hoje em dia, além do lixo físico, deixamos “rastros” de outras formas. Quais seriam?
13. No conto, o lixo aproxima os personagens. Na vida real, essas informações poderiam afastar ou prejudicar alguém? Explique.

ATIVIDADE EXTRA: “O Lixo” e as PEGADAS DIGITAIS

Contexto:
Assim como no conto o lixo revela hábitos, sentimentos e aspectos íntimos dos personagens, na internet também deixamos rastros que revelam muito sobre nós: pesquisas, curtidas, compras, localização, mensagens, fotos, etc. São as chamadas pegadas digitais.

Atividade: “O que meu lixo digital diz sobre mim?”

Instrução para o aluno:

  1. Liste cinco tipos de pegadas digitais que você deixa quando usa a internet (ex.: histórico de busca, stories, comentários...).

  2. Agora, relacione cada um deles com algo semelhante ao “lixo” no conto.

    • O que alguém descobriria sobre você apenas observando esses rastros?

  3. Depois, responda:

    • Você ficaria confortável se um desconhecido analisasse essas informações? Por quê?

    • O que isso diz sobre a necessidade de proteger nossa privacidade digital?

  4. Por fim, escreva um parágrafo explicando como o conto “O Lixo” pode servir como metáfora para os perigos e cuidados com nossas pegadas digitais.

✔ Objetivo da atividade:

  • Desenvolver consciência crítica sobre privacidade.

  • Comparar texto literário com situações contemporâneas.

  • Relacionar literatura, tecnologia e ética.


domingo, 16 de novembro de 2025

O Coração que Escolheu Amora

Era uma vez uma menina chamada Amora, que tinha esse nome porque, desde pequena, sua risada lembrava o doce das amoras maduras. Amora morava em uma casa cheia de crianças, cores e brinquedos compartilhados. Lá, todos esperavam um dia encontrar uma família.

Amora gostava de desenhar corações.
Desenhava corações vermelhos, azuis, verdes, dourados…
Dizia que cada coração tinha um sonho diferente.
Mas o coração que ela mais desenhava era o “coração que escolhe” — um coração grande, brilhante, que encontrava outro coração só seu.

Um dia, enquanto Amora pintava mais um de seus corações na varanda, chegou um casal: Dona Lídia e Seu Pedro. Eles caminhavam devagar, observando cada criança com muito carinho. Amora continuou desenhando, tímida, mas com esperança piscando nos olhos.

— Que coração bonito é esse? — perguntou Dona Lídia, encantada.

— É o coração que escolhe — respondeu Amora. — Ele sempre encontra alguém que combina com ele.

Dona Lídia e Seu Pedro se entreolharam.
Seu Pedro sorriu devagar.

— E você acha que o seu já encontrou alguém? — perguntou ele.

Amora pensou por um instante. Depois, colocou o lápis no chão, respirou fundo e disse:

— Eu acho que… talvez… hoje ele esteja escolhendo.

Dona Lídia se ajoelhou ao lado dela.

— Sabia que o nosso coração também estava procurando alguém? — disse, com a voz macia. — Procurando alguém exatamente como você.

O coração de Amora pulou dentro do peito. Era como se todas as amoras doces do mundo tivessem estourado de alegria ali dentro.

Naquele dia, Amora empacotou seus desenhos, abraçou todos os amigos e saiu segurando a mão de sua nova família. Na porta, ela olhou para trás e viu o sol brilhando diferente, como se estivesse sorrindo para ela.

Na nova casa, Amora ganhou um quarto todo decorado com seus desenhos de coração. E, no centro da parede principal, ela colocou o maior de todos: o coração que escolhe.

— Por que esse aqui fica no meio? — perguntou Seu Pedro.

Amora sorriu.

— Porque foi ele que nos encontrou.

E, desde então, sempre que alguém perguntava a história dela, Amora dizia com orgulho:

— Eu sou a menina que foi escolhida pelo coração.

E sua risada doce continuava enchendo a casa de alegria, igualzinha ao sabor das amoras maduras no pé.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Aibofobia é o medo de palíndromos

Aibofobia é o medo de palíndromos, palavras ou frases que se leem da mesma forma de trás para frente (como "arara" ou "socorram-me subi no ônibus em Marrocos"). A palavra "aibofobia" é, ironicamente, ela mesma um palíndromo. A expressão foi criada na década de 70 para brincar com a ideia de medo de palavras longas e complicadas.
O que é um palíndromo: Uma palavra, frase ou numeral que, quando lido de trás para frente, resulta na mesma sequência (ignorando-se acentos e espaços). 
Exemplos de palíndromos: "ovo", "radar", "Otto", "Roma é amor" e "20/02/2002". 
Origem da palavra: A intenção ao criar o termo foi jocosa, já que a palavra criada para designar o medo de palíndromos é também um palíndromo. 
Fontes: IA Google. 

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Lorenzo e as Sementes da Transformação

 Lorenzo era um menino obediente, dedicado e estudioso. Todos os anos, saía de férias uma semana antes da data prevista no calendário, pois suas notas na escola eram excelentes. Como recompensa, passava alguns dias na casa dos avós, que moravam em uma pequena cidade do interior do Paraná.

Os dias ao lado dos avós eram repletos de ternura e aprendizado. A casa tinha um encanto especial. Sua avó, dona Luzia, fazia lindos bordados e, todas as tardes, preparava uma mesa delicadamente arrumada para o tradicional chá. A mesa transbordava de delícias: bolachas pintadas, bolo de reis e outras guloseimas irresistíveis. O chá, com um toque de cravo e canela, exalava um aroma que parecia vir de um mundo encantado.

