segunda-feira, 15 de junho de 2026

Sou filho das selvas

Uma luz é filtrada pelas folhas densas das árvores e clareia o chão úmido da mata. Uma imagem que, para os japoneses, poderia ser interpretada como um komorebi perfeito.

Agora é possível ouvir passos que se aproximam. São inúmeros e parecem estar ritmados ao som de uma fanfarra. Mais próximos, mais próximos, o som aumenta como se alguém mexesse no botão de volume de um rádio. O que cantam parece ser algo tão puro, valente e encantador:

"Meu canto de morte,

Guerreiro, ouvi:

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci;

Guerreiros, descendo

Da tribo tupi."

Que momento glorioso! Eu ali, um simples espectador de um dos desfiles mais encantadores que já presenciei, um deslumbre inesquecível. Os indígenas passam, em uma cadência perfeita, ali, na minha frente. Parecem não se importar com a minha presença. Estico o braço e toco em um deles. Ele não se mexe. Continua caminhando. Cantam juntos, olhando para o horizonte, como se seguissem um destino conhecido apenas por eles.

Então, de repente, tudo começa a desaparecer. Primeiro os sons. Depois as cores. Por fim, as figuras.

Abro os olhos.

— Guilherme! Você está dormindo? — pergunta meu pai, sorrindo.

Olho ao redor. Estou no banco de trás do carro. Meu pai dirige pela estrada enquanto meu irmão observa a paisagem pela janela.

— Já estamos chegando? — pergunto, ainda confuso.

— Estamos quase nas Cataratas — responde meu pai.

Sento-me direito. O coração ainda bate acelerado por causa do sonho. Em poucos dias seria a apresentação do Dia do Índio na escola, e eu precisava decorar o poema I-Juca Pirama. Talvez por isso aqueles versos não saíssem da minha cabeça.

Quando chegamos, o rugido das águas tomou conta de tudo. Era um som poderoso, impossível de ignorar. Caminhamos pelas trilhas cercadas pela mata e, a cada curva, eu me sentia mais impressionado.

Foi então que encontramos um guia.

Ele era um senhor de fala tranquila e olhos atentos, daqueles que parecem guardar muitas histórias.

— Vocês conhecem a lenda das Cataratas? — perguntou.

Balancei a cabeça negativamente.

— Então vou contar.

Sentamos próximos ao mirante. Atrás dele, a névoa das quedas-d'água subia como fumaça branca em direção ao céu.

— Há muito tempo — começou o guia — vivia nesta região uma bela jovem indígena chamada Naipi. Sua beleza era conhecida por todas as tribos. Segundo a tradição, ela havia sido prometida ao deus-serpente M'Boy. Mas Naipi se apaixonou por um jovem guerreiro chamado Tarobá. E Tarobá também a amava. Os dois decidiram fugir juntos pelo rio. Porém, M'Boy descobriu a fuga e ficou furioso. Com sua enorme força, cortou a terra, abriu uma gigantesca fenda e fez as águas despencarem em uma queda colossal. Assim nasceram as Cataratas. Diz a lenda que Tarobá foi transformado em uma árvore às margens das quedas. Naipi tornou-se uma rocha no meio das águas. E M'Boy permanece ali, guardando para sempre seu reino.

Por alguns instantes, fiquei em silêncio. Observei a floresta. O vento. A névoa. O som das águas. Apertei os olhos com as duas mãos. Será que estou sonhando novamente? Olhei para o lado. Ali estava meu pai em pé, segurando a mão do meu irmão. Agora era real. Estava verdadeiramente nas Cataratas do Iguaçu e alguém havia contado uma história. Para testar se era real, resolvi fazer uma pergunta:

— Estamos em solo indígena?

O guia, mais que depressa, respondeu que sim com a cabeça e, olhando bem nos meus olhos, disse:

— A América toda é solo indígena. Foz do Iguaçu é apenas um dos palcos onde contamos histórias que jamais devem ser esquecidas.

Nessa hora, parecia que o guia havia se esquecido de todos os outros que ali estavam e, em uma conversa unicamente comigo, decidira contar mais sobre tudo o que sabia.

