segunda-feira, 27 de abril de 2026

O dia em que parar não assusta mais

Dia de greve.

Os ônibus estão parados. Os motoristas de aplicativos também.

Curioso, depois daquele “dia em que a Terra parou”, lá no auge da pandemia de COVID-19, parece que nada mais assusta tanto assim. A gente já viu o mundo desacelerar de um jeito tão absurdo que, agora, o caos cotidiano quase soa comum.

Mas não deixa de incomodar.

Porque, no fundo, a pergunta fica martelando: se o transporte coletivo é uma concessão pública, se a mobilidade urbana é um bem comum, então quem está falhando? Quem está negligenciando?

É, talvez pense demais.

Porque começo falando de greve e, quando vejo, já estou discutindo etimologia.

A palavra “greve” vem do francês grève, que originalmente significava uma faixa de areia à beira de um rio ou mar. Um espaço meio neutro, meio de ninguém. Há quem diga que era ali que trabalhadores se reuniam para protestar, justamente por não ser um território “formal”.

Outra versão, talvez a mais conhecida, aponta para a Place de Grève, em Paris, às margens do Rio Sena. Um lugar onde, durante séculos, trabalhadores se encontravam, primeiro para procurar emprego, depois para reivindicar direitos.

Não há um ano exato que marque o nascimento da greve como conhecemos hoje. Mas sabe-se que, no século XVIII, esses encontros começaram a ganhar um tom mais reivindicatório. Com a Revolução Francesa, o espaço virou símbolo. E, no século XIX, o termo faire grève já carregava o sentido que conhecemos: parar de trabalhar como forma de pressão.

Ou seja, essa história de parar para ser ouvido, não é de hoje.

E aí vem a pergunta que ecoa: 

Por que as pessoas sempre precisam se reunir para exigir melhores condições?
Por que quem emprega não percebe isso antes?

Fico com a sensação de que existe um desencontro quase permanente: quem paga acredita que está pagando muito; quem recebe sente que recebe pouco. E os dois lados seguem, cada um convicto da sua própria razão.

Será que é da natureza humana essa dificuldade de perceber o outro?
Ou será que, no fundo, ninguém acha que precisa se preocupar mesmo?

Afinal, como diz o velho ditado:
“manda quem pode, obedece quem tem juízo.”

Uma frase que, no fundo, não é só sobre autoridade. É sobre conformismo. Sobre sobrevivência. Sobre saber que, às vezes, questionar custa caro.

E assim a roda gira.

“O que o chefe manda, se faz.”
“É melhor calar e obedecer.”
“Acatar a ordem superior.”

Mas até quando?

Porque, olhando para um dia como hoje, cidade travada, gente parada, rotina interrompida, talvez a gente precise encarar uma verdade desconfortável:

Se chegou ao ponto de parar tudo é porque, em algum momento, ninguém quis escutar quando ainda dava para ajustar.

No fim das contas, a greve não começa no dia em que o trabalho para.

Ela começa bem antes, no dia em que alguém percebe que está sendo ignorado e decide que, sozinho, já não dá mais.

Manda quem pode, obedece...

 Ele se chamava Jonas.

Jonas acordava todos os dias às 5h17 — nem 5h15, nem 5h20. 5h17. Era o tempo exato que ele calculava para não se atrasar, não chamar atenção, não criar problema. Vestia o uniforme ainda meio amarrotado, tomava um café ralo e saía em silêncio, como se até o barulho pudesse ser interpretado como insubordinação.

No trabalho, Jonas era conhecido como “tranquilo”. Nunca reclamava. Nunca questionava. Nunca dizia “não”.
Se pediam hora extra, ele fazia.
Se mudavam o turno, ele aceitava.
Se atrasavam o pagamento, ele respirava fundo e seguia.

— “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, dizia ele, meio rindo, meio sério.

Mas Jonas não era burro. Pelo contrário. Ele via tudo.

Via o colega adoecendo de cansaço.
Via a funcionária chorando no banheiro.
Via o chefe dizendo “é o que dá pra pagar”, enquanto trocava de carro no estacionamento.

E, ainda assim, Jonas se calava.

Porque Jonas tinha medo.
Medo de perder o emprego.
Medo de “arrumar problema”.
Medo de ser aquele que “fala demais”.

Até que veio o dia.

O dia em que não tinha ônibus.
O dia em que não tinha aplicativo.
O dia em que a cidade parecia travada e, pela primeira vez, Jonas também travou.