Seu avô, Jonadab, era uma pessoa singular. Apaixonado por leitura, mantinha uma biblioteca em casa e adorava contar histórias. Todas as noites, sentado em sua cadeira favorita — que até levava seu nome gravado —, ele mergulhava Lorenzo em narrativas fascinantes.

Certa noite, Lorenzo perguntou:

— Vô, de onde vêm essas histórias? O senhor inventa tudo?

Jonadab sorriu, pensativo.

— Algumas, sim. Outras são segredos guardados, esperando o momento certo para serem revelados.

Lorenzo franziu a testa, intrigado, mas o avô apenas piscou para ele e mudou de assunto.

As manhãs na casa dos avós eram agitadas. Depois do café, Lorenzo ajudava a avó nos afazeres da casa. Ela lhe ensinava receitas que preparariam para o almoço. Um dia, fricassê; no outro, madalena; moranga com carne seca, feijão melhorado — como ela chamava o feijão com linguiça calabresa e outras carnes saborosas —, farofa com muito coentro... Cada prato era uma nova descoberta.

À tarde, o tempo era do avô. Depois da soneca pós-almoço, Jonadab sempre tinha uma engenhoca para mostrar. Eles já haviam confeccionado juntos uma coleção de jogos de tabuleiro ao longo das férias passadas: Mancala, Jogo da Onça, Jogo Real de Ur e muitos outros.

Mas naquela tarde, algo diferente aconteceu.

O avô acordou da soneca e chamou Lorenzo com um brilho misterioso no olhar.

— Venha comigo. Tenho algo especial para lhe mostrar.

Lorenzo o seguiu até a biblioteca. Jonadab abriu uma gaveta e retirou uma porção de sementes, colocando-as sobre a mesa.

Os olhos de Lorenzo brilharam de curiosidade.

— Sementes, vô? Para plantar?

— Sim... — Jonadab sorriu. — Mas não são sementes comuns.

Eram pequenos pacotinhos transparentes, cheios de sementes coloridas e brilhosas. Em cada pacote, uma etiqueta com palavras escritas à mão. Lorenzo pegou um deles e leu em voz alta:

— “Semente da transformação.”

Ele olhou para o avô, intrigado.

— O que acontece quando plantamos?

Jonadab sorriu de canto.

— Isso, meu neto, só podemos descobrir de um jeito...

Lorenzo sentiu o coração acelerar. Agora só tinha uma coisa em mente: plantar.

— Calma, Lorenzo! — disse o avô. — Você precisará ter muito cuidado com essas sementes, pois não pode desperdiçá-las.

Lorenzo saiu pensativo da biblioteca, segurando um dos pacotinhos.

“Sementes da transformação”, repetia em sua mente. “Será que posso transformar o mundo? Transformar as pessoas?”

A ideia parecia grandiosa, mas algo dentro dele o fez hesitar. “E se isso fosse errado? E se eu estivesse interferindo no livre-arbítrio de cada um?”

Ele parou no meio do caminho e pensou em voz alta:

— Não posso impor uma transformação... mas posso sugerir.

Um sorriso nasceu em seu rosto. Sim, ele poderia criar cenários fascinantes, que fariam as pessoas se transformarem por si mesmas, apenas observando o mundo ao seu redor.

Respirou fundo, sentindo a brisa suave da tarde.

— E o agricultor das sementes transformadoras... saiu a transformar! — disse, rindo. — Opa, quero dizer... saiu a plantar!


Próximo à casa dos avós, havia uma família que vivia em discussão. Ouvia-se de longe quando estavam em conflito. Trocavam xingamentos uns com os outros: pai com filho, filho com mãe, irmão com irmão. Parecia que não se amavam. Todos os dias havia um conflito novo.

Lorenzo pensou: o que uma semente poderia fazer ali, naquele ambiente? Ou ainda... talvez precisasse de muitas sementes ali. E dedicou-se àquela primeira plantação.

A família tinha um filho da idade de Lorenzo — então aquela seria a porta de entrada.

Lorenzo bateu palmas.

— Olá! Sou o Lorenzo, neto do senhor Jonadab e da dona Luzia. Vim passar as férias na casa dos meus avós. Posso brincar com seu filho, senhora?

A mulher que o atendera à porta viu um sorriso no rosto de Lorenzo e percebeu que ali existia bondade.

— Claro, pode sim. Vou chamá-lo. Robertinho! Venha aqui! O vizinho veio brincar com você!

Lorenzo cumprimentou o novo amiguinho, e os dois saíram correndo pelo quintal.

Havia alguns pneus velhos jogados por lá. Eles pegaram um e começaram a rodar, fazendo de conta que era o carro deles. Lorenzo estava ganhando a confiança do novo amigo.

Brincaram um pouco e então começou a execução do plano.

— Você já plantou alguma coisa na horta ou no canteiro? Já cultivou alguma planta? — perguntou Lorenzo.

O menino respondeu depressa, sem pensar:

— Nunca!

— Vamos fazer umas floreiras em sua casa? Eu gosto de flores e plantas.

Então os dois correram até a casa dos avós de Lorenzo, pegaram ferramentas e começaram o trabalho.

A mãe de Robertinho achou aquilo o máximo. As crianças estavam brincando em harmonia — era lindo de se ver. E, mais do que depressa, a mãe se propôs a ajudar, pois viu que seria um trabalho grande.

— O dia passou tão rápido! — disse a mãe de Robertinho a Lorenzo. — Vamos nos lavar, que vou preparar alguma coisa para comermos.