— Para você ter uma ideia, pequeno garoto, estamos em uma região trinacional em que os três países preservam muito da cultura dos povos originários. As Cataratas do Iguaçu não são uma das maravilhas da natureza exclusivamente brasileira; elas dividem os territórios brasileiro e argentino. As Cataratas são um exemplo claro de que Deus pode dar uma bênção que beneficia duas nações. Não se esqueça disso.

Que profundo aquilo que ele havia acabado de falar. Mas isso me fez concluir que, se as duas nações não entendessem isso, poderiam se tornar inimigas. O guia queria me contar mais. Eu parecia querer tirar uma conclusão de cada nova história.

— Vocês já foram a Ciudad del Este? — perguntou o guia. — Passando pela Ponte da Amizade, ao olhar para o lado direito da ponte — isso para quem está indo para o Paraguai —, você observará uma ilha: a Ilha Acaray. Moradores mais antigos também a chamam de Ilha das Cobras. Um detalhe importante: essa ilha pertence ao Brasil. — risos. — Aqui temos uma história não menos importante que a Lenda das Cataratas, mas muitas pessoas não a conhecem. A versão mais conhecida da história conta que Jupira era uma jovem indígena de extraordinária beleza que vivia na ilha. Tão bela era que despertava o interesse de todos os guerreiros da região. Para protegê-la, seus pais a mantinham na parte mais alta da ilha, longe dos visitantes. Com o passar dos anos, Jupira cresceu sem se apaixonar por ninguém e, segundo a lenda, seu espírito permanece na ilha até os dias de hoje, como uma guardiã daquele lugar. Alguns chamam essa narrativa de O Mito da Princesa Jupira e ainda dizem que o pai a isolou no topo da ilha para que nenhum dos pretendentes chegasse até ela.

— Sabe o que significa Acaray? O som "i" no final das palavras, na língua guarani, geralmente indica o diminutivo. E no início significa rio ou água.

Meu Deus! Quanta coisa estava passando pela minha cabeça. Então, Rio Iguaçu é rio de água? Preciso saber o que significa "guaçu" em tupi-guarani. Mas uma coisa eu já estava percebendo: nossa língua, nossa cultura, que mistura era essa? Agora entendi o que o professor de História disse na aula sobre a formação do povo brasileiro: somos um amálgama. Estou cada vez mais curioso para descobrir cada história, cada cantinho dessa cidade.

— Pequeno menino, Acaray significa "pequena coroa". E dizem que ela ainda está lá. Ela é a guardiã da região. — O velho sorriu. — Algumas pessoas dizem que, em certas manhãs de neblina, uma jovem pode ser vista no alto da ilha. Outros juram que é apenas o desenho das árvores contra a luz do amanhecer.

Meu pai me puxou pelo braço. Hora de ir embora. Meu irmão queria comprar uma camiseta. Meu pai comprou algumas lembranças para expor na estante de casa e mostrar para todo mundo que havia visitado as Cataratas do "rio grande" (durante o momento em que eles escolhiam seus souvenires, eu pesquisei no Google o significado de Iguaçu). Eu só queria ir para o carro e poder digerir tudo aquilo que havia acontecido durante o passeio.

No caminho de volta, o cansaço venceu novamente. Fechei os olhos e me vi outra vez na mata. A luz atravessava as folhas das árvores. Ao longe, ouvi o canto dos guerreiros. Mas, desta vez, não caminhei em direção a eles. Caminhei em direção ao rio. Lá estava Jupira. Envolvida pela névoa das águas, como se fosse parte da própria floresta.

— Você encontrou o que procurava? — perguntou ela.

Pensei nos guerreiros do épico de Alencar. Na lenda de Naipi e Tarobá. Nas águas das Cataratas. Então respondi:

— Acho que sim.

Ela sorriu.

— E o que encontrou?

Olhei para a correnteza.

— Histórias.

Ela apontou para o meu peito.

