sexta-feira, 26 de junho de 2026

Assim que luto minhas guerras - Vencemos a covid-19

 

O Paradoxo da Presença e o Início de Tudo

A COVID-19 aproximou e afastou pessoas ao mesmo tempo. Um paradoxo. Aproximou aqueles que descobriram o valor da presença e afastou aqueles cujas relações já estavam destruídas. Talvez uma das maiores heranças da pandemia tenha sido a consciência de que o tempo compartilhado é limitado. Muitas famílias passaram a compreender que celebrar aniversários, reunir-se em volta de uma mesa ou simplesmente visitar um parente deixou de ser algo comum para se tornar algo precioso.


O ano de 2020 começou como uma história nova. Há cinco anos havíamos implantado a EJA DOM EAD aqui em Foz do Iguaçu e agora estávamos vivendo uma transição, algo que culminaria em uma nova sede. Iniciamos as matrículas e a procura estava excelente; muitas pessoas estavam reavivando seus sonhos de concluir os estudos. O ano letivo começou com salas cheias. Porém, o dia 20 de março se tornou inesquecível para muitas pessoas: o primeiro lockdown.

As notícias vinham pouco a pouco. Sabíamos que um mal se aproximava, mas muitos não acreditavam na sua magnitude. Já havíamos passado por epidemias como a gripe suína e a gripe aviária, mas a última grande pandemia, a Gripe Espanhola, não fazia parte da nossa geração. Era apenas página de livro; já haviam se passado 100 anos e o mundo agora era outro. Talvez esse tenha sido o fator de descrédito da população. Muitos, com certeza, acreditaram que era "só uma gripinha". Mas não foi.

O Alerta Global e a Chegada ao Brasil

Tudo começou de maneira muito sutil. Os noticiários, no final de 2019, alertaram que autoridades de Wuhan, na China, haviam identificado casos de uma pneumonia causada por um novo coronavírus. O mundo deu de ombros. Era final de ano, ninguém queria perder suas férias ou suas festas programadas. Além do mais, no mundo das Fake News, era só uma notícia a mais. Durante quase dois meses o vírus circulou sem parar, como hoje bem sabemos, e somente no final do mês de janeiro de 2020 a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional.

Imaginem a quantidade de pessoas que já estavam contaminadas nesse momento. Tudo estava acontecendo muito rápido. Tanto que, poucos dias após a declaração da OMS, o primeiro caso era confirmado no Brasil: um homem em São Paulo que havia retornado da Itália. A data dessa constatação? Dia 26 de fevereiro, quarta-feira de cinzas, logo após o Carnaval. Conseguem imaginar o nível de contaminação?

E agora? Como ficariam os outros eventos que exigiam público? O mundo vive de aglomerações — palavra essa que muito se ouviu e cujo ato muito se proibiu durante a pandemia. O calendário parecia datar não só os dias, mas sim o horror. Em 11 de março, após mais de 100 anos, vivia-se verdadeiramente um evento mundial. A Primeira e a Segunda Guerra Mundial não chegariam aos pés do que viria pela frente. A OMS declarava oficialmente a COVID-19 como uma pandemia. Uma pandemia é a disseminação global de uma doença infecciosa; declara-se quando um patógeno se espalha por diversos continentes simultaneamente, afetando um grande número de pessoas. Era isso que viveríamos nos próximos dias, meses e anos.

O Dia em que o Mundo Parou em Foz

Chegamos a 20 de março de 2020. Era uma quarta-feira à noite, com alunos e professores em sala de aula. Aquele seria o último dia para atividades coletivas decretado pela Vigilância Sanitária de nossa cidade, em cumprimento a um decreto nacional. Estávamos preparados para, no dia seguinte, interrompermos as atividades pelos próximos 30 dias. De repente, a Guarda Municipal chegou ao nosso colégio acompanhando um agente sanitário disposto a fechar a escola e ainda aplicar uma multa. Foi um momento de extrema tensão. Sabíamos da gravidade e estávamos com tudo pronto para, no dia seguinte, cumprir a lei e não reunir mais pessoas.

A data foi marcante. Começaram os lockdowns e quarentenas em vários países. Escolas, universidades, fronteiras, estádios, igrejas e comércios foram fechados em diversas regiões do mundo. Ninguém mais transitava para Ciudad del Este, no Paraguai: Ponte da Amizade fechada. Ninguém transitava para Puerto Iguazú, na Argentina: Ponte da Fraternidade fechada. Verdadeiramente vivíamos uma pandemia.

Os números começaram a assustar. Em abril, o Brasil ultrapassou os 400 mil casos. Entre julho e agosto, vivemos a primeira grande onda, e o país registrou mais de 1.500 mortes em um único dia pela primeira vez. Foi um ano de "abre e fecha tudo", uso obrigatório de máscaras e higienização rigorosa ao ir a mercados ou farmácias. Os comércios e negócios que permaneceram abertos foram classificados oficialmente como serviços essenciais, denominação estabelecida pela Lei Federal nº 13.979/2020 e regulamentada por decretos que garantiam o funcionamento das necessidades básicas da população.

A Adaptação do DOM e a Negligência nas Ruas

Ficamos sem aulas presenciais o ano todo. O admirável é que o DOM adaptou-se tão rapidamente ao "novo normal", como era costume falar, que não ficou um só dia sequer sem aulas. Migramos para o EAD de uma forma magistral. Na semana seguinte, criamos os grupos de WhatsApp que se tornariam as salas de aula e fizemos uma força-tarefa para a entrega das apostilas. Na sala da minha casa, organizei um estúdio e começamos a enviar teleaulas e atividades, além de realizar plantões nos mesmos horários das aulas. Nada parou.

Terminamos o semestre com pouca desistência e começamos o período seguinte com um número significativo de alunos. No dia 15 de outubro de 2020, inauguramos a nossa sede nova do DOM e, naquele final de ano, o número de pessoas que concluiu o Ensino Médio foi excelente. Contudo, paralelamente, existiam números horríveis. O Brasil encerrou o ano de 2020 com 7.675.781 casos confirmados de COVID-19 e 194.976 mortes registradas oficialmente, segundo dados do G1. Estima-se que, no primeiro ano, cerca de 3 milhões de mortes foram registradas no mundo. Era como se praticamente toda a população de Curitiba e sua região metropolitana sumisse do mapa.

O brasileiro é um caso a ser estudado. Parecia que, mesmo diante dos dados e dos noticiários diários, a população não acreditava integralmente no perigo. Não era raro a fiscalização flagrar festas clandestinas. Isso só ampliava a ação do vírus, que estava sendo implacável. Muitos foram os casos de jovens que frequentavam baladas e, ao voltar para casa, contaminavam a família toda: irmãos, pais e avós. Muitos se cuidavam ao máximo, mas o vírus vinha até eles pelas pessoas da própria convivência. Parecia injusto; era pura negligência.

O Vírus Bate à Porta

O vírus chegou perto de mim pela primeira vez através da minha esposa (na época, minha namorada), que testou positivo. Entramos em quarentena. Vivemos dias de grande tensão, pois o remédio era apenas aguardar o corpo reagir. Tivemos contato até o dia em que se confirmou a contaminação. Seus filhos foram para a casa do pai e todos testaram positivo. Mas, como tudo ocorre conforme os propósitos de Deus, o vírus não havia chegado até mim naquele momento.