Lorenzo não pôde ficar, pois já era tarde e precisava ajudar a avó no jantar.

— Amanhã eu volto — disse Lorenzo. — Trarei as sementes para plantarmos.

A mulher, com um sorriso que há muito não se via, despediu-se do novo vizinho e amigo do filho. Entrou em casa abraçada com Robertinho, cantando e conversando sobre o canteiro e o que fizeram naquela tarde encantadora.

O pai de Robertinho chegou, viu que existiam mudanças: alguma coisa havia revirado a terra da frente da casa. Mal sabia ele que a reviravolta seria ainda maior.

Robertinho, ao ver o pai, correu ansioso para contar-lhe sobre o que fizeram à tarde — sobre Lorenzo, o canteiro, o futuro jardim.

Enquanto isso, a mãe preparava o jantar. Os outros irmãos chegaram e viram que algo diferente estava acontecendo: o pai conversando com Robertinho, a mãe arrumando a mesa cantarolando algo. Ficaram assustados — a terra na frente da casa toda remexida, a mãe e o Robertinho cheirosos, de banho tomado, e uma alegria no ar que ninguém sabia explicar.

— Venham todos! — chamou a mãe. — Está pronto!

O cheiro estava delicioso, a mesa bem arrumadinha. Todos se sentaram.

— Mãe, o que é aquilo lá na frente da casa? — perguntou o filho mais velho.

— Estamos fazendo um jardim — respondeu Robertinho. — O Lorenzo vai trazer as sementes para plantarmos amanhã.

— Quem é o Lorenzo? — perguntou o filho do meio.

— O neto da nossa vizinha, dona Luzia.

— Mas, mãe, nós nunca conversamos com eles! Como o Lorenzo veio parar aqui?

— Ele veio chamar o Robertinho para brincar. Os dois são praticamente da mesma idade.

— Hummm... entendi — respondeu o mais velho. — É aquele menino que sempre vem passar as férias com os avós, não é?

— Sim, ele mesmo.

Todos jantaram. A mãe começou a recolher a louça, e Robertinho foi ajudá-la — o que causou espanto nos irmãos. O exemplo, porém, já começava a dar frutos. O irmão mais velho percebeu a mudança e também se levantou para ajudar.

— Precisamos dormir e descansar — disse a mãe. — Amanhã temos que terminar o nosso jardim.

— Isso mesmo! — completou Robertinho. — Amanhã o trabalho será o dia todo!

Naquela noite, depois de muito tempo, a casa descansou em silêncio de paz.

Na manhã seguinte, bem cedinho, o cheirinho de café despertou todos. Robertinho já estava no quintal esperando o amigo Lorenzo com as sementes.

— Vô, quais sementes devo plantar hoje no jardim dos nossos vizinhos? — perguntou Lorenzo.

O avô sorriu com ternura.

— Filho, hoje você vai plantar várias sementes. E, no momento em que estiver plantando, diga ao seu amiguinho sobre a importância de regar todos os dias, pois elas precisam nascer, crescer e florescer. O cuidado com as plantas é muito parecido com o cuidado que temos uns com os outros. O amor é um sentimento que precisa ser zelado, alimentado.

— Uma vez meu pai me disse que o amor é como um fogo: se você põe combustível nele, ele fica forte, ardente; se não se preocupa, ele apaga. E depois, para reacender, é muito difícil — às vezes até impossível.

— Então explique isso para o seu novo amiguinho. As plantas, assim como as pessoas, precisam ser bem cuidadas, observadas, servidas, atendidas, protegidas, amadas...

Lorenzo saiu dali saltando de alegria. O avô havia preparado o semeador para muito mais do que um único jardim.

Chegando à casa dos novos amigos, lá estavam mãe e filho preparados para o grande dia: plantar as sementes no mais novo jardim da rua. O jardim estava mudando a história daquela casa, daquela família, daquela rua.

— Oi, Lorenzo! — saudou Robertinho, sorridente. — Estamos prontos!

Lorenzo, com os olhos brilhantes e um sorriso de lado, respondeu:

— Oiiii! Essa noite quase nem dormi, e vocês?

Todos riram.

Hora de começar.

Lorenzo tirou os pacotinhos do bolso. As sementes eram coloridas, apaixonantes, hipnotizantes.

Cada pacote tinha um nome, e isso chamou a atenção da mãe de Robertinho.

— Lorenzo, que flor é essa? No pacotinho está escrito “Mais sorrisos”.

Lorenzo respondeu, lembrando-se das palavras do avô:

— Essa planta, quando florescer, vai encantar as pessoas de tal maneira que todos que passarem por esta rua não conseguirão fazer cara feia.

As risadas ecoaram longe.

Robertinho, curioso, pegou outro pacote.

— Nesse aqui está escrito “Amizade”. O que é isso, Lô?

Lorenzo vivia um momento único. Sentia-se o professor da jardinagem do amor.

— Amizade é algo que precisamos cultivar em nossas vidas, Ricardinho. Um bom amigo é mais que um irmão. Ter amigos permite que nossas vidas sejam mais completas, nos faz reconhecer o quanto precisamos uns dos outros. Amizade é algo que deve florescer sempre.

Lorenzo também queria plantar e escolheu suas sementes.

— Vou plantar essas aqui!

— Deixa eu ver, Lorenzo? — pediu a mãe de Robertinho. — Uau! Está escrito “Sementes da família”. Nunca tinha visto isso antes. Já estou curiosa para ver as flores que vão nascer. Onde seu avô conseguiu isso, menino?