— Você encontrou pertencimento. As histórias estavam aqui antes de você nascer e continuarão aqui depois que você partir. Mas agora elas também vivem em você.

A névoa se tornou mais intensa. Os guerreiros começaram a cantar. As águas rugiram. As árvores dançaram com o vento. E tudo desapareceu.

Quando abri os olhos, estava no auditório da escola. Meu nome havia sido chamado. Caminhei até o palco segurando a folha do poema. Respirei fundo. E comecei:

"Meu canto de morte,

Guerreiro, ouvi..."

Não enxergava apenas palavras. Via os guerreiros atravessando a mata. Via Naipi e Tarobá navegando pelo rio. Via Jupira guardando a floresta. Via as Cataratas.

Enquanto existir alguém disposto a contar uma lenda, recitar um poema ou ouvir o canto da floresta, eles continuarão vivos.


sexta-feira, 22 de maio de 2026

A rua

Uma rua pode revelar uma realidade sem nenhuma palavra.

Nas rachaduras da calçada, no portão sempre fechado, na cadeira vazia da varanda, no comércio que abriu tarde demais, na freada antes da lombada.

Algumas carregam o cansaço de quem acorda antes do sol. Outras exibem a pressa, o abandono, a esperança nas roupas de bebê penduradas no varal. 

Há ruas onde crianças brincam até anoitecer; outras, onde o medo aprende a andar cedo.

Muros, grades, flores no jardim. Música alta, som de vozes na tevê, fumaça de fogão a lenha. Cachorro latindo, gato no telhado, chorrinho e cantiga de ninar.

Toda rua é um retrato humano.
E mesmo calada, sempre está dizendo alguma coisa.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Entre a memória e a fronteira: Festa do Povo Paraguaio celebra cultura, mães e raízes em Foz do Iguaçu

Em maio, duas datas carregadas de significado histórico e afetivo se encontram no coração da comunidade paraguaia: o Dia da Independência do Paraguai, celebrado em 14 e 15 de maio, e o Dia das Mães. Em Foz do Iguaçu, cidade marcada pela convivência entre povos e culturas da tríplice fronteira, essas celebrações ganharam mais uma vez um tom especial com a realização da tradicional Festa do Povo Paraguaio.

A quinta edição do evento aconteceu no último dia 16 de maio, na Vila Paraguaia, bairro localizado às margens do Rio Paraná, praticamente vizinho do Paraguai. Separados apenas pelo rio que também marca a divisa entre os dois países, Brasil e Paraguai compartilham naquela região muito mais do que território: compartilham histórias, famílias, sotaques e tradições.

A festa é organizada por duas amigas da comunidade, Indyanara e Luiza, esta presidente da associação de moradores da Vila Paraguaia, filha de um dos pioneiros paraguaios que ajudaram a construir a história do bairro em Foz do Iguaçu. Mais do que um evento cultural, a celebração tornou-se um símbolo de pertencimento e preservação das raízes paraguaias em solo brasileiro.

A relação de Foz do Iguaçu com os povos vizinhos vem de longa data. Um levantamento populacional realizado em 1889 registrou 324 habitantes na então colônia militar da região, sendo a maioria paraguaios e argentinos, além da presença indígena e de outros grupos ligados à extração de erva-mate e madeira.

Essa diversidade continua viva até hoje — e pode ser vista em festas como essa.

Durante o evento, o pequeno bairro ganhou cores, música e aromas típicos do Paraguai. Moradores e visitantes acompanharam apresentações culturais, danças tradicionais, músicas folclóricas, além de exposições de artesanato que ajudam a manter viva a identidade do povo paraguaio na fronteira.

Na culinária, um dos grandes destaques foi o tradicional “vori vori”, prato típico paraguaio preparado à base de caldo e bolinhas de farinha de milho e queijo, além da famosa chipa, patrimônio gastronômico muito apreciado pelos moradores da fronteira.

As fotos registradas durante a festa mostram a participação da comunidade, famílias reunidas, crianças, idosos e visitantes celebrando juntos uma herança cultural que atravessa gerações. Em uma cidade conhecida mundialmente pelas Cataratas, eventos como a Festa do Povo Paraguaio revelam outro patrimônio valioso de Foz do Iguaçu: sua diversidade humana e cultural.