O ano de 2021 estava para começar e já existia a promessa da vacinação. Mas seria o fim da pandemia? Eu não sabia que, no mês seguinte, eu seria o próximo. Fevereiro de 2021 tornou-se o mês e o ano que mudariam a minha vida para sempre. Vivíamos o pior momento da crise sanitária, com colapso hospitalar em vários estados, falta de leitos de UTI e uma média superior a 3 mil mortes por dia. Foi exatamente nesse cenário que testei positivo.

No início, acreditei que seria fácil. Controlava a temperatura e a saturação todos os dias, mas percebia que meu corpo não reagia. Queria ser forte, mas não era tão simples assim. No sétimo dia da quarentena obrigatória, peguei o carro e fui até a empresa assinar alguns documentos urgentes. Pedi para os meninos deixarem os papéis no saguão, do lado de fora da escola. Era uma sexta-feira e eu acreditava que na semana seguinte já voltaria ao trabalho. Para minha surpresa, ao chegar lá, percebi que estava com dificuldade de focar a visão e senti uma falta de ar como nunca havia ocorrido antes. Parei, peguei os documentos, assinei e pedi para a secretaria não mexer neles até segunda-feira. Voltei para casa.

A Descida ao Vale e o Hospital Costa Cavalcante

Fiquei na casa da minha namorada, pois ela já estava imune por ter passado pela contaminação. Ao retornar, senti-me extremamente fraco e abatido. Naquela noite, as coisas pioraram drasticamente; parecia que eu não conseguia respirar. Foi então que a Marilu agendou um raio-X para a manhã de sábado. O exame só pôde ser feito no final do expediente, após o meio-dia. Fomos para o hospital.

Com muita dificuldade, caminhei do carro até a sala do exame. O técnico percebeu a gravidade do caso e, zelando pela ética, solicitou que eu fosse encaminhado com urgência para atendimento. Fomos direto para o hospital do convênio, onde meu irmão e minha cunhada logo se juntaram a nós. Ali senti que estava prestes a viver o momento mais difícil da minha vida em relação à saúde. A Marilu saiu da sala de triagem e foi chorar do lado de fora. "Todo mundo está morrendo" era o que ouvíamos. Pensei: seria a minha vez?

Fui encaminhado para o internamento no Hospital Costa Cavalcante. Como providência divina, a enfermeira do plantão já havia sido nossa aluna, e a médica que fez o primeiro atendimento também. Eu estava em boas mãos. Passei a tarde recebendo oxigênio enquanto aguardava uma vaga na UTI. Eu tentava manter a tranquilidade, mas sabia que, para os que ficaram do lado de fora, o desespero era grande. Assim que a vaga foi liberada, vivi a minha primeira experiência real de internação em um hospital; eu nunca tinha tomado sequer um soro na vida. Trouxeram um saco plástico para eu guardar minhas roupas, chinelos, celular, carteira e até o aparelho auditivo. Saí da cama e, em uma cadeira de rodas, fui levado para a UTI COVID. Aquele corredor parecia não ter fim.

Na UTI: A Guerra Espiritual e o Clamor

Ao chegar, fui para o leito — era apenas um paciente por quarto. Naquele leito de UTI, eu ficaria pelas próximas 48 horas, que seriam decisivas. Já na chegada, colocaram-me no soro e no oxigênio. Eram muitos papéis para assinar. Como o Hospital Costa Cavalcante estava utilizando o protocolo do Hospital Albert Einstein, seria ministrado em mim o plasma coletado de pessoas que já haviam vencido o coronavírus. Precisei autorizar medicamentos e procedimentos de emergência que fossem necessários para salvar minha vida.

O que quero relatar agora é o motivo principal de esta história estar no livro. Na primeira noite de UTI, já sob o efeito de vários medicamentos, comecei as sessões de Ventilação Mecânica Não Invasiva (VNI). Já adianto que, apesar de ter ficado oito dias internado, graças a Deus e às orações, intercessões e novenas das pessoas que lutaram comigo, não precisei ser intubado. Durante a primeira sessão de ventilação, algo aconteceu e me trouxe a certeza de que eu sairia dali com vida.

O enfermeiro chegou com a máquina acompanhado do fisioterapeuta. Explicaram o procedimento e instalaram o equipamento. Perguntei quanto tempo duraria: as sessões seriam de 40 minutos a uma hora, quatro vezes ao dia. Perguntei se poderia ficar mais tempo, e o fisioterapeuta respondeu que, quanto mais eu aguentasse, melhor seria. Coloquei na cabeça que ficaria o máximo de tempo que conseguisse. Passada a primeira hora da sessão, eles vieram para desligar o aparelho. Com um sinal de mão — já que a máscara cobria todo o meu rosto e impulsionava o ar de forma a forçar a respiração cadenciada —, avisei que queria continuar. Eles ficaram admirados. Usei o respirador por quase três horas seguidas. O suor escorria pelo corpo; parecia que eu tinha corrido uma maratona, tamanha foi a força física necessária. O enfermeiro ao meu lado parecia preocupado, até que fiz o sinal para parar. Quando tiraram a máscara, senti um vigor físico que há dias não experimentava. Tomado por uma força estranha, comecei a cantar e a louvar em voz alta:

"Assim que luto minhas guerras

Assim que luto minhas guerras

Assim que luto minhas guerras

Assim que luto minhas guerras

Parece que estou cercado

Mas sou guardado por ti

Parece que estou cercado, Jesus

Parece que estou cercado

Mas sou guardado por ti"

Notei que não era apenas uma luta biológica para me manter vivo; eu havia entrado em uma verdadeira guerra espiritual naquele momento. Precisava resistir, e era uma resistência não só contra a carne e o sangue, mas uma resistência de FÉ. A música Minhas Guerras faz referência à batalha lutada pelo povo de Deus liderado pelo rei Josafá. O inimigo era imenso e o povo estava com medo, mas a estratégia dada por Deus foi: "Não temas, esta guerra é minha". Assim como o povo daquela época colocou o coral à frente do exército, ali estava eu louvando. Outras profissionais da saúde vieram até o quarto e eu continuei. O respirador seria a minha ferramenta, mas Deus era a minha espada, meu escudo e meu capacete. Eu disse ao enfermeiro: "É assim que eu vou vencer essa guerra". Ele sorriu de canto; era a primeira noite e ele certamente sabia o que ainda estava por vir.

A Mão de Deus no Mar Revolto

Logo depois, um silêncio profundo tomou conta do lugar e fiquei completamente só. As paredes verdes do hospital pareciam estar se aproximando e o quarto ficou minúsculo. A luz apagada criava um ambiente de sombras estranhas. Comecei a orar profundamente. Deus estava ali, eu podia sentir. Mas por que eu estava passando por aquilo? As paredes pareciam sufocar ainda mais. Seriam os efeitos dos medicamentos? Falta de oxigênio?

Estiquei a mão no vazio. Em uma das paredes, vi nitidamente um mar revolto se formando. Ali, de mão estendida em direção à parede, uma frase ecoou forte na minha mente: "Eu venço, mas se estiver segurando as mãos de Deus". Clamei em pensamento: "Senhor, segura a minha mão, eu quero andar sobre estas águas". Naquele instante, senti como se uma mão viesse em minha direção e segurasse firmemente a minha mão estendida. O mar imediatamente se acalmou e as paredes voltaram a se afastar. "É assim que luto minhas guerras", pensei.

