Eu fui piá de rua.
Não desses que dizem que brincavam na rua porque, vez ou outra, chutaram uma bola na calçada. Fui piá de rua com endereço, território e jurisdição: Conjunto Libra, Rua Piraí.
A Rua Piraí era nossa, a Rua Iapó era nossa, mas nosso território comum era a Rua Mané Garrincha, que na época nem tinha esse nome, pois ainda não ligava os bairros como hoje. Ela era uma rua provisória para prefeitura, mas era nossa orficialmente.
Ou pelo menos era isso que pensávamos.
Naquele tempo, ela não tinha o movimento que tem hoje. Dava para esticar uma rede de vôlei de um lado ao outro e, se a brincadeira fosse futebol, colocávamos os golzinhos no asfalto e pronto: estava inaugurado o estádio.
Carro?
De vez em quando aparecia um.
Alguém gritava:
— Ó o carro!
Arrastávamos o gol, esperávamos o cidadão passar e, imediatamente, retomávamos a posse do patrimônio público.
A prefeitura provavelmente nunca soube, mas havia concedido aquela rua para nós.
E havia moradores em todos os setores do nosso pequeno país.
Eu morava na Piraí. A Cíntia também, mas lá na última quadra. Júnior, Vinícius, Gabriela e Marcos moravam na rua de trás.
Marcos?
Bem, nós só descobrimos que ele se chamava Marcos depois de adultos.
Para nós, ele sempre foi o Índio.
Aliás, infância de bairro tinha dessas coisas. Você podia conviver dez anos com uma pessoa sem ter a menor ideia do nome que constava na certidão de nascimento dela.
Na avenida moravam Marli e a irmã. Tinha o Fabinho, o Etelvino e, evidentemente, o icônico Magvaldo.
Magvaldo não cabe nesta crônica.
Merece uma só para ele.
E havia ainda outros que apareciam, desapareciam, voltavam no dia seguinte e ninguém perguntava onde tinham ido. Criança não precisava confirmar presença. Bastava chegar.
Nossa comunicação também era bastante sofisticada.
A gente parava diante da casa e gritava:
— ÔÔÔÔ, FULANO!
Se não funcionasse, gritava mais alto.
Se a mãe aparecesse na janela dizendo:
— Ele tá de castigo!
Pronto.
Era o equivalente analógico de visualizar a mensagem e não poder responder.
Mas faltou alguém.
E eu sei que ele reclamaria se ficasse de fora.
Eder.
Meu primo.
Tecnicamente, Eder era um piá de prédio.
Mas ninguém é perfeito.
Ele morava em apartamento, conhecia elevador, interfone e essas modernidades todas. Só que, nos finais de semana, fazia sua migração particular para o Conjunto Libra.
E escolhia a rua.
Talvez porque tivesse descoberto uma coisa que nós, moradores do Conjunto Libra, nem percebíamos: aquelas ruas oferecia uma liberdade que não cabia entre quatro paredes.
No Libra, Eder deixava de ser piá de prédio.
Virava um dos nossos.
Jogava bola, vôlei, corria, inventava, brigava, fazia as pazes e participava daquele maravilhoso sistema educacional sem reconhecimento do MEC chamado rua.
A rua ensinava muita coisa.
Ensinava a dividir times.
Ensinava que o dono da bola tinha certos privilégios políticos.
Ensinava que “a bola é minha e eu vou embora” era uma poderosa ferramenta de negociação.
Ensinava medicina. Quantos "tampos" de dedão tivemos que colar de forma improvisada, quantos ralados, esfolados... O caso da porta da Brasília do pai do Vinícius que abriu, bem no momento da curva, não cabe aqui ainda, será conversa para outras crônicas. Acho que o leitor vai ficar curioso, mas não dá para contar agora.
Ensinava que uma discussão de quinze minutos sobre se a bola entrou ou não podia terminar imediatamente quando alguma mãe aparecia no portão:
— CHEGA! TODO MUNDO PRA CASA!
E todo mundo ia.
Porque existiam autoridades superiores ao dono da bola.
Hoje passo pela Mané Garrincha e quase não reconheço nosso antigo estádio.
A rua se tornou uma das mais movimentadas do bairro. Imagino o que aconteceria se alguém resolvesse esticar uma rede de vôlei de uma calçada à outra.
Provavelmente apareceria no grupo de WhatsApp do bairro antes mesmo do primeiro saque, ou da primeira bola furada, o que não era incomum acontecer, pois a cerca viva de espinhos era um rival difícil de vencer.
Talvez seja essa uma das diferenças entre o piá de rua e o piá de prédio.
Nós tínhamos menos estrutura e mais território.





