Mais do que celebrar datas históricas, a festa reafirma a importância dos imigrantes paraguaios na formação social da cidade e fortalece os laços entre os povos da fronteira, mostrando que cultura também é memória, resistência e união.















sexta-feira, 15 de maio de 2026

O Homem Que Nunca Conseguia Ficar

Havia um homem que sempre trocava de lugar.

Mudava de casa.
Mudava de cidade.
Mudava os móveis.
Mudava os planos.
Mudava até os sonhos.

Achava que o problema era o bairro.
Depois, acreditou que era o salário.
Mais tarde, pensou que era a falta de tempo.
Então culpou o governo, o calor, o trânsito, os vizinhos, a idade.

Comprou coisas que queria muito.
Esperou dias ansiosamente por entregas.
Sonhou com carros.
Com viagens.
Com uma casa silenciosa.
Com um sofá confortável.
Com um quarto escuro e frio o suficiente para dormir sem preocupações.

E por alguns instantes funcionava.

Funcionava quando a chave do carro novo girava.
Funcionava quando o cheiro de tinta fresca tomava conta da casa.
Funcionava quando alguém dizia:
“Agora sua vida vai pra frente.”

Mas havia um problema:
A felicidade sempre chegava com prazo de validade.

Era como segurar água nas mãos.

Quanto mais apertava, mais ela escapava.

Com o tempo, percebeu algo estranho:
Não importava onde estivesse, existia sempre uma sensação de não pertencimento.

Como se sua alma estivesse esperando alguma coisa que o mundo não sabia entregar.

Foi então que começou a notar detalhes pequenos.

Os idosos olhando fotografias antigas em silêncio.
Os cemitérios crescendo.
As rugas surgindo devagar no rosto das pessoas.
Os hospitais lotados.
Os remédios sobre as mesas.
Os “adeus” que ninguém estava preparado para dizer.

Descobriu que o mundo inteiro sofria da mesma saudade.

Uma saudade de algo que muitos nunca tinham visto.

Então lembrou de Abraão.

A Bíblia dizia que ele morava em tendas porque aguardava uma cidade cujo construtor era Deus.

Achou aquilo bonito.

Depois lembrou de José do Egito, que viveu no palácio mais poderoso da Terra, mas pediu que seus ossos não permanecessem no Egito.

Até os grandes homens da Bíblia pareciam carregar a sensação de que estavam apenas de passagem.

Naquela noite, sentado sozinho, o homem percebeu algo assustador e ao mesmo tempo consolador:

Talvez ninguém consiga realmente “ficar” neste mundo.

Talvez a alma humana tenha sido feita para outro lugar.

E então entendeu por que nada satisfaz completamente.

Nem dinheiro.
Nem beleza.
Nem fama.
Nem prazer.
Nem conquistas.

Porque existem vazios que não são daqui.

O mundo oferece distrações.
O Céu oferece lar.

Naquela madrugada, pela primeira vez em muitos anos, ele olhou para cima.

Não para procurar estrelas.

Mas para procurar esperança.

E enquanto a cidade fazia barulho do lado de fora, uma paz silenciosa começou a nascer dentro dele.

Como se Deus sussurrasse:

“Você sente falta de casa porque foi criado para a eternidade.”


Produzido com IA.  

terça-feira, 28 de abril de 2026

: - )

 Dois amigos se encontram, como quem não quer nada, e de repente o passado encosta na mesa.

— Lembra do tijolão que comprei quando ainda éramos bem jovens? — diz um, com um meio sorriso, como quem revive um troféu antigo.

— Fazia sucesso — responde o outro, sem hesitar. — Imagina, quando tocava aquele “bip” na minha cintura, eu me sentia  muito importante, E olha que muita gente nem entendia o que estava acontecendo. 

E os dois riem.