Um salmo que sempre recitamos em viagens familiares fez-se presente na minha oração: "Elevo os meus olhos para os montes; de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra", seguido por: "O Senhor é a minha força e o meu escudo; nele o meu coração confia, e dele recebo ajuda". Eu sabia que seria um milagre. A noite, enfim, acalmou.

As frases técnicas que ouvi, como "se precisar, teremos que te intubar" e "esta será a noite que determinará os próximos dias", não seriam o meu diagnóstico final. De madrugada, senti fome. O enfermeiro — um verdadeiro anjo — providenciou algo para eu comer. Esse profissional passou dois plantões comigo e tinha uma ternura e um cuidado que, com certeza, foram fundamentais na minha recuperação.

A Segunda Noite e o Quarto ao Lado

Passei a noite em claro e o segundo dia chegou. Durante a madrugada, enfrentei o pior dos exames: a gasometria. O café da manhã foi esperado como se fosse um banquete. Continuei usando o respirador não invasivo quantas vezes fosse necessário. Foi um dia inteiro de observação; a última noite daquelas primeiras 48 horas seria a decisiva. A essa altura, não era raro um enfermeiro entrar no quarto e comentar que já sabia que eu era o "paciente cantor". Acho que fiquei famoso naquele bloco do hospital. O fisioterapeuta do plantão seguinte queria até detalhes de como eu havia aguentado três horas direto na máquina.

Durante a tarde, fizeram acessos centrais para a administração de medicamentos pesados, o que me assustou bastante. Mas era o protocolo necessário. A segunda noite estava por vir, e ela veio. Logo após o jantar, fui colocado novamente no respirador. O médico já havia feito a visita de rotina e, pelo que percebi, os parâmetros estavam normais. Porém, por volta das 23h, senti a minha respiração extremamente cansada. Olhava pelo reflexo da TV desligada os monitores que ficavam atrás da minha cabeceira. Os batimentos cardíacos pareciam estáveis, a temperatura estava um pouco acima e a saturação, de tempo em tempo, despencava. Era o alerta.

Os enfermeiros vieram às pressas e precisei ser colocado na posição de pronação (de bruços). Faltava o ar, era terrivelmente desconfortável e o corpo inteiro doía. Foi mais uma noite inteira em claro. A equipe entrava no quarto com muito mais frequência; parecia que o hospital vivia um clima tenso e diferente naquela madrugada. Eles entraram conversando baixinho e, mesmo sem meus aparelhos auditivos, consegui entender que haviam acabado de perder o paciente do quarto ao lado.

Pedi para me deitarem na posição normal novamente, pois estava profundamente angustiado. Do meu leito, eu conseguia avistar o paciente do quarto da frente e percebi que ele estava intubado. Naquela madrugada fria, vi médicos e enfermeiros fazendo massagem cardíaca desesperada nele — ou nela —, mas a pessoa acabou falecendo. Fecharam a porta. No meu isolamento e solidão, a música voltou a brotar: cantei alto, desafiando o medo.

"Assim que luto minhas guerras

Assim que luto minhas guerras

Parece que estou cercado

Mas sou guardado por ti"

"Senhor, não me abandone. Acalme esta tempestade", eu clamava. Às 4h da manhã, veio a terrível gasometria novamente. Como doía. Mas a noite finalmente se foi e o dia amanheceu.

A Transferência e a Visita Clandestina

O café chegou e, com ele, a assistente social, os enfermeiros e a médica da manhã, Dra. Gisele. Eu tinha sobrevivido à segunda noite. "Glória a Deus", eu repetia mentalmente.

— Está bem, Sr. Emerson? — perguntou a médica.

Respondi que sim e arrisquei:

— Quando vou para casa?

— Ainda é cedo para decidirmos isso, mas tenho uma excelente notícia para o senhor: vamos mudar de UTI. Após as 12h, o senhor irá para a UTI 2, que é focada na recuperação do pulmão. Ainda há risco de o quadro se agravar, mas o seu corpo correspondeu muito bem aos medicamentos.

Mais um glória a Deus! Mas antes da transferência, tive uma grande surpresa. A assistente social fez uma videoconferência com a Marilu, e ela conseguiu incluir outros membros da família na chamada. Que alegria poder mostrar para todos que, mesmo contra as expectativas, eu estava bem. Aproveitei o momento para delegar algumas ações da escola e passei algumas senhas de acesso. Era apenas uma questão de tempo.

E as surpresas não pararam por aí. Se existe uma pessoa que sofreu, mas não se abateu, foi a minha namorada. Ela conseguiu a façanha de entrar clandestinamente na UTI. Não me perguntem como, mas, de repente, lá estava ela, toda paramentada com roupas hospitalares, fazendo uma visita secreta. Tomei um susto tão grande que meu coração acelerou. Foi um misto de alegria extrema com o medo de vê-la se expondo àquela carga viral. A emoção quase complicou as coisas: no momento em que vi a Marilu, minha saturação alterou no monitor. Fiquei preocupado, mas ela, valente, permaneceu ali em pé, ao meu lado. Que dedicação, que carinho e que coragem!

Na UTI 2: O Cenário de Guerra e os Aparelhos Auditivos

No meio da tarde, fui finalmente transferido para a UTI 2. Senti um alívio enorme. Agora eu dividia o espaço com outras pessoas no mesmo ambiente, havia uma televisão ligada e mais movimentação. Ao meu redor, vi alguns convalescentes em estados muito piores que o meu: alguns usando fraldas, outros com sondas — uma verdadeira enfermaria de guerra. Os fortes estavam sobrevivendo.

Na primeira noite nessa nova ala, tive o privilégio de ser cuidado pelo Matheus, filho da Deilde, nossa secretária documentadora da EJA e do CEPFI aqui em Foz do Iguaçu. Que profissionalismo e cuidado desse menino! Ele me fez sentir em casa. À noite, senti muito frio e tomei muita água, mas não parei de fazer as sessões na máquina de oxigênio, da qual eu já havia tomado posse mentalmente desde o primeiro dia.

Os dias iam passando. Em uma das madrugadas, a TV exibia o filme O Menino da Porteira, com o cantor Daniel. O aparelho estava sem volume, mas eu lia os lábios dos atores; eu conhecia as falas e ouvia o filme apenas assistindo. Quando passou a cena da música-tema, o menino abrindo a porteira e o personagem jogando a moeda, o sono quase me venceu. No entanto, o medo subconsciente de fechar os olhos, apagar e perder o controle da situação não me deixava dormir direito.

Foi na UTI 2 que a minha heroína driblou o sistema hospitalar mais uma vez e fez chegar até mim os meus aparelhos auditivos. A partir dali, eu já entendia muito bem os médicos e enfermeiros e conseguia conversar com todos. E, surpreendentemente, ela apareceu na minha frente de novo! Havia entrado junto com outra família, infiltrando-se com aquele jeito corajoso que só ela tem. Lá estava ela me visitando presencialmente, mesmo sendo proibido. Falávamos todos os dias por vídeo, mas ela precisava me ver de perto, tocar em mim e constatar que eu estava vivo.

O Lado Humano do Cuidado e o Incidente

Mais noites e mais dias se passaram. Na TV, agora passava o programa Largados e Pelados. Eu nunca tinha assistido, mas logo me vi torcendo para um dos participantes vencer. Eu criava pequenos mundos ali dentro para que tudo ganhasse sentido e para que o tempo passasse o mais rápido possível.