— As “sementes da família”, meu avô disse que são plantadas o ano todo, a vida toda. Essas sementes são a grande esperança de que estamos cumprindo o maior projeto de Deus, que é a família. Mas não devemos apenas plantar — e sim ensinar as pessoas a cuidar, para que floresçam. Assim como um pai que tem filhos, e os filhos têm filhos, que são os netos, e assim por diante.

— Essas sementes são tão poderosas que, uma vez plantadas, dão flores cujas pétalas caem na terra e permitem nascer novas flores. Não é legal? Meu avô até falou que essas flores são como uma grande bênção que se derrama na vida de uma pessoa. Elas ultrapassam gerações e atingem os filhos dos nossos filhos...

Aquele dia ficaria marcado na história daquelas pessoas.

— Lorenzo, já é meio-dia! Meu Deus, o papai e seus irmãos já vão chegar! — disse a mãe de Robertinho. — Me envolvi tanto que nem lembrei de preparar o almoço!

Para surpresa de todos, tudo já havia sido preparado. A vó Luzia e o vô Jonadab estavam com tudo pronto. Fizeram um banquete para a família do amiguinho de Lorenzo.

Quando o pai de Robertinho chegou, foi a maior surpresa. Todos já estavam esperando para, juntos, irem à casa ao lado almoçar.

Uma mesa comprida estava posta, com pratos, copos, guardanapos de pano, talheres — tudo muito bem organizado pelo vô Jonadab, que adorava arrumar a mesa nos mínimos detalhes. A vó Luzia fizera tudo com o maior carinho — até farofa com coentro tinha!

Todos estavam maravilhados com o que a amizade podia gerar. A mãe de Robertinho sorria sem parar; ela não vivia uma harmonia assim há muito tempo. O pai não tinha palavras. Vivia ali há tanto tempo e jamais havia sequer cumprimentado o senhor Jonadab. Amizades que poderiam ter tornado a vida muito mais significativa, bela e verdadeira.

— O almoço está uma delícia, dona Luzia — disse Robertinho.

— Você ainda não sabe o que vem por aí — respondeu ela, sorrindo. — Fiz bolo de reis, curau e, como sei que o Jonadab gosta de pudim, fiz um só pra ele. Mas vocês devem comer um pouquinho de cada!

— Meu Deus, quanta coisa boa, dona Luzia! — falou o filho mais velho, ainda de boca cheia.

— Sr. Jonadab — interrompeu a mãe de Robertinho —, onde o senhor arrumou aquelas sementes tão diferentes?

Jonadab sorriu e respondeu:

— Então, meus vizinhos... A vida nos permite opções. Escolhemos todos os dias se iremos ser felizes ou tristes, se iremos sorrir ou chorar. Não é fácil, mas temos a oportunidade de construir nosso mundo sempre, todas as manhãs.

— Durante muito tempo, comecei a cultivar flores e percebi que elas passam por um processo muito parecido como o da vida. Temos que preparar a terra, tirar os matinhos, regar, proteger do sol, do frio, dos invasores. Assim é a família.

— As flores, para mim, são como a família. Já perceberam que sempre que florescem, vêm em cachos? Dificilmente estão sozinhas em uma planta. Quando eu guardava uma semente para o próximo cultivo, por não saber o nome de todas, fui colocando aqueles nomes que vocês viram. Sempre acreditei que um jardim atrai pessoas, alegra, tira suspiros e sorrisos apaixonantes. É assim que vejo a família.

— Parabéns, senhor Jonadab. Parabéns, dona Luzia. Vocês são um exemplo de família — disse a mãe de Robertinho.

Robertinho e Lorenzo se abraçaram enquanto a vó Luzia servia mais pudim.

— Estou curioso para ver as flores que vão nascer no nosso jardim, Robertinho. Me manda foto, pois semana que vem já volto pra minha casa — disse Lorenzo.

— Deixa comigo, Lorenzo — respondeu a mãe de Robertinho.

O pai de Robertinho também quis participar:

— Estou pensando em até pintar a casa, Lorenzo, pra combinar com as flores! — brincou.

— Eu ajudo! — disse um dos filhos.

— Eu também! — completou o outro.

A família havia sido envolvida nesse novo projeto. As sementes estavam plantadas. O semeador havia feito seu papel. Agora era hora de cuidar — para que todos pudessem viver um grande florescer.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

O Perdão

O Perdão 

(baseado em Efésios 4:32 — “Sede bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-vos como Deus vos perdoou em Cristo.”)

Era uma manhã ensolarada, e Lia brincava feliz no quintal. 
As flores balançavam com o vento, e o cheiro doce das margaridas enchia o ar.

Mas, de repente, Lia ouviu uma voz zangada:

— Você pegou meu brinquedo sem pedir! — gritou sua amiga Sofia. 

Lia ficou vermelha de raiva.
— Não era seu, era meu! — respondeu, cruzando os braços.
As duas se viraram e foram embora, magoadas. 

O dia passou devagar. Lia sentia um peso no peito, mas não queria admitir que estava triste.
Foi então que ouviu um piado fraquinho vindo do jardim.

— Pi... pi... 

Atrás de uma moita, Lia encontrou um passarinho caído, com a asa machucada.
— Oh, pobrezinho! Eu vou te ajudar. — disse ela, pegando-o com cuidado.

Com o coração cheio de compaixão, Lia limpou a asinha, fez um curativo com um pedacinho de pano e o colocou numa caixinha com algodão.
Durante dias, ela cuidou do passarinho com amor. 