Porque era estranho mesmo. Um toque de telefone ecoando numa festa, num café, num bar, chamava atenção como se fosse um anúncio público da própria existência. E aqueles ringtones? Cada um mais chamativo que o outro. Era quase uma assinatura sonora da pessoa.

— Mas o melhor — continua um deles — era a encenação.

— Nossa!!! — o outro já antecipa, rindo.

— Tocava, a gente saía de onde estava, ia pra um canto qualquer e começava a gesticular. Como se o corpo pudesse traduzir uma conversa que ninguém estava ouvindo.

—  Lembrei-me também do nosso amigo que estava sempre acompanhando a moda e apareceu com o tijolão na cintura, todos riram dele, pois o irmão é que era médico e ele com aquele aparelho do lado parecia ser o plantonista.

Os dois ficam alguns segundos em silêncio, como se enxergassem aquelas cenas acontecendo diante deles.

— Era bem estranho mesmo — conclui um, ainda rindo. — Mas sabe o que quase me fez jogar aquele tijolão fora?

— A conta?

— A conta. — agora os dois riem juntos — Cobravam tudo! Minuto, deslocamento, mensagem. Meu Deus, parecia um assalto.

— Bons tempos!

— Falando em mensagem, como era o nome mesmo?

— SMS.

— Isso! SMS — ele repete, saboreando a sigla — Short Message Service. Até 160 caracteres, e sem internet.

— Sem internet. — o outro balança a cabeça, como se isso hoje fosse quase inacreditável.

— E tinha um nome que a gente usava...

— Tinha mesmo! — o outro se anima — Como era?

Os dois se olham, e quase ao mesmo tempo respondem:

— Torpedo.

— Mas peraí —  um deles interrompe, com aquele ar de quem não deixa a história passar batida —  SMS já não é mais do tijolão.

— Verdade! — o outro se corrige na hora — Aí já estamos falando dos Nokias, aquele auge do celular raiz.

E os dois riem, como quem muda de fase dentro da própria memória.

— E os emojis? — um lança, quase como quem abre uma gaveta esquecida.

— Se lembro? — o outro já entra no jogo — Aquilo era arte!

— Meu pai já fazia isso na máquina de escrever, desenhava com as teclas, mas acho que ele nunca imaginou que a gente ia mandar “carinha” por mensagem.

— Total! — responde o amigo — Era tipo emoção em código.

E aí os dois começam a puxar da memória, como quem coleciona pequenas relíquias:

— Clássicos. Vamos ver se ainda lembramos.

E quase como um ritual, eles vão dizendo em voz alta:

— :) ou :-) — sorriso, feliz

— :( ou :-( — triste

— ;) ou ;-) — piscadinha

— :-P ou :p — língua pra fora, zoeira pura

— :-D — gargalhada

— :-O ou :-o — surpresa

— >:( — bravo

— :'( — chorando

— <3 — coração, esse aqui era especial

— :-* — beijo

Eles param. Sorriem.

— Engraçado.  — diz um, pensativo — a gente tinha menos recurso, mas talvez colocasse mais intenção.

— É! — o outro concorda — hoje tem emoji pra tudo, mas naquela época, cada símbolo parecia que carregava um pouco da gente.

Silêncio de novo. Mas agora com um certo gosto de saudade boa.

— E pensar que tudo isso cabia em 160 caracteres.

— E ainda tinha que escolher bem, porque cada mensagem custava.

Os dois riem mais uma vez.

Porque, no fundo, não era só tecnologia.

Era jeito de sentir.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

O dia em que parar não assusta mais

Dia de greve.

Os ônibus estão parados. Os motoristas de aplicativos também.

Curioso, depois daquele “dia em que a Terra parou”, lá no auge da pandemia de COVID-19, parece que nada mais assusta tanto assim. A gente já viu o mundo desacelerar de um jeito tão absurdo que, agora, o caos cotidiano quase soa comum.

Mas não deixa de incomodar.

Porque, no fundo, a pergunta fica martelando: se o transporte coletivo é uma concessão pública, se a mobilidade urbana é um bem comum, então quem está falhando? Quem está negligenciando?

É, talvez pense demais.