Nesse processo, percebi que o papel do técnico em enfermagem é sensacional. É ele quem tem o contato mais direto com o paciente; é esse profissional que verdadeiramente cuida através da presença física. Tenho uma gratidão imensa por quase todos os que cuidaram de mim, pois eles têm uma importância vital para confortar e acalmar.

Contudo, fica um alerta sobre o lado humano e o estresse da profissão. Em uma das noites, uma técnica — cujo nome preservarei — teve um acesso de nervosismo. Em um ato de fúria, deu um soco no aparelho dosador de soro e proferiu palavras cheias de ira. Aquilo me desestabilizou emocionalmente de forma imediata. Minha saturação caiu e meus batimentos dispararam no monitor. Ela olhou para os aparelhos e disparou que, se a minha saturação não melhorasse por bem, eu seria intubado, então era bom eu tratar de melhorar. Eu não tive forças para reagir. Se estivesse em outra situação, teria dado uma gargalhada e feito uma brincadeira, mas ali me faltavam forças.

Era a minha quinta noite. Eu sabia que receberia alta assim que terminasse o protocolo dos medicamentos, mas aquela noite foi horrível. Urinei a noite toda, senti muita falta de ar e a equipe teve que aumentar o oxigênio, que já estava no nível mínimo devido ao processo de desmame. Fechei os olhos, sabendo que não dormiria, e orei. Peguei virtualmente mais uma vez nas mãos de Deus e clamei para que Jesus se fizesse presente ali através do seu Espírito Santo. Enfim, chegou a hora da gasometria, a hora do café e o alívio da troca de plantão. A rotina se restabelecia. Após o café, vinha a visita do médico, a videoconferência com a assistente social, o raio-X, a fisioterapia e o respirador. E assim foi por mais dois dias.

O Dia da Vitória e os Números da História

Até que, finalmente, chegou o dia da alta. O técnico de enfermagem entrou no quarto com a minha mochila conhecida, debruçou-se sobre a pesteira da cama e brincou:

— Como os pacientes desta ala são lindos! O senhor, com essa barba, está parecendo um artista de cinema.

Foi a frase mais forçada, porém a mais fantástica e animadora que ouvi nos últimos dias. O pesadelo estava terminando. O soro chegou ao fim, tomei a última vitamina dissolvida em um copo d'água, comi o último almoço hospitalar e recebi a última injeção de anticoagulante.

A saída, por questões de protocolo, foi feita pelos fundos e em uma cadeira de rodas. Eu ainda me sentia extremamente fraco, porém estava oficialmente de alta. Os médicos — Dr. Jerman, Dra. Gisele — e toda a equipe de enfermagem vieram se despedir. Foi um "tchau" que não permitia saudades e um adeus sem a menor vontade de retornar, como costuma ser a despedida de um hospital.

O elevador chegou e descemos até a porta dos fundos. O sol forte do meio-dia bateu no meu corpo e, de repente, vi muitas pessoas conhecidas ali fora me esperando. Havia cartazes, balões, sorrisos e choros de pura vitória. Foram dias difíceis para todos nós, e eu estava sedento por um abraço, sedento por presença.

Infelizmente, quantas e quantas pessoas não tiveram o final feliz que foi permitido a mim? A COVID-19 continuou ceifando vidas pelo mundo e só começou a ser controlada quando a vacinação em massa finalmente teve início. Eu fui vacinado pela primeira vez no dia 26 de maio de 2021. Os números globais continuaram crescendo de forma assustadora, atingindo a marca de 770 milhões de casos no mundo todo, com mais de 7 milhões de mortes oficialmente registradas. O Brasil, até o ano de 2024, registrou a triste marca de 715 mil vidas perdidas para a doença. Eu, por milagre e por propósito, me tornei um sobrevivente dessa história. 


















terça-feira, 23 de junho de 2026

Mudança para Foz do Iguaçu

Gosto dessa história. Me faz bem contá-la.

Eu nasci em Umuarama, mas hoje sou mais iguaçuense que muitos que nasceram aqui, na terra das Cataratas. Viemos para Foz do Iguaçu em 1984.

Em Umuarama, meu pai era administrador de uma empresa pertencente a um tio dele. Minha mãe era costureira. A família havia crescido há dois anos com o nascimento do meu irmão mais novo, o Erick, e meu pai estava naquela fase da vida em que precisava ganhar mais dinheiro. Então comprou um caminhão.

Foi a pior escolha aos olhos humanos. Porém, se não tivesse feito isso, talvez não teríamos mudado para Foz.

O caminhão tinha tudo para ser um grande negócio, porém o motorista contratado não pensou que poderia estar prejudicando uma família e simplesmente sumiu com o veículo. Depois de alguns dias, meu pai o localizou no Mato Grosso e, em um ato de muita coragem, foi buscá-lo. Voltou dirigindo-o.

O sistema de caixa seca do caminhão FNM (Fenemê) possui oito marchas à frente e duas à ré. A configuração clássica utiliza uma combinação de alavancas — uma principal de quatro marchas e uma caixa de redução — que, quando combinadas, exigem habilidade e técnica do motorista.

Então imagine. Admirável.

O que sobrou do caminhão foram dívidas e um fusquinha azul-celeste. Ouvi muitas vezes que era azul "calcinha"; não gostava muito disso. Só lembro que, para completar o caos, em um dos passeios com o tal Fusca, a parte de baixo do banco traseiro estava sem proteção e a estrutura metálica encostou na bateria, fechando curto.

Resultado: pegou fogo. Não queimou o Fusca. Proteção de Deus, sem dúvidas.

Enfim, o Fusca foi vendido, mais dívidas saudadas e uma vida para começar do zero, com três filhos, esposa e uma tia que morava conosco havia alguns anos.

E foi nesse cenário que nasceu a oportunidade de vir para Foz.

Aqui em Foz já moravam meu tio Irineu e minha tia Lia. Eles haviam chegado à cidade em 1978, ano em que abriram o Conservatório Musical Beethoven.

Antes de mudar para cá, nós já havíamos vindo passar férias. As duas famílias sempre foram muito unidas. Viajávamos juntos, estávamos sempre um na casa do outro, apesar da distância. Então o momento chegou.

O tio Irineu ficou sabendo que havia um hotel para ser arrendado ao lado da casa onde moravam, na Avenida Brasil, no coração da cidade. Mais que depressa, comunicou meu pai. E tudo foi tão rápido que não há como duvidar que Deus age em tudo nas nossas vidas. Negócio feito. Vamos morar em Foz do Iguaçu.

Quando conto que meu pai comprou um Opala bordô com teto de vinil, fiado, colocou a família toda dentro e veio parar em Foz, depois vendeu o Opala e mandou o dinheiro para pagar o dono, ninguém acredita. Mas as coisas aconteceram cada uma à sua maneira, nas formas mais curiosas possíveis. Enfim, estávamos em Foz. Março de 1984.

Agora meu pai era proprietário de um hotel em Foz do Iguaçu: o Hotel Junior's, na Avenida Brasil, em frente à Rua Rio Branco. Os vizinhos? Nossos tios e primos. Agora apenas um muro nos separava, e nós conseguíamos pulá-lo com frequência.

Sem saber, naquele março de 1984, não estávamos apenas mudando de cidade. Estávamos chegando ao lugar que, anos depois, eu aprenderia a chamar de lar.