Ele ficou parado na calçada, olhando outras pessoas como ele: cansadas, atrasadas, irritadas… mas, curiosamente, juntas.

Alguém falou alto:
— “Se a gente não parar, nada muda.”

Jonas ouviu.

Outro respondeu:
— “Mas parar dá problema.”

E um terceiro retrucou:
— “Continuar também tá dando.”

Aquilo ficou ecoando na cabeça dele.

Continuar também tá dando.

Naquele dia, Jonas chegou atrasado. Pela primeira vez em anos.

O chefe veio com o discurso pronto:
— “Aqui não é bagunça, Jonas. Tem regra.”

E pela primeira vez Jonas respondeu.

Calmo. Sem gritar. Sem desrespeitar.

— “Tem regra pra gente, mas não tem pra tudo, né?”

O silêncio que veio depois foi diferente de todos os outros silêncios que Jonas já tinha vivido.

Não era o silêncio do medo.
Era o silêncio do incômodo.

Na semana seguinte, Jonas não estava sozinho.

Outros começaram a falar também.
Não gritando. Não quebrando nada.
Mas deixando de aceitar tudo.

Jonas continuava trabalhando. Continuava responsável.
Mas já não era obediente por reflexo — era consciente por escolha.

E ele entendeu uma coisa simples, mas poderosa:

Obedecer pode evitar problemas imediatos…
Mas questionar, às vezes, é o único jeito de resolver os problemas que nunca acabam.

E naquele dia, enquanto voltava pra casa — ainda sem ônibus, mas com algo diferente no peito — Jonas percebeu:

O mundo não muda quando um manda e o outro obedece.

O mundo começa a mudar quando quem sempre obedeceu, finalmente entende que também pode falar.


Texto elaborado com auxilio de IA. 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Educar filhos emocionalmente saudáveis: que filhos você vai deixar para o mundo? - Escola de Pais | 1ª Edição 2026

Educar filhos emocionalmente saudáveis: que filhos você vai deixar para o mundo?

Escola de Pais | 1ª Edição 2026

Na noite de ontem, 23 de abril de 2026, a professora Marilu Grassi Fulgencio realizou a primeira edição de 2026 do projeto “Escola de Pais”, iniciativa que já desenvolve há muitos anos.

O projeto teve início no Colégio Cívico-Militar Costa e Silva, onde a professora atuou até 2024. Atualmente, na direção do Colégio Cívico-Militar Carlos Drummond de Andrade, Marilu trouxe a proposta para dar continuidade ao trabalho, fortalecendo a parceria entre escola e família.

A Escola de Pais consiste em encontros mensais, nos quais são apresentados e discutidos temas relevantes relacionados à educação dos filhos. Mais do que uma palestra, trata-se de um espaço de troca de experiências, vivências e práticas. Ao longo dos anos, o projeto já contou com a participação de pedagogos, psicólogos e profissionais de diversas áreas, além de pais e mães que compartilham suas experiências.

Neste primeiro encontro, a diretora e mestre Marilu Grassi Fulgencio iniciou apresentando a proposta, a dinâmica e o histórico do projeto, considerando que muitos dos presentes participavam pela primeira vez. Em seguida, introduziu o tema da noite:

“Educar filhos emocionalmente saudáveis: que filhos você vai deixar para o mundo?”

Durante a apresentação, foram destacados os principais objetivos da Escola de Pais:
  • Refletir sobre a formação emocional dos filhos;
  • Apresentar estratégias práticas de disciplina e orientação;
  • Fortalecer vínculos, limites e valores familiares.

Entre os pontos abordados, a professora enfatizou a importância do exemplo na educação:

“Ensine pelo exemplo.”

Ela destacou que o caráter é moldado desde a infância e que educar filhos exige planejamento, intenção e estratégia. Também abordou a importância de desenvolver a resiliência, ensinando que frustrações e pequenos fracassos fazem parte do aprendizado e contribuem para a formação de indivíduos emocionalmente fortes.

Outro tema relevante foi o papel dos pais como referência direta para os filhos. Nesse contexto, reforçou a necessidade de consciência sobre atitudes e comportamentos no dia a dia.

A professora também chamou atenção para o uso do mundo digital, destacando a importância da supervisão ativa e consciente dos pais, sem abrir mão do diálogo e da orientação. Alertou sobre os riscos da liberdade sem acompanhamento nas redes sociais.