Porque começo falando de greve e, quando vejo, já estou discutindo etimologia.

A palavra “greve” vem do francês grève, que originalmente significava uma faixa de areia à beira de um rio ou mar. Um espaço meio neutro, meio de ninguém. Há quem diga que era ali que trabalhadores se reuniam para protestar, justamente por não ser um território “formal”.

Outra versão, talvez a mais conhecida, aponta para a Place de Grève, em Paris, às margens do Rio Sena. Um lugar onde, durante séculos, trabalhadores se encontravam, primeiro para procurar emprego, depois para reivindicar direitos.

Não há um ano exato que marque o nascimento da greve como conhecemos hoje. Mas sabe-se que, no século XVIII, esses encontros começaram a ganhar um tom mais reivindicatório. Com a Revolução Francesa, o espaço virou símbolo. E, no século XIX, o termo faire grève já carregava o sentido que conhecemos: parar de trabalhar como forma de pressão.

Ou seja, essa história de parar para ser ouvido, não é de hoje.

E aí vem a pergunta que ecoa: 

Por que as pessoas sempre precisam se reunir para exigir melhores condições?
Por que quem emprega não percebe isso antes?

Fico com a sensação de que existe um desencontro quase permanente: quem paga acredita que está pagando muito; quem recebe sente que recebe pouco. E os dois lados seguem, cada um convicto da sua própria razão.

Será que é da natureza humana essa dificuldade de perceber o outro?
Ou será que, no fundo, ninguém acha que precisa se preocupar mesmo?

Afinal, como diz o velho ditado:
“manda quem pode, obedece quem tem juízo.”

Uma frase que, no fundo, não é só sobre autoridade. É sobre conformismo. Sobre sobrevivência. Sobre saber que, às vezes, questionar custa caro.

E assim a roda gira.

“O que o chefe manda, se faz.”
“É melhor calar e obedecer.”
“Acatar a ordem superior.”

Mas até quando?

Porque, olhando para um dia como hoje, cidade travada, gente parada, rotina interrompida, talvez a gente precise encarar uma verdade desconfortável:

Se chegou ao ponto de parar tudo é porque, em algum momento, ninguém quis escutar quando ainda dava para ajustar.

No fim das contas, a greve não começa no dia em que o trabalho para.

Ela começa bem antes, no dia em que alguém percebe que está sendo ignorado e decide que, sozinho, já não dá mais.

Manda quem pode, obedece...

 Ele se chamava Jonas.

Jonas acordava todos os dias às 5h17 — nem 5h15, nem 5h20. 5h17. Era o tempo exato que ele calculava para não se atrasar, não chamar atenção, não criar problema. Vestia o uniforme ainda meio amarrotado, tomava um café ralo e saía em silêncio, como se até o barulho pudesse ser interpretado como insubordinação.

No trabalho, Jonas era conhecido como “tranquilo”. Nunca reclamava. Nunca questionava. Nunca dizia “não”.
Se pediam hora extra, ele fazia.
Se mudavam o turno, ele aceitava.
Se atrasavam o pagamento, ele respirava fundo e seguia.

— “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, dizia ele, meio rindo, meio sério.

Mas Jonas não era burro. Pelo contrário. Ele via tudo.

Via o colega adoecendo de cansaço.
Via a funcionária chorando no banheiro.
Via o chefe dizendo “é o que dá pra pagar”, enquanto trocava de carro no estacionamento.

E, ainda assim, Jonas se calava.

Porque Jonas tinha medo.
Medo de perder o emprego.
Medo de “arrumar problema”.
Medo de ser aquele que “fala demais”.

Até que veio o dia.

O dia em que não tinha ônibus.
O dia em que não tinha aplicativo.
O dia em que a cidade parecia travada e, pela primeira vez, Jonas também travou.

Ele ficou parado na calçada, olhando outras pessoas como ele: cansadas, atrasadas, irritadas… mas, curiosamente, juntas.

Alguém falou alto:
— “Se a gente não parar, nada muda.”

Jonas ouviu.