Hoje já são mais de 40 anos de Foz.

Os dois primeiros anos foram no hotel. Depois, o proprietário do imóvel solicitou a devolução. O negócio estava indo muito bem, porém teve que ser interrompido.

A família toda trabalhou muito e de forma unida nesse primeiro desafio. Foram dois anos inesquecíveis.

Primeiro porque o tempo novo nascia com tudo acontecendo da melhor maneira possível. E nós, os filhos, agora estávamos vivendo nosso primeiro desafio de ajudar pai e mãe nos negócios.

Eu já tinha horário para ficar na recepção. Minha tia ajudava no café e na organização dos quartos. Todo mundo trabalhando.

Em 1984, Foz do Iguaçu possuía aproximadamente entre 135 e 150 mil habitantes. O ciclo econômico da década de 1980 foi marcado pela transição do auge da construção da Usina de Itaipu para a consolidação da economia de fronteira, baseada fortemente no turismo e no comércio internacional.

Em outras palavras, vivíamos aquele momento em que ônibus e mais ônibus de muambeiros — ou sacoleiros, como eram chamados — vinham para cá para levar mercadorias para outros estados.

Algo bem curioso acontecia no nosso hotel naquela época: ganhávamos mais dinheiro vendendo banhos do que hospedando pessoas.

Os ônibus dos sacoleiros paravam no hotel para organizar as mercadorias, tomar banho, comer, beber muita cerveja e partir no momento em que acreditavam que os postos de fiscalização não estivessem em operação.

Era um momento histórico para a cidade. Foz estava se reinventando, pois sofrera, nessa mesma época, com a demissão em massa dos trabalhadores de Itaipu.

Depois de viver o ciclo da exploração da madeira e da erva-mate, o ciclo da construção de Itaipu, agora Foz viveria o ciclo do turismo de compras.

Depois da fase do Hotel Junior's, meu pai adquiriu um novo empreendimento: um minimercado, ou, como ficou conhecido, Mercado Lima.

Creio que o Mercado Lima também participou ativamente do desnvolvimento de Foz. Estava localizado na Rua Jorge Sanwais, próximo ao Colégio Monsenhor Guilheme, da baixada, próximo ao rio. Essa última referência não é por acaso. Ali bem próximo ao mercadinho ficava o local em que embarcações atravessavam para o lado paraguaio levando mercadorias brasileiras para o abastecimento do comercio do país vizinho. Ilegal, porém o ganha pão de muitos ali da região e do lado de lá também.

O comércio do pai chegou a vender 1500 litros de leite no dia. 200 bojões de gás. 1000 kg de farinha de trigo. No final da tarde, além das vendas realizadas, ganhávamos dinheiro com os “chapas” que vinham gastar o “faz-me rir”.

Na época a Vila Portes abria seus primeiro comércios e nós éramos já referência em exportação.

Tinhamos açougue, padaria, secos e molhados, armarinhos em geral. Ainda não existia essa palavra, mas éramos um ATACAREJO aos modos 1980. O comércio não era grande, mas o giro de mercadorias era imenso.

Estamos falando aqui dos nossos primeiros cinco anos em Foz do Iguaçu. Nesse período, a cidade crescia, a fronteira fervilhava de oportunidades e nossa família crescia junto com ela.

Agora eu já estava no ensino médio. Aos poucos, deixava de ser apenas o menino que havia chegado de Umuarama para me tornar um jovem iguaçuense. Entre os corredores do Mercado Lima, as ruas de terra que aos poucos ganhavam asfalto, os amigos da escola e o movimento constante da fronteira, eu começava a entender que Foz do Iguaçu já não era apenas a cidade para onde havíamos nos mudado.

Era a cidade que estava me formando.

Sem perceber, enquanto meu pai construía um negócio e ajudava a abastecer uma cidade em transformação, eu também construía minhas próprias raízes. E aquelas raízes já estavam profundas demais para serem arrancadas.

Foz do Iguaçu havia deixado de ser destino. Estava se transformando em minha vida. 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Sou filho das selvas

Uma luz é filtrada pelas folhas densas das árvores e clareia o chão úmido da mata. Uma imagem que, para os japoneses, poderia ser interpretada como um komorebi perfeito.

Agora é possível ouvir passos que se aproximam. São inúmeros e parecem estar ritmados ao som de uma fanfarra. Mais próximos, mais próximos, o som aumenta como se alguém mexesse no botão de volume de um rádio. O que cantam parece ser algo tão puro, valente e encantador:

"Meu canto de morte,

Guerreiro, ouvi:

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci;

Guerreiros, descendo

Da tribo tupi."

Que momento glorioso! Eu ali, um simples espectador de um dos desfiles mais encantadores que já presenciei, um deslumbre inesquecível. Os indígenas passam, em uma cadência perfeita, ali, na minha frente. Parecem não se importar com a minha presença. Estico o braço e toco em um deles. Ele não se mexe. Continua caminhando. Cantam juntos, olhando para o horizonte, como se seguissem um destino conhecido apenas por eles.

Então, de repente, tudo começa a desaparecer. Primeiro os sons. Depois as cores. Por fim, as figuras.

Abro os olhos.

— Guilherme! Você está dormindo? — pergunta meu pai, sorrindo.

Olho ao redor. Estou no banco de trás do carro. Meu pai dirige pela estrada enquanto meu irmão observa a paisagem pela janela.

— Já estamos chegando? — pergunto, ainda confuso.

— Estamos quase nas Cataratas — responde meu pai.

Sento-me direito. O coração ainda bate acelerado por causa do sonho. Em poucos dias seria a apresentação do Dia do Índio na escola, e eu precisava decorar o poema I-Juca Pirama. Talvez por isso aqueles versos não saíssem da minha cabeça.

Quando chegamos, o rugido das águas tomou conta de tudo. Era um som poderoso, impossível de ignorar. Caminhamos pelas trilhas cercadas pela mata e, a cada curva, eu me sentia mais impressionado.

Foi então que encontramos um guia.

Ele era um senhor de fala tranquila e olhos atentos, daqueles que parecem guardar muitas histórias.

— Vocês conhecem a lenda das Cataratas? — perguntou.

Balancei a cabeça negativamente.

— Então vou contar.

Sentamos próximos ao mirante. Atrás dele, a névoa das quedas-d'água subia como fumaça branca em direção ao céu.

— Há muito tempo — começou o guia — vivia nesta região uma bela jovem indígena chamada Naipi. Sua beleza era conhecida por todas as tribos. Segundo a tradição, ela havia sido prometida ao deus-serpente M'Boy. Mas Naipi se apaixonou por um jovem guerreiro chamado Tarobá. E Tarobá também a amava. Os dois decidiram fugir juntos pelo rio. Porém, M'Boy descobriu a fuga e ficou furioso. Com sua enorme força, cortou a terra, abriu uma gigantesca fenda e fez as águas despencarem em uma queda colossal. Assim nasceram as Cataratas. Diz a lenda que Tarobá foi transformado em uma árvore às margens das quedas. Naipi tornou-se uma rocha no meio das águas. E M'Boy permanece ali, guardando para sempre seu reino.