Durante o encontro, houve intensa participação dos pais, que contribuíram com opiniões, relatos e experiências pessoais. Os professores Lorenzo, Izadora, Ivonete e a pedagoga Maria do Belém  estiveram presentes, enriquecendo ainda mais o debate. 

Foram discutidos aspectos importantes da rotina familiar, como:

  • Estabelecimento de horários e responsabilidades;
  • Participação dos filhos nas tarefas domésticas;
  • Construção de limites e valores;
  • A compreensão de que ser pai ou mãe vai além de um papel mecânico.

Um ponto de destaque foi o alerta sobre a coerência entre discurso e prática:
os filhos observam tudo — atitudes, comportamentos e até pequenas incoerências, como mentiras, imprudências no trânsito ou atitudes agressivas.

Ao final, a professora apresentou um slide com perguntas reflexivas para os pais:

  • Você sabe identificar o que seu filho sente?
  • Seu filho consegue se adaptar a mudanças?
  • Seu filho tem amigos?
  • Seu filho é persistente?
  • Como está a autoestima do seu filho?

Encerrando o encontro, os participantes puderam desfrutar de um momento de confraternização, com um café preparado com muito carinho pelas merendeiras da escola, incluindo sucos, bolos, sanduíches, pipoca e frutas. 

O evento reforçou a importância da parceria entre família e escola na formação de cidadãos mais conscientes, responsáveis e emocionalmente preparados para o mundo.







quinta-feira, 23 de abril de 2026

ENCCEJA 2026

Principais Datas Encceja 2026: 
Publicação do Edital: 31 de março de 2026. 
Justificativa de Ausência (para faltantes de 2025): 6 a 17 de abril de 2026. 
Inscrições: 4 a 15 de maio de 2026. 
Aplicação das Provas: 23 de agosto de 2026. 
Resultado Final: 14 de dezembro de 2026.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O silêncio que transforma

Era domingo, mas não daqueles domingos barulhentos de futebol e churrasco. Era um domingo quieto, desses em que o tempo parece andar de meias, sem fazer barulho no chão. Na igreja do bairro, o ventilador girava com preguiça, empurrando um ar morno que mais embalava do que refrescava. As pessoas estavam ali — cada uma com sua história, seus cansaços, seus pedidos não ditos. Dona Lúcia, por exemplo, sentou-se no mesmo banco de sempre. Ninguém sabia, mas ela carregava uma dor antiga no joelho e uma mais recente no coração. O culto seguia simples, como quase sempre. Um canto aqui, uma oração ali. Até que, no meio do silêncio, alguém começou a falar. Não era alto, não era ensaiado — era como se as palavras viessem de um lugar que não passava pela cabeça primeiro. Era um daqueles dons que a gente não explica direito, só sente. Palavra que consola, que encontra quem precisava ser encontrado. Dona Lúcia não entendeu tudo. Aliás, quase nada. Mas, curiosamente, entendeu o essencial. Sentiu. E, naquele instante, algo dentro dela — que há tempos estava endurecido — cedeu um pouco. Não foi milagre de sair andando sem dor. Não foi espetáculo. Foi pequeno, quase invisível. Mas foi real: uma espécie de alívio que não vinha do corpo, mas atravessava ele. No banco de trás, um rapaz fechou os olhos com força. Tinha chegado ali por insistência da mãe, meio descrente, meio irritado. Pensava que nada daquilo fazia sentido. Mas, naquele momento, uma frase — dita por alguém que ele nem conhecia — parecia ter sido feita sob medida para ele. Como se alguém tivesse lido um capítulo secreto da sua vida. Ele não contou pra ninguém. Só respirou diferente ao sair. E assim o culto terminou. Sem fogos, sem aplausos, sem nada que chamasse atenção de quem passasse na rua. Mas, dentro de cada um, alguma coisa tinha sido tocada. Talvez seja isso que chamam de dom. Não o barulho que impressiona, mas o silêncio que transforma. FEITO COM IA.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