Outro respondeu:
— “Mas parar dá problema.”

E um terceiro retrucou:
— “Continuar também tá dando.”

Aquilo ficou ecoando na cabeça dele.

Continuar também tá dando.

Naquele dia, Jonas chegou atrasado. Pela primeira vez em anos.

O chefe veio com o discurso pronto:
— “Aqui não é bagunça, Jonas. Tem regra.”

E pela primeira vez Jonas respondeu.

Calmo. Sem gritar. Sem desrespeitar.

— “Tem regra pra gente, mas não tem pra tudo, né?”

O silêncio que veio depois foi diferente de todos os outros silêncios que Jonas já tinha vivido.

Não era o silêncio do medo.
Era o silêncio do incômodo.

Na semana seguinte, Jonas não estava sozinho.

Outros começaram a falar também.
Não gritando. Não quebrando nada.
Mas deixando de aceitar tudo.

Jonas continuava trabalhando. Continuava responsável.
Mas já não era obediente por reflexo — era consciente por escolha.

E ele entendeu uma coisa simples, mas poderosa:

Obedecer pode evitar problemas imediatos…
Mas questionar, às vezes, é o único jeito de resolver os problemas que nunca acabam.

E naquele dia, enquanto voltava pra casa — ainda sem ônibus, mas com algo diferente no peito — Jonas percebeu:

O mundo não muda quando um manda e o outro obedece.

O mundo começa a mudar quando quem sempre obedeceu, finalmente entende que também pode falar.


Texto elaborado com auxilio de IA. 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Educar filhos emocionalmente saudáveis: que filhos você vai deixar para o mundo? - Escola de Pais | 1ª Edição 2026

Educar filhos emocionalmente saudáveis: que filhos você vai deixar para o mundo?

Escola de Pais | 1ª Edição 2026

Na noite de ontem, 23 de abril de 2026, a professora Marilu Grassi Fulgencio realizou a primeira edição de 2026 do projeto “Escola de Pais”, iniciativa que já desenvolve há muitos anos.

O projeto teve início no Colégio Cívico-Militar Costa e Silva, onde a professora atuou até 2024. Atualmente, na direção do Colégio Cívico-Militar Carlos Drummond de Andrade, Marilu trouxe a proposta para dar continuidade ao trabalho, fortalecendo a parceria entre escola e família.

A Escola de Pais consiste em encontros mensais, nos quais são apresentados e discutidos temas relevantes relacionados à educação dos filhos. Mais do que uma palestra, trata-se de um espaço de troca de experiências, vivências e práticas. Ao longo dos anos, o projeto já contou com a participação de pedagogos, psicólogos e profissionais de diversas áreas, além de pais e mães que compartilham suas experiências.

Neste primeiro encontro, a diretora e mestre Marilu Grassi Fulgencio iniciou apresentando a proposta, a dinâmica e o histórico do projeto, considerando que muitos dos presentes participavam pela primeira vez. Em seguida, introduziu o tema da noite:

“Educar filhos emocionalmente saudáveis: que filhos você vai deixar para o mundo?”

Durante a apresentação, foram destacados os principais objetivos da Escola de Pais:
  • Refletir sobre a formação emocional dos filhos;
  • Apresentar estratégias práticas de disciplina e orientação;
  • Fortalecer vínculos, limites e valores familiares.

Entre os pontos abordados, a professora enfatizou a importância do exemplo na educação:

“Ensine pelo exemplo.”

Ela destacou que o caráter é moldado desde a infância e que educar filhos exige planejamento, intenção e estratégia. Também abordou a importância de desenvolver a resiliência, ensinando que frustrações e pequenos fracassos fazem parte do aprendizado e contribuem para a formação de indivíduos emocionalmente fortes.

Outro tema relevante foi o papel dos pais como referência direta para os filhos. Nesse contexto, reforçou a necessidade de consciência sobre atitudes e comportamentos no dia a dia.

A professora também chamou atenção para o uso do mundo digital, destacando a importância da supervisão ativa e consciente dos pais, sem abrir mão do diálogo e da orientação. Alertou sobre os riscos da liberdade sem acompanhamento nas redes sociais.