Por alguns instantes, fiquei em silêncio. Observei a floresta. O vento. A névoa. O som das águas. Apertei os olhos com as duas mãos. Será que estou sonhando novamente? Olhei para o lado. Ali estava meu pai em pé, segurando a mão do meu irmão. Agora era real. Estava verdadeiramente nas Cataratas do Iguaçu e alguém havia contado uma história. Para testar se era real, resolvi fazer uma pergunta:

— Estamos em solo indígena?

O guia, mais que depressa, respondeu que sim com a cabeça e, olhando bem nos meus olhos, disse:

— A América toda é solo indígena. Foz do Iguaçu é apenas um dos palcos onde contamos histórias que jamais devem ser esquecidas.

Nessa hora, parecia que o guia havia se esquecido de todos os outros que ali estavam e, em uma conversa unicamente comigo, decidira contar mais sobre tudo o que sabia.

— Para você ter uma ideia, pequeno garoto, estamos em uma região trinacional em que os três países preservam muito da cultura dos povos originários. As Cataratas do Iguaçu não são uma das maravilhas da natureza exclusivamente brasileira; elas dividem os territórios brasileiro e argentino. As Cataratas são um exemplo claro de que Deus pode dar uma bênção que beneficia duas nações. Não se esqueça disso.

Que profundo aquilo que ele havia acabado de falar. Mas isso me fez concluir que, se as duas nações não entendessem isso, poderiam se tornar inimigas. O guia queria me contar mais. Eu parecia querer tirar uma conclusão de cada nova história.

— Vocês já foram a Ciudad del Este? — perguntou o guia. — Passando pela Ponte da Amizade, ao olhar para o lado direito da ponte — isso para quem está indo para o Paraguai —, você observará uma ilha: a Ilha Acaray. Moradores mais antigos também a chamam de Ilha das Cobras. Um detalhe importante: essa ilha pertence ao Brasil. — risos. — Aqui temos uma história não menos importante que a Lenda das Cataratas, mas muitas pessoas não a conhecem. A versão mais conhecida da história conta que Jupira era uma jovem indígena de extraordinária beleza que vivia na ilha. Tão bela era que despertava o interesse de todos os guerreiros da região. Para protegê-la, seus pais a mantinham na parte mais alta da ilha, longe dos visitantes. Com o passar dos anos, Jupira cresceu sem se apaixonar por ninguém e, segundo a lenda, seu espírito permanece na ilha até os dias de hoje, como uma guardiã daquele lugar. Alguns chamam essa narrativa de O Mito da Princesa Jupira e ainda dizem que o pai a isolou no topo da ilha para que nenhum dos pretendentes chegasse até ela.

— Sabe o que significa Acaray? O som "i" no final das palavras, na língua guarani, geralmente indica o diminutivo. E no início significa rio ou água.

Meu Deus! Quanta coisa estava passando pela minha cabeça. Então, Rio Iguaçu é rio de água? Preciso saber o que significa "guaçu" em tupi-guarani. Mas uma coisa eu já estava percebendo: nossa língua, nossa cultura, que mistura era essa? Agora entendi o que o professor de História disse na aula sobre a formação do povo brasileiro: somos um amálgama. Estou cada vez mais curioso para descobrir cada história, cada cantinho dessa cidade.

— Pequeno menino, Acaray significa "pequena coroa". E dizem que ela ainda está lá. Ela é a guardiã da região. — O velho sorriu. — Algumas pessoas dizem que, em certas manhãs de neblina, uma jovem pode ser vista no alto da ilha. Outros juram que é apenas o desenho das árvores contra a luz do amanhecer.

Meu pai me puxou pelo braço. Hora de ir embora. Meu irmão queria comprar uma camiseta. Meu pai comprou algumas lembranças para expor na estante de casa e mostrar para todo mundo que havia visitado as Cataratas do "rio grande" (durante o momento em que eles escolhiam seus souvenires, eu pesquisei no Google o significado de Iguaçu). Eu só queria ir para o carro e poder digerir tudo aquilo que havia acontecido durante o passeio.

No caminho de volta, o cansaço venceu novamente. Fechei os olhos e me vi outra vez na mata. A luz atravessava as folhas das árvores. Ao longe, ouvi o canto dos guerreiros. Mas, desta vez, não caminhei em direção a eles. Caminhei em direção ao rio. Lá estava Jupira. Envolvida pela névoa das águas, como se fosse parte da própria floresta.

— Você encontrou o que procurava? — perguntou ela.

Pensei nos guerreiros do épico de Alencar. Na lenda de Naipi e Tarobá. Nas águas das Cataratas. Então respondi:

— Acho que sim.

Ela sorriu.

— E o que encontrou?

Olhei para a correnteza.

— Histórias.

Ela apontou para o meu peito.

— Você encontrou pertencimento. As histórias estavam aqui antes de você nascer e continuarão aqui depois que você partir. Mas agora elas também vivem em você.

A névoa se tornou mais intensa. Os guerreiros começaram a cantar. As águas rugiram. As árvores dançaram com o vento. E tudo desapareceu.

Quando abri os olhos, estava no auditório da escola. Meu nome havia sido chamado. Caminhei até o palco segurando a folha do poema. Respirei fundo. E comecei:

"Meu canto de morte,

Guerreiro, ouvi..."

Não enxergava apenas palavras. Via os guerreiros atravessando a mata. Via Naipi e Tarobá navegando pelo rio. Via Jupira guardando a floresta. Via as Cataratas.

Enquanto existir alguém disposto a contar uma lenda, recitar um poema ou ouvir o canto da floresta, eles continuarão vivos.


sexta-feira, 22 de maio de 2026

A rua

Uma rua pode revelar uma realidade sem nenhuma palavra.

Nas rachaduras da calçada, no portão sempre fechado, na cadeira vazia da varanda, no comércio que abriu tarde demais, na freada antes da lombada.

Algumas carregam o cansaço de quem acorda antes do sol. Outras exibem a pressa, o abandono, a esperança nas roupas de bebê penduradas no varal. 

Há ruas onde crianças brincam até anoitecer; outras, onde o medo aprende a andar cedo.

Muros, grades, flores no jardim. Música alta, som de vozes na tevê, fumaça de fogão a lenha. Cachorro latindo, gato no telhado, chorrinho e cantiga de ninar.

Toda rua é um retrato humano.
E mesmo calada, sempre está dizendo alguma coisa.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Entre a memória e a fronteira: Festa do Povo Paraguaio celebra cultura, mães e raízes em Foz do Iguaçu

Em maio, duas datas carregadas de significado histórico e afetivo se encontram no coração da comunidade paraguaia: o Dia da Independência do Paraguai, celebrado em 14 e 15 de maio, e o Dia das Mães. Em Foz do Iguaçu, cidade marcada pela convivência entre povos e culturas da tríplice fronteira, essas celebrações ganharam mais uma vez um tom especial com a realização da tradicional Festa do Povo Paraguaio.

A quinta edição do evento aconteceu no último dia 16 de maio, na Vila Paraguaia, bairro localizado às margens do Rio Paraná, praticamente vizinho do Paraguai. Separados apenas pelo rio que também marca a divisa entre os dois países, Brasil e Paraguai compartilham naquela região muito mais do que território: compartilham histórias, famílias, sotaques e tradições.

A festa é organizada por duas amigas da comunidade, Indyanara e Luiza, esta presidente da associação de moradores da Vila Paraguaia, filha de um dos pioneiros paraguaios que ajudaram a construir a história do bairro em Foz do Iguaçu. Mais do que um evento cultural, a celebração tornou-se um símbolo de pertencimento e preservação das raízes paraguaias em solo brasileiro.