CARTÃO VERMELHO

Acho que deveria existir multa para pessoas em relação ao estado de cuidado e conservação. Pensa comigo: se o pneu do carro estiver careca… você já entendeu, né? Precisa trocar imediatamente, porque corre o risco de levar multa — e, de quebra, sofrer um acidente. Agora, olha que curioso: as pessoas usam tênis furado, calças rasgadas, camisetas já sem forma e, como dizem meus alunos, “nem dá nada”. Se você deixa o terreno sem roçar, multa. Se não segue o padrão da calçada, multa. Mas, se sai com o cabelo despenteado,ou sem cabelo nenhum. o máximo que acontece é uma risadinha escondida de alguém. Pensou? Brincadeiras à parte, o ser humano tem dado tanto valor às coisas e, em boa parte das vezes, não valoriza a si próprio. Falta consciência sobre si mesmo. É essa consciência que faz a pessoa perceber quando está exagerando, negligenciando ou precisando mudar. Sem isso, mesmo sabendo o que é certo, a gente simplesmente não pratica. Gosto de pensar a vida de forma prática: fugiu à regra, cartão amarelo; insistiu no erro, cartão vermelho. Fico imaginando um juiz invisível levantando placas ao longo do nosso dia: Não escovou os dentes antes de dormir? Cartão vermelho. Pegou o celular de novo, sem necessidade? Cartão vermelho. Prometeu que ia cuidar de si e não cuidou? Vermelho direto. Seria engraçado… se não fosse tão real. Se analisarmos bem, a vida da maioria segue um padrão curioso: as mudanças de hábito só aparecem quando uma patologia resolve apitar o jogo. Dia desses, meu cardiologista soltou uma frase que não sai da cabeça: “todos iremos morrer, mas é bem melhor morrer com saúde”. Parece estranho. Quase um paradoxo. Mas faz todo sentido. O problema é que, na prática, não funciona assim. As grandes mudanças na alimentação, por exemplo, costumam começar só depois de um exame de colesterol alterado. O exercício físico vira prioridade depois do susto. O cuidado só chega quando o corpo já está gritando. E olha que o corpo foi feito para se mover. Exercício não é só estética: regula hormônios, reduz ansiedade, melhora a longevidade. A saúde mental e emocional também não é detalhe — é base. Saber lidar com o estresse, com as frustrações, com as relações… consigo mesmo. No fim das contas, talvez o que esteja faltando não seja mais informação, nem mais regra, nem mais lei. Talvez esteja faltando um pouco de fiscalização interna. Porque, se dependesse de multa, tem muita gente andando por aí já com a saúde apreendida e nem percebeu ainda que deverá ir direto para a reciclabem.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Olhouvê

O olho vê;

o ouvido ouve. 

O olhouvido olhouvê:

a palavra antes do som;

o som antes da forma.

Ver é escutar a imagem.

Ouvir é tocar o som,

Em instantes tudo acontece junto,

o mundo não separa.

Quem ouve sente;

quem vê sente;

é o corpo inteiro que olha.

OLHOS ATENTOS

Olhos Atentos

Você já teve a sensação de passar pelos dias como quem cumpre um roteiro automático? Não vemos mais o porteiro do prédio, aquele que nos dá bom dia todos os dias, como se ainda acreditasse na delicadeza das rotinas. Não vemos a flor que nasceu no jardim, insistente, silenciosa, bonita sem plateia. Não vemos nem a nós mesmos, refletidos no vidro apressado de uma vitrine qualquer. E, sem perceber, vamos deixando de notar o mais inevitável de todos os movimentos: o tempo passando dentro da gente.

Não apenas ver, mas contemplar o caminho para o trabalho. Não ouvir, mas escutar aquela música que estava tocando durante o trajeto. 

Devemos ter os olhos atentos não apenas para o que se vê, mas para o que passa despercebido.

Para os detalhes simples: o gesto de alguém, uma mudança de tom, um silêncio que diz mais que palavras. 

Para o tempo: ele não para, não espera, não avisa. Estar atento é perceber que estamos envelhecendo enquanto adiamos encontros, conversas, abraços.

Para as pessoas: quem está ao nosso lado hoje pode não estar amanhã.

Para nós mesmos: nossas escolhas, nossos cansaços, nossos desejos escondidos. Há momentos em que seguimos no automático e deixamos de nos enxergar.

E, talvez acima de tudo, atentos ao agora. Porque é no presente que a vida realmente acontece , não nas memórias, nem nas expectativas.


sexta-feira, 27 de março de 2026

FERNANDO CRAVIOLA

 Os garotos e garotas da minha época gostavam de rock. Éramos da geração que queria mudar o mundo e nosso canal de comunicação — a música — tinha que falar o que sentíamos. Aproveitar a juventude era ter uma banda.

A nossa chamava-se "Blecaute Social". Beto na guitarra e vocal, Marlon na guitarra e vocal, Marcos no contrabaixo (era o dono da pedaleira, principalmente do overdrive Boss) e eu na bateria GOPE do irmão do Marlon. Sim, na bateria.