Mas um dia, enquanto trocava a água, o passarinho bicou o dedo dela.
— Ai! Isso doeu! — gritou Lia, assustada.
Por um instante, sentiu vontade de deixá-lo sozinho...
Mas o olhou de novo e pensou:
— Ele não quis me machucar. Está com medo.

Então, Lia sorriu e disse baixinho:
— Eu te perdoo, pequenino. Todos erramos às vezes.

No domingo seguinte, Lia foi à igreja com sua família. O pastor contou a história de Jesus, que perdoou até quem o machucou.
O coração de Lia bateu mais forte. Ela entendeu. 

Assim que chegou em casa, correu até a casa de Sofia.
— Sofia, me desculpa por ter brigado com você.
Sofia sorriu e respondeu:
— Eu também quero te pedir perdão.

As duas se abraçaram e foram brincar no jardim. 
O passarinho, agora curado, voou sobre elas e cantou alto, como se dissesse:
— O perdão faz o coração voar mais alto! 

Perdoar é cuidar com amor, mesmo quando dói.
Foi assim que Lia aprendeu o que Jesus quis dizer. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

A vara e o mundo (O pai, a mãe, o professor) Todo dia é dia do professor.

A vara e o mundo (O pai, a mãe, o professor) 

Antigamente, havia uma vara atrás da porta. Não era enfeite, nem ameaça de mentira. Era símbolo de limite — simples, visível, compreendido.
Quando a criança aprontava alguma peraltice, sabia o que a esperava. Ia até o canto, pegava a vara com as próprias mãos e entregava à mãe. Não corria. Chorava, é verdade, mas entendia.
Era a dor curta que ensinava a lição longa.

O pai não gritava, não precisava. Bastava um olhar. Autoridade não era violência — era presença. Era o saber que o “não” significava “não” e o “agora” significava “agora”.
E, curiosamente, havia respeito. E amor. Amor daqueles que não temem, mas reconhecem a importância do limite.

Mas os tempos mudaram.
A vara foi escondida, depois esquecida, e por fim condenada.
Os pais deixaram de corrigir, não por medo de machucar, mas por preguiça de ensinar.
Trocaram a disciplina pela desculpa, o exemplo pelo discurso.
E assim, aos poucos, perderam a autoridade — não porque deixaram de bater, mas porque deixaram de educar.

As malcriações, antes contidas na sala de casa, migraram para as salas de aula.
Lá, professores viraram reféns de olhares desafiadores e celulares em punho.
A escola, que antes moldava caráter, agora tenta apenas sobreviver ao recreio.

E o tempo continuou.
Aquelas crianças cresceram.
Saíram das escolas e foram para as ruas, onde os limites já não existiam.
Hoje, vemos vídeos de pessoas sendo abordadas por policiais e… correndo.
Fugindo da lei, da ordem, da responsabilidade — talvez até da vara que nunca conheceram.

O mundo parece cheio de adultos que nunca foram corrigidos.
De meninos que envelheceram sem aprender a ouvir “não”.
De meninas que confundem liberdade com ausência de regras.

E assim seguimos: uma sociedade que repele a vara, mas abraça o caos.
Porque, no fundo, a falta que faz não é da dor — é da lição.

Dia do professor é todo dia. 


sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O ‘gay’ e o gaiato

 O ‘gay’ e o gaiato

Aproximadamente 68,72% dos brasileiros com mais de 30 anos canta(va) errado o ‘Melô do marinheiro’, dos Paralamas do Sucesso. Não é “entrei de caiaque no navio”, é “entrei de gaiato num navio”. De gaiato!

‘Entrar de gaiato no navio’ significa ‘dar-se mal por engano’. A expressão ficou famosa no sucesso da banda em 1986. É a velha história do cara que achou que se daria bem viajando pelo mundo ao embarcar escondido num navio, mas teve de trabalhar duro para pagar sua estadia.

A associação com o navio ficou tão forte que, em 1994, o filme de comédia ‘Cabin boy’, que teria seu título melhor traduzido como ‘Camaroteiro’, recebeu no Brasil o nome ‘Um gaiato no navio’. O filme conta a história de um mauricinho milionário que entra por engano num navio pesqueiro e é obrigado a trabalhar. Filme bacana!

Mas não foi num navio que a expressão nasceu. Sem a embarcação, ‘entrar de gaiato’ significa ‘se dar mal, ser enganado, pagar pelo erro de outro’. É que gaiato é o mesmo que ‘alegre, brincalhão, faceiro’. Então, ‘entrar de gaiato’ é o equivalente a outra expressão que conhecemos bem: ‘entrar de alegre’.

O sujeito que entra de alegre é o que participa dalguma coisa meio que sem querer. Vai de bobo, só pela diversão, sem ter ideia concreta de onde está se metendo. É por isso que as chances de se dar mal são grandes.

Como há a possibilidade de o gaiato conseguir adentrar sem se lascar, muita gente usa a expressão justamente com o sentido contrário, como sinônimo de esperteza. Entrar de gaiato numa festa é entrar de graça ou participar do rolê sem pagar ingresso. Tudo isso graças à astúcia do gaiato, que ganharia tudo na conversa.

O gaiato é um sujeito, travesso, que brinca e diverte a todos. É por isso que funciona bem como sinônimo de ‘alegre’. A palavra é derivada de ‘gaio’, que desde o século XIII significa ‘esperto, vivo, jovial’.

