sábado, 25 de março de 2017

FEDERAL DO PARANÁ 2016/2017 LITERATURA - Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade

Claro Enigma
autor: movimento: Modernismo - Geração de 30Por Fernando Marcílio
Mestre em Teoria Literária pela Unicamp


RESUMO

Uma das formas de compreender o conjunto dos 41 poemas que formam a coletânea de Claro Enigma, de 1951, é comparar este livro com A Rosa do Povo, livro publicado em 1945. Se na lírica dos anos 40 predominava a postura de engajamento e compromisso social, agora o questionamento em torno desse posicionamento ganha espaço na poesia drummondiana. 
Assim, a poesia abandona o desejo de buscar respostas e passa a focalizar as perguntas que precisam ser feitas. Ao invés da comunhão anterior, vigora a certeza melancólica da dissolução iminente. A esperança é substituída pelo desencanto. As referências mais diretas ao mundo concreto, historicamente localizado, são preteridas em nome de um universo metafísico, que pesquisa o ser humano em si, independente de seu entorno. 
A relativa perda de certezas políticas representa um passo no sentido da formulação de um novo projeto literário, capaz de se colocar de forma perplexa diante das possibilidades que se apresentam. Além de tematizar exatamente a angústia das incertezas quanto ao rumo a ser seguido. 
Desse ponto de vista, ganham especial significado os versos de “Cantiga de enganar”: “O mundo não vale o mundo, / meu bem. / Eu plantei um pé-de-sono, / brotaram vinte roseiras. / Se me cortei nelas todas / e se todas se tingiram / de um vago sangue jorrado / ao capricho dos espinhos, / não foi culpa de ninguém”. É sintomático que esses versos retomem a imagem da rosa – proeminente, já a partir do título, em A Rosa do Povo – e mais ainda a maneira como o fazem: os espinhos da rosa agora ferem o poeta. As certezas e as esperanças anteriores são capazes de sangrar, isto é, podem levar à perda da vida.  
Em termos formais, nota-se o retorno a formas clássicas. Na verdade, não era uma tendência exclusiva de Drummond. A poesia de sua geração, que surgiu em 1930, já se caracterizava pela retomada de formas clássicas, como a do soneto, por exemplo, campo no qual seu contemporâneo Vinícius de Moraes ganhou merecido destaque.
Além disso, a chamada “geração de 45” foi formada por poetas de forte influência clássica. Sem manifestar os vícios formalistas, o fato é que o poeta mineiro se coloca muito distante tanto do coloquialismo um tanto ingênuo dos modernistas da primeira hora, quanto da tendência panfletária, de comunicação fácil, de alguns de seus poemas da década de 1940. O retorno ao arcaísmo formal inibe os versos livres e o resgate de uma terminologia mais filosofante e classicizante distancia sua expressão da marca coloquial.
Se o leitor quiser levar em conta as coordenadas históricas, tão importantes em A Rosa do Povo, basta recordar que, no final dos anos 1940 – período de composição dos poemas de Claro Enigma – vivia-se a Guerra Fria e a ameaça da bomba atômica. O mundo mergulhava em uma disputa ideológica envolvendo capitalismo e comunismo que, para além das diferenças entre as duas ideologias, revelavam os meandros dos regimes de força que as sustentavam. Para um poeta como Drummond, que sempre lutou pela liberdade, a percepção dessa identidade entre regimes ideologicamente tão distintos conduzia à perplexidade e ao pessimismo.

CONTEXTO

Sobre o autor
Durante cerca de quarenta anos, Carlos Drummond de Andrade representou um sopro de originalidade na poesia brasileira. Da herança modernista manifesta na poesia dos anos 30, passando pela poesia de caráter social dos anos 40 e pela acentuação da tendência reflexiva na década de 50, até chegar em uma poesia de síntese, retomada e ainda de renovação nos anos 60, temos um conjunto de proposições que respondem de forma imediata às questões de seu tempo.  
Importância do livro
Depois de um período de engajamento político mais explícito, Drummond passa por uma fase de decepção com os rumos do socialismo após a Segunda Guerra Mundial. O abandono da militância conduziu o poeta a uma introspecção mais acentuada. Claro Enigma é o melhor produto dessa vertente e apresenta um traço forte da poesia do autor: sua capacidade de verticalizar os temas de que trata, submetendo-os a uma visão profunda e transcendente. 
Período históricoDrummond sempre se colocou como o poeta da vida presente e como “gauche”, isto é, capaz de retratar o incômodo das situações diante das quais o indivíduo é colocado. Em livros como A Rosa do Povo, retratou a guerra européia e a ditadura varguista, evidenciando sua postura contrária a elas. Em livros como Claro Enigma, faz referência ao mundo imediatamente posterior à guerra e à ditadura, mostrando a mesma perplexidade e o mesmo inconformismo.

