Entrei na briga, resolvi discutir sobre a direita e a esquerda. Vem comigo?
Ultimamente, tenho ouvido tanta gente dizendo “sou de direita”, “sou de esquerda”, “não suporto a direita”, “detesto a esquerda”, que resolvi investigar. Parece que o mundo foi dividido em dois lados e que, obrigatoriamente, precisamos escolher um deles. E, de preferência, não gostar do outro.
Comecei pela escrita. Há quem escreva com a mão direita e quem escreva com a esquerda. Confesso que o que me dá certa aflição é letra feia, mas não vamos criar mais uma divisão por causa disso.
Outro dia, assistindo a um vídeo de Geografia, aprendi uma curiosidade. Você sabe identificar as margens direita e esquerda de um rio? Basta olhar no sentido da correnteza, de costas para a nascente.
No Rio Paraná, por exemplo, olhando de Itaipu em direção ao Marco das Três Fronteiras, Ciudad del Este fica à direita e Foz do Iguaçu, à esquerda. Portanto, Foz está na margem esquerda do Rio Paraná. Seria, então, uma cidade de esquerda? Calma, pessoal! É apenas Geografia.
E no Rio Iguaçu? Se você olhar das Cataratas em direção à foz do rio, Foz do Iguaçu estará em qual margem? Deixo como tarefa de casa. Afinal, professor não perde o costume.
Certa vez, precisei comprar uma peça para o carro. O vendedor perguntou se era a direita ou a esquerda. Fiquei na dúvida. Direita de quem? Minha ou de quem olha o carro de frente? Descobri que a referência é a posição de quem está sentado ao volante, olhando para a frente. Simples assim.
E o relógio? Tradicionalmente no braço esquerdo. A aliança? No Brasil, costuma ficar na mão direita durante o noivado e na esquerda depois do casamento. Até o amor muda de lado! Tomara que não mude de sentimento.
Você sabia que os botões das camisas masculinas tradicionalmente ficam à direita de quem veste, enquanto os das femininas ficam à esquerda? Uma das explicações históricas associa essa diferença ao tempo em que mulheres da elite eram vestidas por criadas. Até para abotoar uma camisa encontramos uma maneira de dividir os lados.
E os ingleses, que dirigem pela esquerda? Uma das explicações remonta aos cavaleiros medievais, que circulavam desse lado para manter a mão direita livre para sacar a espada. Imagine um brasileiro chegando a Londres e descobrindo que, por lá, a esquerda é o lado certo!
No cérebro, a situação é ainda mais curiosa: o hemisfério esquerdo controla boa parte dos movimentos do lado direito do corpo, e vice-versa. Ou seja, dentro da nossa própria cabeça, direita e esquerda precisam trabalhar juntas. Talvez esteja aí uma boa lição.
E no futebol? Quem não gostaria de ter uma perna esquerda tão destra quanto a de Nilton Santos, a Enciclopédia do Futebol? Ou a canhota de Branco, autor de verdadeiras bombas nas cobranças de falta? E Garrincha, que jogava pela ponta direita e deixava os adversários sem saber para que lado correr? No futebol, ninguém se incomoda com a esquerda ou com a direita. O importante é saber jogar. Pena que fora dos gramados nem sempre pensamos assim.
Até a linguagem entrou nessa história. A palavra “sinistro” vem do latim sinister, que também significava “esquerdo”. Com o tempo, ganhou sentidos negativos. Coitados dos canhotos! Será que até o vocabulário resolveu persegui-los.
Mas, afinal, de onde surgiram a direita e a esquerda na política?
A história nos leva à Revolução Francesa, em 1789. Na Assembleia, os representantes se organizaram fisicamente conforme suas posições. À direita, de modo geral, ficavam os defensores da monarquia e da ordem tradicional. À esquerda, aqueles que defendiam mudanças mais profundas na sociedade.
A disposição das cadeiras acabou dando nome a correntes políticas que atravessaram séculos e fronteiras. E pensar que tudo poderia ter sido diferente se alguém tivesse trocado as cadeiras de lugar!
Humberto Gessinger, dos Engenheiros do Hawaii, já brincava com essas contradições em A Revolta dos Dândis II, quando cantava: “Esquerda e direita, direitos e deveres”.
Uma frase curta, mas provocadora. Afinal, em tempos de tanta preocupação em defender a direita ou a esquerda, talvez estejamos nos esquecendo justamente dos direitos e dos deveres. Principalmente dos deveres, que parecem sempre pertencer ao lado de lá.
Hoje, evidentemente, as diferenças políticas são muito mais complexas. Existem várias direitas, várias esquerdas e inúmeras posições entre elas. O problema não está em ter convicções, mas em transformá-las em verdades absolutas.
Conheço pessoas extraordinárias que pensam diferente de mim. E outras que pensam exatamente como eu, mas com quem tenho enormes dificuldades de convivência. Isso deveria nos ensinar alguma coisa.
Um amigo costumava dizer que existem ideias dominantes em determinadas épocas, mas que nem tudo permanece para sempre. A história confirma isso. Costumes mudam, conceitos envelhecem e certezas aparentemente inabaláveis acabam sendo revistas.
Lembro novamente de Humberto Gessinger:
"Você esquece que eu não sou de ferro
E até o ferro pode enferrujar
Você esquece que eu não sou de aço
E faço questão de provar
Olhe pra mim... Enquanto eu me quebro"
Quando canta sobre a fragilidade humana e nos recorda de que até o ferro pode enferrujar. Se até o ferro sofre a ação do tempo, por que nossas opiniões deveriam permanecer intocáveis?
E Raul Seixas, em sua genial Metamorfose Ambulante, já nos provocava a desconfiar daquela velha opinião formada sobre tudo.
Não se trata de abandonar princípios ou mudar de opinião conforme o vento. Trata-se de reconhecer que aprender também exige disposição para rever aquilo que julgávamos definitivo.
Talvez a vida seja mesmo um grande campo de futebol. Há quem jogue pela direita, quem prefira a esquerda e quem passe os noventa minutos em cima do muro, reclamando do juiz. Mas de nada adianta discutir tanto os lados se ninguém estiver preocupado em fazer o gol.
Depois de tantas descobertas, cheguei a uma conclusão: a direita e a esquerda são importantes na Geografia, no trânsito, na anatomia, na história e na política. Mas há algo ainda mais importante: saber de onde estamos olhando.
Talvez o grande problema dos nossos dias seja que muita gente está tão preocupada em defender uma das margens que já nem se interessa em compreender o rio.
E agora, se me dão licença, preciso encerrar esta crônica. Ainda tenho uma lanterna do carro da minha esposa para comprar e não lembro se é a direita ou a esquerda. Vou ter que sentar no carro no banco do motorista, segurar firme o volante e olhar para frente.



