‘Gaio’ é um termo quase em desuso, mas tem um parente etimológico muito mais popular. ‘Gaio’ vem do francês ‘gai’ que significa ‘alegre, feliz’. É desse francês que surgiu o termo ‘gay’ em inglês. Bem, pelo menos etimologicamente, Didi (o personagem de Renato Aragão, nos Trapalhões) não estava tão errado ao se referir a um homossexual como “rapaz alegre”, nos anos 70, 80 e 90.

‘Gay’, termo inglês usado para se referir inicialmente aos homens homossexuais, tem de fato origem nos rapazes alegres. O vocábulo surgiu no século XII, mas só no começo do século XX é que passou a ser associado à homossexualidade. Até então, seu significado era outro.

Ao final do século XVII, ‘gay’ adquiriu o significado específico de “viciado em prazeres e dissipações”, já que essa alegria poderia vir dos prazeres carnais. ‘Gay’ era um adjetivo aplicado a homem, mulher ou coisa, implicando “desinibição das restrições morais”. Um ‘homem gay’ era o mesmo que ‘mulherengo’ (quem diria?!), uma mulher ‘gay’ era um eufemismo para ‘meretriz’, uma ‘casa gay’ era um ‘bordel’.

Significando ‘livre de preocupações sexuais’, por volta da década de 50, a palavra ‘gay’ saiu da esfera heterossexual para também designar os homens que se relacionavam sexualmente com outros homens. O vestuário colaborou para o novo significado do termo, já que ‘gay apparel’ (vestuário alegre) eram as roupas estravagantes e afeminadas. No final dos anos 60, ‘gay’ já tinha o significado principal de ‘homossexual’.

A partir dali e por muito tempo, ‘gay’ foi um termo usado pejorativamente. Era um insulto. A utilização da palavra pelos próprios homossexuais, entretanto, fez com que a conotação negativa fosse amenizada com o tempo. Os homossexuais se apropriaram da palavra e lhe retiraram a carga insultuosa, a ponto de ‘gay’ participar oficialmente da sigla LGBT e do movimento do Orgulho ‘Gay’.

‘Gay’ mudou de significado ao longo dos séculos, assim como ‘entrar de gaiato’ trocou de sentido. Essa é a beleza da Etimologia, que nos mostra sempre o poder cultural da ressignificação das palavras.

⁂ Gostou? Então leia mais um tantão de histórias bacanas nos livros ‘100 etimologias para curtir e compartilhar’ e ‘50 pseudoetimologias para deixar de compartilhar’. Estão disponíveis no linque do primeiro comentário. 😉

Referências: ‘Conversando é que a gente se entende’, de Nélson Cunha Mello (2011) e ‘Online Etymology Dictionary’ (set. 2025).


quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Comunidade Mapuche de Temucuicui

 Estivemos recentemente no Chile e presenciamos uma manifestação que merece um registro. As fotos foram tiradas por celular em movimentos um pouco rápidos e isso prejudicou a qualidade. Os integrantes dos ancestrais mapuches estavam reinvindicando em frente a um prédio público e foram convidados a se retirar nesse momento. Fotos tiradas dia 29/09/2025. 


"Lof Temucuicui" refere-se à Comunidade Mapuche de Temucuicui, um grupo indígena localizado no Chile que está em um processo contínuo de recuperação territorial, enfrentando conflitos com o Estado e empresários para a retomada de terras historicamente mapuches. A comunidade é conhecida por sua resistência e pela luta por seus direitos e identidade cultural, o que resultou em frequentes confrontos com a polícia e acusações de perseguição estatal. 
Principais características e eventos:
  • Luta territorial:O Lof Temucuicui busca recuperar terras que considera serem de seu patrimônio ancestral, um processo que se intensificou nas últimas décadas. 
  • Conflito e repressão:A comunidade tem estado em permanente confronto com o Estado chileno, que busca legitimar a ocupação de seus territórios, caracterizando o conflito como uma luta por "recuperação territorial", segundo o Museu Chileno de Arte Precolombino. 
  • Perseguição estatal:Membros do Lof Temucuicui e outros mapuches que defendem seus direitos são, por vezes, perseguidos e processados judicialmente. 
  • Víctor Queipul:O lonco (líder) da comunidade tem sido uma figura proeminente, exigindo a libertação de presos políticos mapuches e defendendo o direito do povo mapuche de viver de acordo com sua cultura e tradições, mesmo sob risco de repressão. 
  • Resistência cultural:A luta do Lof Temucuicui representa uma importante manifestação de resistência cultural e política do povo mapuche contra o despojo territorial e a imposição do Estado. 
  • Reconhecimento e documentário:A luta e a realidade do Lof Temucuicui foram retratadas no documentário "Lof Temucuicui, Territorio bajo Recuperación", que busca dar visibilidade à causa da comunidade. 



"Temucuicui" significa "ponte do temu" no idioma mapudungun, que é o idioma do povo Mapuche. O termo é formado por "temu", que é uma árvore endêmica do Chile conhecida como palo colorado ou pau-rosa, e "kuykuy", que significa "ponte". O nome se refere a uma localidade no sul do Chile, na região da Araucanía, formada por um conjunto de comunidades Mapuche


Os mapuches são um povo indígena originário da região centro-sul do Chile e também do sudoeste da Argentina (principalmente na Patagônia). Antes da chegada dos espanhóis no século XVI, eles já habitavam aquela área, vivendo da agricultura, da caça e da coleta.

Alguns pontos importantes sobre eles:

  • Nome: “Mapuche” significa povo da terra (“mapu” = terra; “che” = gente).

  • Resistência: Os mapuches ficaram conhecidos por sua forte resistência contra a colonização espanhola no Chile. Durante a chamada Guerra de Arauco (séculos XVI a XIX), eles lutaram contra o domínio espanhol e, mais tarde, contra o governo chileno.