ANÁLISE

Os 41 poemas de Claro Enigma são distribuídos em seis seções: I – “Entre Lobo e Cão” (18 poemas); II – “Notícias amorosas” (7 poemas); III – “O menino e os homens” (4 poemas); IV – “Selo de Minas” (4 poemas); V – “Os lábios cerrados” (6 poemas); VI – “A máquina do mundo” (2 poemas).  
Desse conjunto, destacam-se os primeiros poemas, que indicam certos aspectos importantes do livro como um todo. Assim, “Dissolução” (poema de abertura do livro) traz versos significativos: “Esta rosa definitiva, / ainda que pobre” faz clara referência ao livro de 1945. A “pobreza” dessa rosa vem da dissolução das afirmações categóricas, das certezas absolutas. Resultado dessa desconstrução é a fragmentação humana que, embora sempre presente na obra do poeta, é acentuada consideravelmente através da afirmação da submissão (“aceito a noite”), da imobilidade (“Braços cruzados”), da dúvida (“Um fim unânime concentra-se / e pousa no ar. Hesitando”), do espalhamento (“Assim a paz, / destroçada”) e do silêncio (“calamo-nos”). 
Se este primeiro poema apresenta os parâmetros, digamos, ideológicos do livro, o segundo, “Remissão”, aponta os princípios formais que serão seguidos. Trata-se de um soneto clássico: versos decassílabos e esquema de rimas retirado da tradição camoniana (ABAB ABAB CDE CDE). Mas aqui também temos a reafirmação de linhas temáticas que serão seguidas: os últimos versos do poema (“enquanto o tempo, em suas formas breves / ou longas, que sutil interpretavas, / se evapora no fundo de teu ser?”) sugerem um tempo voltado para dentro do poeta, isto é, uma perspectiva interior, introspectiva.  
Além disso, nessa indagação que o poeta dirige a si mesmo, é possível entrever um questionamento desencantado da atividade poética. Mas esse desencanto está longe de significar uma proposta de abandono da poesia. Antes, é o elogio da poesia em si, da realização poética enquanto tal, menos afeita à referência exterior, ao tempo voltado para fora. 
O quarto poema da coletânea, “Legado”, confirma as marcas formais clássicas do livro, trata-se de um soneto alexandrino (versos de doze sílabas). No entanto, o que se expressa com essa forma clássica é algo bastante anticlássico: a descrença na perenidade da poesia. Para o contexto moderno, isso significa colocar em xeque a capacidade agressiva da palavra. O final é tão irônico quanto melancólico: “De tudo quanto foi meu passo caprichoso / na vida, restará, pois o resto se esfuma, / uma pedra que havia no meio do caminho”. 
Outros poemas antológicos da obra são: “Amar”, que trata da experiência amorosa quase compulsória, isto é, independente do próprio alvo desse amor; “A um varão, que acaba de nascer”, repleto de premonições pessimistas; “Os bens e o sangue”, que focaliza a herança mineira da qual o poeta não consegue escapar; e “A máquina do mundo”, resgate do tema tradicional, abordado de uma perspectiva moderna, segundo a qual o indivíduo rejeita a possibilidade do conhecimento pleno do mundo.

FEDERAL DO PARANÁ 2016/2017 LITERATURA - A última quimera, de Ana Miranda

A Última Quimera


Título: A Última Quimera
Autor: Ana Miranda

Sinopse*: Com sua rara habilidade de trazer até o presente o sentimento vivo do passado, Ana Miranda, que já recriou no premiado Boca do Inferno as aventuras do inquieto Gregório de Matos na Bahia do século XVII, debruça-se neste livro sobre a vida e a obra de Augusto dos Anjos (1884-1914), o poeta que surpreendeu nosso mundo literário ao misturar a objetividade do cientificismo com os mais profundos sentimentos do ser humano. Lastreada por uma ampla pesquisa histórica, a autora não só dá corpo poético às inquietações metafísicas que consumiam o jovem poeta, como traça um quadro impecável dos costumes e principais acontecimentos da época: os descaminhos da República, as disputas políticas, a Revolta da Chibata, a modernização do Rio de Janeiro, o duelo entre Olavo Bilac e Raul Pompéia, a onipresente influência francesa, etc. O resultado é um panorama vivo de um dos momentos mais fascinantes de nossa história recente, numa obra literária instigante e memorável. 
Fonte: www.alunos.diaadia.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=92 

Leia um excelente resumo comentário em:
http://www.recantodasletras.com.br/redacoes/3373696

Conheça um pouco sobre a aoutora emhttp://www.anamirandaliteratura.com.br/