Durante o encontro, houve intensa participação dos pais, que contribuíram com opiniões, relatos e experiências pessoais. Os professores Lorenzo, Izadora, Ivonete e a pedagoga Maria do Belém  estiveram presentes, enriquecendo ainda mais o debate. 

Foram discutidos aspectos importantes da rotina familiar, como:

  • Estabelecimento de horários e responsabilidades;
  • Participação dos filhos nas tarefas domésticas;
  • Construção de limites e valores;
  • A compreensão de que ser pai ou mãe vai além de um papel mecânico.

Um ponto de destaque foi o alerta sobre a coerência entre discurso e prática:
os filhos observam tudo — atitudes, comportamentos e até pequenas incoerências, como mentiras, imprudências no trânsito ou atitudes agressivas.

Ao final, a professora apresentou um slide com perguntas reflexivas para os pais:

  • Você sabe identificar o que seu filho sente?
  • Seu filho consegue se adaptar a mudanças?
  • Seu filho tem amigos?
  • Seu filho é persistente?
  • Como está a autoestima do seu filho?

Encerrando o encontro, os participantes puderam desfrutar de um momento de confraternização, com um café preparado com muito carinho pelas merendeiras da escola, incluindo sucos, bolos, sanduíches, pipoca e frutas. 

O evento reforçou a importância da parceria entre família e escola na formação de cidadãos mais conscientes, responsáveis e emocionalmente preparados para o mundo.







quinta-feira, 23 de abril de 2026

ENCCEJA 2026

Principais Datas Encceja 2026: 
Publicação do Edital: 31 de março de 2026. 
Justificativa de Ausência (para faltantes de 2025): 6 a 17 de abril de 2026. 
Inscrições: 4 a 15 de maio de 2026. 
Aplicação das Provas: 23 de agosto de 2026. 
Resultado Final: 14 de dezembro de 2026.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O silêncio que transforma

Era domingo, mas não daqueles domingos barulhentos de futebol e churrasco. Era um domingo quieto, desses em que o tempo parece andar de meias, sem fazer barulho no chão. Na igreja do bairro, o ventilador girava com preguiça, empurrando um ar morno que mais embalava do que refrescava. As pessoas estavam ali — cada uma com sua história, seus cansaços, seus pedidos não ditos. Dona Lúcia, por exemplo, sentou-se no mesmo banco de sempre. Ninguém sabia, mas ela carregava uma dor antiga no joelho e uma mais recente no coração. O culto seguia simples, como quase sempre. Um canto aqui, uma oração ali. Até que, no meio do silêncio, alguém começou a falar. Não era alto, não era ensaiado — era como se as palavras viessem de um lugar que não passava pela cabeça primeiro. Era um daqueles dons que a gente não explica direito, só sente. Palavra que consola, que encontra quem precisava ser encontrado. Dona Lúcia não entendeu tudo. Aliás, quase nada. Mas, curiosamente, entendeu o essencial. Sentiu. E, naquele instante, algo dentro dela — que há tempos estava endurecido — cedeu um pouco. Não foi milagre de sair andando sem dor. Não foi espetáculo. Foi pequeno, quase invisível. Mas foi real: uma espécie de alívio que não vinha do corpo, mas atravessava ele. No banco de trás, um rapaz fechou os olhos com força. Tinha chegado ali por insistência da mãe, meio descrente, meio irritado. Pensava que nada daquilo fazia sentido. Mas, naquele momento, uma frase — dita por alguém que ele nem conhecia — parecia ter sido feita sob medida para ele. Como se alguém tivesse lido um capítulo secreto da sua vida. Ele não contou pra ninguém. Só respirou diferente ao sair. E assim o culto terminou. Sem fogos, sem aplausos, sem nada que chamasse atenção de quem passasse na rua. Mas, dentro de cada um, alguma coisa tinha sido tocada. Talvez seja isso que chamam de dom. Não o barulho que impressiona, mas o silêncio que transforma. FEITO COM IA.