  • Cultura: Têm uma rica tradição espiritual, ligada à natureza, e uma organização social baseada em comunidades chamadas lof.

  • Atualidade: Hoje, os mapuches ainda lutam pelo reconhecimento de suas terras, cultura e direitos. No Chile, representam a maior etnia indígena do país. 


Informações: IA. Fotos: Emerson Fulgencio de Lima 


Um poeta escreveu: 

"Entre doidos e doídos, prefiro não acentuar". 

Às vezes, não acentuar parece mesmo a solução.

Eu, por exemplo, prefiro a carne ao carnê. 

Assim como, obviamente, prefiro o coco ao cocô. 

No entanto, nem sempre a ausência do acento é favorável... 

Pense no cágado, por exemplo, o ser vivo mais afetado quando alguém pensa que o acento é mera decoração. 

E há outros casos, claro!

Eu não me medico, eu vou ao médico. 

Quem baba não é a babá. 

Você precisa ir à secretaria para falar com a secretária. 

Será que a romã é de Roma? 

Seus pais vêm do mesmo país? 

A diferença na palavra é um acento; assento não tem acento.

Assento é embaixo, acento é em cima.

Embaixo é junto e em cima separado.

Seria maio o mês mais apropriado para colocar um maiô? 

Quem sabe mais entre a sábia e o sabiá? 

O que tem a pele do Pelé?

O que há em comum entre o camelo e o camelô? 

O que será que a fábrica fabrica? 

E tudo que se musica vira música?

Será melhor lidar com as adversidades da conjunção ”mas” ou com as más pessoas?

Será que tudo que eu valido se torna válido?

E entre o amem e o amém, que tal os dois?

Na sexta comprei uma cesta logo após a sesta.

É a primeira vez que tu não o vês.

Vão tachar de ladrão se taxar muito alto a taxa da tacha.

Asso um cervo na panela de aço que será servido pelo servo.

Vão cassar o direito de casar de dois pais no meu país.

Por tanto nevoeiro, portanto, a cerração impediu a serração. 

Para começar o concerto tiveram que fazer um conserto.

Ao empossar, permitiu-se à esposa empoçar o palanque de lágrimas.

Uma mulher vivida é sempre mais vívida, profetiza a profetisa.

Calça, você bota; bota, você calça.

Oxítona é proparoxítona.

Na dúvida, com um pouquinho de contexto, garanto que o público entenda aquilo que publico. 

E paro por aqui, pois esta lista já está longa.

Realmente, português não é para amador!


Portal Poético.

via Web

🎨 Caravaggio

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

"Em tudo caridade"

Na mesa do café, dois amigos discutiam política como se o mundo dependesse daquilo. Vozes altas, gestos largos, cada um defendendo seu ponto como se fosse o único possível. No meio do fervor, uma senhora ao lado, com olhar tranquilo, interrompeu apenas para dizer:

— No essencial, unidade; no não essencial, liberdade; em tudo, caridade.

O silêncio caiu como quem lembra que há coisas maiores do que ganhar uma discussão. Um deles sorriu sem jeito, o outro respirou fundo. Não era sobre convencer, mas sobre respeitar.

A frase, atribuída a Santo Agostinho, ecoa como um conselho de vida. Unidade no que nos sustenta, liberdade no que nos diferencia, e caridade — sempre. Caridade que não é esmola apressada, mas paciência no trânsito, bondade na fila do mercado, silêncio diante de uma ofensa.

Porque, no fim, fé e esperança se alimentam de um futuro que não vemos. Mas a caridade é agora, é gesto concreto, é escolha diária. E talvez seja isso que nos mantém humanos: a capacidade de amar mesmo quando discordamos, de estender a mão mesmo quando seria mais fácil virar as costas.

Em tudo, caridade. Eis um caminho simples, mas que muda o mundo — começando pelo coração de quem o pratica.

XXXXXXXXXXXXX

"Em tudo caridade" é parte da famosa frase atribuída a Santo Agostinho, "No essencial, unidade; no não essencial, liberdade; em tudo, caridade", que enfatiza a importância do amor e da prática da caridade como princípios universais, mesmo em meio a divergências. A caridade, no sentido bíblico, é definida como uma virtude que ama verdadeiramente e se manifesta em ações como paciência, bondade e desinteresse pessoal, e é considerada a maior das virtudes, superior à fé e à esperança. 

Significado da frase

  • No essencial, unidade:Nas verdades fundamentais e pilares da fé, deve haver concordância e união entre as pessoas. 
  • No não essencial, liberdade:
  • Nas questões secundárias, nas opiniões ou nos pontos de vista que não são centrais para a fé, deve haver liberdade para divergir, sem que isso gere conflito ou divisão. 
  • Em tudo, caridade:
  • Em todos os momentos, em todas as circunstâncias e em todas as interações com as outras pessoas, a atitude deve ser de caridade, amor e benevolência.
  • A caridade segundo a Bíblia

  • O apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 13, descreve a caridade como a prática da bondade, paciência e altruísmo.
  • Ela é mais do que apenas um ato de dar; é uma atitude do coração que se importa genuinamente com o próximo, buscando o bem-estar e a verdade, e não a injustiça.
  • A caridade é descrita como a virtude que "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta", sendo um amor que transcende outras virtudes e que, por isso, é insubstituível. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

O PEREGRINO - JOHN BUNYAN

 O Peregrino, escrito por John Bunyan no século XVII, é considerado uma das maiores obras da literatura cristã. Trata-se de uma alegoria da caminhada espiritual do ser humano rumo à salvação. O protagonista, chamado “Cristão”, parte de sua cidade natal, a Cidade da Destruição, em busca da Cidade Celestial. Durante a jornada, ele enfrenta inúmeros desafios, tentações e perigos, que simbolizam as lutas e provações da vida cristã.