Tinha 16 anos, tinha um par de baquetas brancas e fazia aulas com uns músicos recém-chegados do Nordeste. Ministravam aulas em um conservatório musical ali atrás da rodoviária velha (a rodoviária, nessa época, aqui em Foz, ficava entre a Almirante Barroso e a Av. Brasil).

Um dia, o professor de bateria faltou. Sei lá, teve um imprevisto qualquer, e o professor de guitarra é que veio ministrar aula naquela tarde. O cara tocava em uma banda que admirávamos; ele era uma espécie de padrinho das bandas da piazada.

Quem se inscrevia para fazer aula ali é porque tinha a certeza de que iria montar uma banda. E o cara de quem estou falando, daquela aula de improviso ou sei lá o quê, era o Fernando Craviola.

A aula daquela tarde foi uma "discoteca lisa". Nem sei se esse nome existe ou se minha memória autoficcional é quem criou. Repicava com as baquetas no chimbal e, no tempo certo, com uma delas batia na caixa. E mais: tinha que abrir o chimbal para dar aquele efeito de pratos que o baterista dos Incríveis fazia na introdução de uma de suas músicas.

Para entender bem, é aquela batida da música "Camila", da banda Nenhum de Nós.

Nossa banda tem fotos, tem muitos amigos, tem muitas lembranças. O Fernando tem uma história real de músico, pois continuou com a música durante todos esses anos e só encerrou o expediente hoje.

Tempos atrás, tive o privilégio de ministrar aulas para o Fernandinho, na época de escola. Todos os meses, o pai, Fernando, estava lá na escola. Era muito bom conversar sobre música e relembrar histórias.

O Fernandinho se formou e, então, para encontrar o Fernando também não era difícil. Bastava sair para jantar em algum restaurante bacana da cidade que lá estava ele, esbanjando talento, musicalidade, mas, acima de tudo, simpatia.

Fernando sempre será uma das pessoas que levarei como referência musical. Ele alimentou e valorizou nosso sonho de juventude.

A música sempre foi e é algo muito presente na minha vida. Entendi, com o tempo, que ela é a trilha sonora dos nossos momentos. Acho que é por isso que não gosto de repetir muito algumas músicas que hoje não fazem mais sentido para mim.

Fernando, você não lerá essas palavras, mas eu sei que o que já falamos um para o outro, apesar de mais simples do que isso tudo escrito, expressou quem sempre considerei que você era.

Descanse.

Foz do Iguaçu, 08 de janeiro de 2023. 

segunda-feira, 16 de março de 2026

O silêncio do abandono

 O silêncio do abandono

Há abandonos que fazem barulho. Portas que batem, malas arrastadas, passos que descem a escada sem olhar para trás. Mas há também abandonos silenciosos. São os mais profundos. A criança não sabe explicar o que sente. Ela apenas percebe que algo falta. Falta um olhar, uma pergunta simples no fim do dia, um “como foi na escola?”, um abraço sem motivo. No começo, ela espera. Toda criança espera. Espera na porta, espera na janela, espera no coração. Com o tempo, ela começa a inventar explicações. Talvez tenha feito algo errado. Talvez não tenha sido boa o suficiente. Talvez precise se comportar melhor, tirar notas melhores, falar menos, chorar menos. A criança tenta merecer o amor que deveria ser gratuito.

É nesse momento que a psicologia começa a explicar aquilo que o coração da criança ainda não sabe dizer. Quando o vínculo é quebrado cedo demais, algo se desorganiza por dentro. A criança aprende a viver em estado de alerta, com medo de perder novamente quem ama. Alguns crescem tentando agradar o mundo inteiro. Outros aprendem a não confiar em ninguém. Como dizem os psicólogos, a primeira imagem que temos do mundo nasce da forma como fomos cuidados. Se o cuidado falta, o mundo parece um lugar inseguro.

Lembro-me então de uma parte marcante do livro O Vendedor de Sonhos, de Augusto Cury.
Um homem extremamente ocupado, sempre correndo atrás de resultados, reuniões, negócios, compromissos. Um homem que dizia amar a família, mas que nunca tinha tempo para ela. Sua filha tinha uma apresentação na escola. Algo simples para os adultos, mas gigantesco para o coração de uma criança. Ela pediu que o pai fosse. Ele prometeu tentar. Mas o possível nunca aconteceu. O trabalho falou mais alto. A agenda venceu. E a cadeira do pai ficou vazia no auditório. Quando ele chegou em casa, encontrou a filha em silêncio. E ela disse algo que corta qualquer coração:

Pai, eu fiquei esperando você.