A relação de Foz do Iguaçu com os povos vizinhos vem de longa data. Um levantamento populacional realizado em 1889 registrou 324 habitantes na então colônia militar da região, sendo a maioria paraguaios e argentinos, além da presença indígena e de outros grupos ligados à extração de erva-mate e madeira.

Essa diversidade continua viva até hoje — e pode ser vista em festas como essa.

Durante o evento, o pequeno bairro ganhou cores, música e aromas típicos do Paraguai. Moradores e visitantes acompanharam apresentações culturais, danças tradicionais, músicas folclóricas, além de exposições de artesanato que ajudam a manter viva a identidade do povo paraguaio na fronteira.

Na culinária, um dos grandes destaques foi o tradicional “vori vori”, prato típico paraguaio preparado à base de caldo e bolinhas de farinha de milho e queijo, além da famosa chipa, patrimônio gastronômico muito apreciado pelos moradores da fronteira.

As fotos registradas durante a festa mostram a participação da comunidade, famílias reunidas, crianças, idosos e visitantes celebrando juntos uma herança cultural que atravessa gerações. Em uma cidade conhecida mundialmente pelas Cataratas, eventos como a Festa do Povo Paraguaio revelam outro patrimônio valioso de Foz do Iguaçu: sua diversidade humana e cultural.

Mais do que celebrar datas históricas, a festa reafirma a importância dos imigrantes paraguaios na formação social da cidade e fortalece os laços entre os povos da fronteira, mostrando que cultura também é memória, resistência e união.















sexta-feira, 15 de maio de 2026

O Homem Que Nunca Conseguia Ficar

Havia um homem que sempre trocava de lugar.

Mudava de casa.
Mudava de cidade.
Mudava os móveis.
Mudava os planos.
Mudava até os sonhos.

Achava que o problema era o bairro.
Depois, acreditou que era o salário.
Mais tarde, pensou que era a falta de tempo.
Então culpou o governo, o calor, o trânsito, os vizinhos, a idade.

Comprou coisas que queria muito.
Esperou dias ansiosamente por entregas.
Sonhou com carros.
Com viagens.
Com uma casa silenciosa.
Com um sofá confortável.
Com um quarto escuro e frio o suficiente para dormir sem preocupações.

E por alguns instantes funcionava.

Funcionava quando a chave do carro novo girava.
Funcionava quando o cheiro de tinta fresca tomava conta da casa.
Funcionava quando alguém dizia:
“Agora sua vida vai pra frente.”

Mas havia um problema:
A felicidade sempre chegava com prazo de validade.

Era como segurar água nas mãos.

Quanto mais apertava, mais ela escapava.

Com o tempo, percebeu algo estranho:
Não importava onde estivesse, existia sempre uma sensação de não pertencimento.

Como se sua alma estivesse esperando alguma coisa que o mundo não sabia entregar.

Foi então que começou a notar detalhes pequenos.

Os idosos olhando fotografias antigas em silêncio.
Os cemitérios crescendo.
As rugas surgindo devagar no rosto das pessoas.
Os hospitais lotados.
Os remédios sobre as mesas.
Os “adeus” que ninguém estava preparado para dizer.

Descobriu que o mundo inteiro sofria da mesma saudade.

Uma saudade de algo que muitos nunca tinham visto.

Então lembrou de Abraão.

A Bíblia dizia que ele morava em tendas porque aguardava uma cidade cujo construtor era Deus.

Achou aquilo bonito.

Depois lembrou de José do Egito, que viveu no palácio mais poderoso da Terra, mas pediu que seus ossos não permanecessem no Egito.

Até os grandes homens da Bíblia pareciam carregar a sensação de que estavam apenas de passagem.

Naquela noite, sentado sozinho, o homem percebeu algo assustador e ao mesmo tempo consolador:

Talvez ninguém consiga realmente “ficar” neste mundo.

Talvez a alma humana tenha sido feita para outro lugar.

E então entendeu por que nada satisfaz completamente.

Nem dinheiro.
Nem beleza.
Nem fama.
Nem prazer.
Nem conquistas.

Porque existem vazios que não são daqui.

O mundo oferece distrações.
O Céu oferece lar.

Naquela madrugada, pela primeira vez em muitos anos, ele olhou para cima.

Não para procurar estrelas.

Mas para procurar esperança.

E enquanto a cidade fazia barulho do lado de fora, uma paz silenciosa começou a nascer dentro dele.

Como se Deus sussurrasse:

“Você sente falta de casa porque foi criado para a eternidade.”


Produzido com IA.  

terça-feira, 28 de abril de 2026

: - )

 Dois amigos se encontram, como quem não quer nada, e de repente o passado encosta na mesa.

— Lembra do tijolão que comprei quando ainda éramos bem jovens? — diz um, com um meio sorriso, como quem revive um troféu antigo.

— Fazia sucesso — responde o outro, sem hesitar. — Imagina, quando tocava aquele “bip” na minha cintura, eu me sentia  muito importante, E olha que muita gente nem entendia o que estava acontecendo. 

E os dois riem.

Porque era estranho mesmo. Um toque de telefone ecoando numa festa, num café, num bar, chamava atenção como se fosse um anúncio público da própria existência. E aqueles ringtones? Cada um mais chamativo que o outro. Era quase uma assinatura sonora da pessoa.

— Mas o melhor — continua um deles — era a encenação.

— Nossa!!! — o outro já antecipa, rindo.

— Tocava, a gente saía de onde estava, ia pra um canto qualquer e começava a gesticular. Como se o corpo pudesse traduzir uma conversa que ninguém estava ouvindo.

—  Lembrei-me também do nosso amigo que estava sempre acompanhando a moda e apareceu com o tijolão na cintura, todos riram dele, pois o irmão é que era médico e ele com aquele aparelho do lado parecia ser o plantonista.

Os dois ficam alguns segundos em silêncio, como se enxergassem aquelas cenas acontecendo diante deles.

— Era bem estranho mesmo — conclui um, ainda rindo. — Mas sabe o que quase me fez jogar aquele tijolão fora?

— A conta?

— A conta. — agora os dois riem juntos — Cobravam tudo! Minuto, deslocamento, mensagem. Meu Deus, parecia um assalto.

— Bons tempos!

— Falando em mensagem, como era o nome mesmo?

— SMS.

— Isso! SMS — ele repete, saboreando a sigla — Short Message Service. Até 160 caracteres, e sem internet.

— Sem internet. — o outro balança a cabeça, como se isso hoje fosse quase inacreditável.

— E tinha um nome que a gente usava...

— Tinha mesmo! — o outro se anima — Como era?

Os dois se olham, e quase ao mesmo tempo respondem:

— Torpedo.

— Mas peraí —  um deles interrompe, com aquele ar de quem não deixa a história passar batida —  SMS já não é mais do tijolão.

— Verdade! — o outro se corrige na hora — Aí já estamos falando dos Nokias, aquele auge do celular raiz.

E os dois riem, como quem muda de fase dentro da própria memória.

— E os emojis? — um lança, quase como quem abre uma gaveta esquecida.

— Se lembro? — o outro já entra no jogo — Aquilo era arte!

— Meu pai já fazia isso na máquina de escrever, desenhava com as teclas, mas acho que ele nunca imaginou que a gente ia mandar “carinha” por mensagem.