Ao longo do caminho, Cristão encontra personagens que representam virtudes e vícios, como Esperançoso, Fiel, Hipocrisia e Desespero. Cada encontro traz ensinamentos sobre a fé, a perseverança e a necessidade de confiar em Deus diante das dificuldades. O livro também apresenta locais simbólicos, como o Pântano do Desânimo, o Vale da Sombra da Morte e a Feira das Vaidades, todos representando obstáculos espirituais e morais.

A obra é atemporal justamente porque fala de um tema universal: a busca por sentido e redenção. Mais do que uma narrativa religiosa, O Peregrino é uma reflexão sobre a condição humana, as escolhas que fazemos e o preço da fé. Até hoje, é lido tanto como inspiração espiritual quanto como uma joia literária, influenciando autores e pregadores em diversas culturas ao longo dos séculos.


O Peregrino, de John Bunyan, é uma das obras mais lidas da literatura cristã. Acompanhe a jornada de “Cristão” em busca da Cidade Celestial, enfrentando tentações, desafios e provações que simbolizam a vida espiritual. Um clássico atemporal sobre fé, perseverança e esperança. Segue link com o PDF da obra completa:  

https://cavcomunidade.wordpress.com/wp-content/uploads/2017/10/o-peregrino-john-bunyan.pdf

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

O MITO DA INTELIGÊNCIA ÚNICA

O mito da inteligência única

Desde cedo ouvimos rótulos que moldam a forma como acreditamos em nosso próprio potencial. Alguns são chamados de “bons de matemática”, outros de “criativos”, alguns de “inteligentes” e outros de “medianos”. Essa classificação silenciosa, repetida em casa, na escola ou no trabalho, vai se transformando numa verdade íntima: a ideia de que só temos valor em determinadas áreas e que fora delas somos quase incapazes. Mas a verdade é outra: a inteligência não é seletiva, é integral.

O problema não está em sermos limitados, mas em acreditarmos que nossa mente só funciona em uma direção. A inteligência é como uma rede de caminhos que se conectam em múltiplos sentidos. Não somos apenas lógicos, emocionais ou criativos – somos tudo isso ao mesmo tempo, ainda que em diferentes medidas. E é justamente essa visão que chamo de Inteligência 360°: a capacidade de perceber que o ser humano pode desenvolver-se em várias dimensões, sem se aprisionar a um único rótulo.

Quando um aluno tira notas baixas em português, por exemplo, logo pode ser tachado de “ruim de escrita”. Mas esse mesmo aluno pode ser excelente em esportes, possuir sensibilidade musical ou uma incrível capacidade de resolver problemas práticos. O sistema de avaliação tradicional costuma enxergar apenas um ângulo, como se a inteligência fosse um feixe de luz estreito, quando na verdade ela se abre como um arco-íris de possibilidades.

Negar essa amplitude é como olhar para um cubo apenas de frente e acreditar que ele é um quadrado. A perspectiva engana. E a vida faz exatamente isso conosco: nos acostuma a acreditar que só existe uma maneira de sermos inteligentes, quando na realidade cada situação revela uma face diferente da nossa mente.

A ciência já nos mostra que existem múltiplas inteligências: lógico-matemática, linguística, corporal, espacial, musical, interpessoal, intrapessoal e naturalista. Mas ainda que essa classificação seja útil, ela não deve ser vista como gavetas isoladas. Nossa vida real mistura todas essas habilidades de formas variadas. Ao cozinhar, por exemplo, ativamos inteligência corporal, espacial, lógica e até criativa. Ao conversar com alguém, acionamos inteligência emocional, linguística e interpessoal. O cotidiano é um grande laboratório da mente, muito mais rico do que qualquer teste de QI.

Pensar em Inteligência 360° é resgatar essa visão ampla. Não somos uma peça de máquina especializada, mas um organismo vivo que aprende, sente, cria, organiza e transforma. Se acreditarmos apenas em um talento, corremos o risco de atrofiar outras capacidades. Mas se entendermos que podemos expandir em várias direções, o potencial se torna ilimitado.

Este livro nasce do desejo de desmontar o mito da inteligência única e de convidar você a olhar para si mesmo com novos olhos. Não importa se você cresceu ouvindo que “não nasceu para estudar” ou que “só serve para trabalhos práticos”. Essas frases são grilhões invisíveis que reduzem nossa identidade. O que proponho aqui é libertar a mente dessas correntes e mostrar que a inteligência está em tudo: no modo como sentimos, na maneira como lidamos com as pessoas, na criatividade que surge quando menos esperamos e até no silêncio de uma boa reflexão.

A jornada que começamos agora é a de reconhecer a nossa mente como um território vasto, com montanhas, rios, desertos e jardins férteis. Não há um único mapa que defina quem você é. Há caminhos que ainda não foram explorados, portas que ainda não foram abertas e talentos que talvez você nem imagine possuir. A boa notícia é que nunca é tarde para ampliar a visão e assumir uma postura de aprendizado integral.

Porque, no fim das contas, sua inteligência não é seletiva. Ela é 360°.

Quer o ebook completo? Click no link abaixo.

https://drive.google.com/file/d/194c8Ls2nV8N1JSuJW8EOLMwhY2kFCTve/view?usp=sharing