Não era uma acusação. Era apenas a verdade de uma criança.

Muitas vezes o mundo adulto cria justificativas para essas ausências. Dizemos que é pelo trabalho, pela correria, pela necessidade. Contamos a nós mesmos que depois compensaremos, que amanhã teremos mais tempo, que um dia faremos diferente. Mas, como canta Legião Urbana na música Quase Sem Querer, “mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira.” Porque no fundo sabemos. Sabemos quando estamos ausentes. Sabemos quando estamos trocando presença por urgência, pessoas por compromissos, abraços por prazos. No mundo adulto aquilo parece pequeno. No mundo da infância é tudo.

Mais tarde, na mesma história, a vida faz aquilo que às vezes faz com todos nós: vira o jogo de maneira brutal. A esposa e a filha entram em um avião. O avião explode. De repente, aquele homem que nunca tinha tempo descobre o peso de um silêncio definitivo. Agora é ele quem espera. Espera por um abraço que não virá mais, por uma voz que não responderá, por uma presença que não voltará. E naquele momento ele entende algo que antes parecia invisível: o abandono que feriu a filha agora ecoa dentro dele.

Quando caminhamos pelas cidades, não é difícil deparar com ecos dessa mesma história espalhados pelas calçadas. Muitos moradores de rua não começaram ali. Houve um dia em que tiveram casa, família, sonhos, mesa posta. Mas a vida, às vezes, quebra laços. Uma separação difícil, um casamento que terminou em silêncio, um filho que se afastou ou até mesmo um emprego perdido.

E quando o coração fica vazio demais, algo tenta ocupar o espaço. Infelizmente, muitas vezes o álcool ou outra qualquer substância entra onde antes moravam pessoas. A garrafa passa a fazer companhia. Algo para anestesiar lembranças. E pouco a pouco a vida vai se desfazendo.

Não é raro perceber que, por trás de muitos rostos cansados nas ruas, existe uma história de abandono recebido ou praticado. Gente que perdeu alguém, ou que se perdeu de si mesma.

A teologia, curiosamente, também fala muito sobre essa experiência humana. A Bíblia guarda histórias de pessoas esquecidas, rejeitadas, deixadas à margem. O próprio Cristo, na cruz, em dor profunda, pronunciou uma frase que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” É como se a fé reconhecesse que o abandono é uma das dores mais universais da humanidade. Mas a mesma fé também insiste em outra esperança. No Salmo 27, versículo 10, uma promessa bíblica de de consolo e acolhimento divino em momentos de rejeição ou abandono família, está escrito: “Mesmo que pai e mãe me abandonem, o Senhor me acolherá.” Talvez seja por isso que a cura, tanto na psicologia quanto na fé, comece quase sempre da mesma forma simples: alguém que permanece.

Nem sempre quem volta é quem foi embora. Às vezes surge um professor, um avô, um amigo, um amor, alguém que chega sem discursos grandiosos. apenas fica. Fica ouvindo, ou fica cuidando, ou simplesmente fica presente.  A psicologia chama isso de reconstrução do vínculo. A teologia chama de graça.

E então aquela criança, que um dia aprendeu a esperar sozinha, descobre algo novo: que nem todas as pessoas vão embora. Algumas permanecem. E às vezes é isso que começa a curar tudo. 

...

Talvez esse texto já tenha terminado para muitos em algum parágrafo que o fez parar e refletir e sem força não quis dar sequência. Mas o incrível que um dia após ter escrito eu percebi que caberia mais um parágrafo aqui que se chamaria  "O autoabandono".

Uma forma de abandono que não acontece na ausência do outro, acontece na ausência de si. Aquele que, muitas vezes, nasce lá atrás, na infância ferida. A pessoa aprende que precisa cuidar de tudo, de todos, agradar, resolver, suportar e, sem perceber, deixa a si mesma por último.

Não cuida da própria saúde, adia sonhos, não se capacita, não se desenvolve. Entrega tudo aos outros e oferece a si apenas o resto.

A psicologia explica isso como um padrão aprendido: quando o amor foi instável ou insuficiente, a pessoa passa a acreditar que precisa merecer existir para o outro, mas não aprende a existir para si. É como se, internamente, repetisse o abandono que um dia sofreu.