— Total! — responde o amigo — Era tipo emoção em código.

E aí os dois começam a puxar da memória, como quem coleciona pequenas relíquias:

— Clássicos. Vamos ver se ainda lembramos.

E quase como um ritual, eles vão dizendo em voz alta:

— :) ou :-) — sorriso, feliz

— :( ou :-( — triste

— ;) ou ;-) — piscadinha

— :-P ou :p — língua pra fora, zoeira pura

— :-D — gargalhada

— :-O ou :-o — surpresa

— >:( — bravo

— :'( — chorando

— <3 — coração, esse aqui era especial

— :-* — beijo

Eles param. Sorriem.

— Engraçado.  — diz um, pensativo — a gente tinha menos recurso, mas talvez colocasse mais intenção.

— É! — o outro concorda — hoje tem emoji pra tudo, mas naquela época, cada símbolo parecia que carregava um pouco da gente.

Silêncio de novo. Mas agora com um certo gosto de saudade boa.

— E pensar que tudo isso cabia em 160 caracteres.

— E ainda tinha que escolher bem, porque cada mensagem custava.

Os dois riem mais uma vez.

Porque, no fundo, não era só tecnologia.

Era jeito de sentir.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

O dia em que parar não assusta mais

Dia de greve.

Os ônibus estão parados. Os motoristas de aplicativos também.

Curioso, depois daquele “dia em que a Terra parou”, lá no auge da pandemia de COVID-19, parece que nada mais assusta tanto assim. A gente já viu o mundo desacelerar de um jeito tão absurdo que, agora, o caos cotidiano quase soa comum.

Mas não deixa de incomodar.

Porque, no fundo, a pergunta fica martelando: se o transporte coletivo é uma concessão pública, se a mobilidade urbana é um bem comum, então quem está falhando? Quem está negligenciando?

É, talvez pense demais.

Porque começo falando de greve e, quando vejo, já estou discutindo etimologia.

A palavra “greve” vem do francês grève, que originalmente significava uma faixa de areia à beira de um rio ou mar. Um espaço meio neutro, meio de ninguém. Há quem diga que era ali que trabalhadores se reuniam para protestar, justamente por não ser um território “formal”.

Outra versão, talvez a mais conhecida, aponta para a Place de Grève, em Paris, às margens do Rio Sena. Um lugar onde, durante séculos, trabalhadores se encontravam, primeiro para procurar emprego, depois para reivindicar direitos.

Não há um ano exato que marque o nascimento da greve como conhecemos hoje. Mas sabe-se que, no século XVIII, esses encontros começaram a ganhar um tom mais reivindicatório. Com a Revolução Francesa, o espaço virou símbolo. E, no século XIX, o termo faire grève já carregava o sentido que conhecemos: parar de trabalhar como forma de pressão.

Ou seja, essa história de parar para ser ouvido, não é de hoje.

E aí vem a pergunta que ecoa: 

Por que as pessoas sempre precisam se reunir para exigir melhores condições?
Por que quem emprega não percebe isso antes?

Fico com a sensação de que existe um desencontro quase permanente: quem paga acredita que está pagando muito; quem recebe sente que recebe pouco. E os dois lados seguem, cada um convicto da sua própria razão.

Será que é da natureza humana essa dificuldade de perceber o outro?
Ou será que, no fundo, ninguém acha que precisa se preocupar mesmo?

Afinal, como diz o velho ditado:
“manda quem pode, obedece quem tem juízo.”

Uma frase que, no fundo, não é só sobre autoridade. É sobre conformismo. Sobre sobrevivência. Sobre saber que, às vezes, questionar custa caro.

E assim a roda gira.

“O que o chefe manda, se faz.”
“É melhor calar e obedecer.”
“Acatar a ordem superior.”

Mas até quando?

Porque, olhando para um dia como hoje, cidade travada, gente parada, rotina interrompida, talvez a gente precise encarar uma verdade desconfortável:

Se chegou ao ponto de parar tudo é porque, em algum momento, ninguém quis escutar quando ainda dava para ajustar.

No fim das contas, a greve não começa no dia em que o trabalho para.

Ela começa bem antes, no dia em que alguém percebe que está sendo ignorado e decide que, sozinho, já não dá mais.

Manda quem pode, obedece...

 Ele se chamava Jonas.

Jonas acordava todos os dias às 5h17 — nem 5h15, nem 5h20. 5h17. Era o tempo exato que ele calculava para não se atrasar, não chamar atenção, não criar problema. Vestia o uniforme ainda meio amarrotado, tomava um café ralo e saía em silêncio, como se até o barulho pudesse ser interpretado como insubordinação.

No trabalho, Jonas era conhecido como “tranquilo”. Nunca reclamava. Nunca questionava. Nunca dizia “não”.
Se pediam hora extra, ele fazia.
Se mudavam o turno, ele aceitava.
Se atrasavam o pagamento, ele respirava fundo e seguia.

— “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, dizia ele, meio rindo, meio sério.

Mas Jonas não era burro. Pelo contrário. Ele via tudo.

Via o colega adoecendo de cansaço.
Via a funcionária chorando no banheiro.
Via o chefe dizendo “é o que dá pra pagar”, enquanto trocava de carro no estacionamento.

E, ainda assim, Jonas se calava.

Porque Jonas tinha medo.
Medo de perder o emprego.
Medo de “arrumar problema”.
Medo de ser aquele que “fala demais”.

Até que veio o dia.

O dia em que não tinha ônibus.
O dia em que não tinha aplicativo.
O dia em que a cidade parecia travada e, pela primeira vez, Jonas também travou.

Ele ficou parado na calçada, olhando outras pessoas como ele: cansadas, atrasadas, irritadas… mas, curiosamente, juntas.

Alguém falou alto:
— “Se a gente não parar, nada muda.”

Jonas ouviu.

Outro respondeu:
— “Mas parar dá problema.”

E um terceiro retrucou:
— “Continuar também tá dando.”

Aquilo ficou ecoando na cabeça dele.

Continuar também tá dando.

Naquele dia, Jonas chegou atrasado. Pela primeira vez em anos.

O chefe veio com o discurso pronto:
— “Aqui não é bagunça, Jonas. Tem regra.”

E pela primeira vez Jonas respondeu.

Calmo. Sem gritar. Sem desrespeitar.

— “Tem regra pra gente, mas não tem pra tudo, né?”

O silêncio que veio depois foi diferente de todos os outros silêncios que Jonas já tinha vivido.

Não era o silêncio do medo.
Era o silêncio do incômodo.

Na semana seguinte, Jonas não estava sozinho.

Outros começaram a falar também.
Não gritando. Não quebrando nada.
Mas deixando de aceitar tudo.

Jonas continuava trabalhando. Continuava responsável.
Mas já não era obediente por reflexo — era consciente por escolha.

E ele entendeu uma coisa simples, mas poderosa:

Obedecer pode evitar problemas imediatos…
Mas questionar, às vezes, é o único jeito de resolver os problemas que nunca acabam.

E naquele dia, enquanto voltava pra casa — ainda sem ônibus, mas com algo diferente no peito — Jonas percebeu:

O mundo não muda quando um manda e o outro obedece.

O mundo começa a mudar quando quem sempre obedeceu, finalmente entende que também pode falar.


Texto elaborado com auxilio de IA. 

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