segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A FORÇA DA MULHER - 10 escritoras contemporâneas. 10 histórias. 10 dias de literatura.


Especial Outubro Rosa | Mitá Arandu

As protagonistas serão Conceição Evaristo, Carla Madeira, Ana Maria Gonçalves, Aline Bei, Djamila Ribeiro, Ana Paula Maia, Socorro Acioli, Giovana Madalosso, Jarid Arraes e Micheliny Verunschk.

A proposta é publicar uma matéria por dia, apresentando a trajetória de cada escritora, suas principais obras, seu estilo literário e sua contribuição para a literatura brasileira contemporânea.

O Outubro Rosa será o contexto da homenagem, mas o verdadeiro destaque estará na força da mulher por meio da literatura.

Nossa frase de campanha:

“A força da mulher também se escreve.”

Começaremos com Conceição Evaristo e sua escrevivência, inaugurando uma série que une literatura, educação, memória e protagonismo feminino.

Cada dia, uma escritora. Mas não apenas uma biografia: quero sugerir textos que despertem no leitor a vontade de conhecer a autora e, principalmente, de ler suas obras.

Calendário da série

Data

Escritora

Tema da matéria

20/10

Conceição Evaristo

Quando a vida se transforma em literatura

21/10

Carla Madeira

O amor, a dor e os rios da existência

22/10

Ana Maria Gonçalves

A história que o Brasil precisa contar

23/10

Aline Bei

A poesia escondida dentro da prosa

24/10

Djamila Ribeiro

A força da palavra e do pensamento

25/10

Ana Paula Maia

A literatura dos invisíveis

26/10

Socorro Acioli

Entre a realidade e o fantástico

27/10

Giovana Madalosso

As contradições da vida contemporânea

28/10

Jarid Arraes

O cordel e a memória das mulheres negras

29/10

Micheliny Verunschk

A literatura que recupera histórias esquecidas

Literatura brasileira contemporânea: conheça dez escritoras que estão transformando a nossa literatura

 

Imagem criada com o auxilio da IA

Questão cobrada no PSS do Paraná, realizado no domingo (18), chama a atenção para a presença feminina na produção literária brasileira dos últimos 20 anos. Conheça algumas das autoras e obras que ajudam a compreender esse cenário.

Por Emerson Fulgencio de Lima | Mitá Arandu — 19 de outubro de 2026 - Uso de IA para pesquisas e organização textual. 

Quem participou do Processo Seletivo Simplificado (PSS) para professores do Paraná, realizado no último domingo, 18 de outubro, encontrou, entre os conteúdos de Língua Portuguesa, uma questão relacionada à literatura brasileira contemporânea. O enunciado solicitava identificar a alternativa que apresentava exclusivamente escritoras pertencentes à produção literária das últimas duas décadas.

Mais do que uma questão de concurso, o assunto oferece uma excelente oportunidade para conhecer algumas das mulheres que vêm renovando a literatura brasileira.

Durante muito tempo, o ensino da literatura privilegiou nomes consagrados, como Machado de Assis, José de Alencar, Carlos Drummond de Andrade e Graciliano Ramos. Entre as mulheres, destacavam-se principalmente Cecília Meireles, Clarice Lispector e Rachel de Queiroz.

Entretanto, a literatura não parou no século XX. Novas escritoras conquistaram leitores, prêmios e reconhecimento, trazendo outras perspectivas para temas como identidade, desigualdade social, relações familiares, racismo, memória, violência e condição feminina.

Conheça dez escritoras fundamentais para compreender parte da produção literária brasileira do século XXI.

1. Conceição Evaristo — A literatura como memória e resistência

Uma das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea, Conceição Evaristo nasceu em Belo Horizonte, em 1946. Sua produção é marcada pelas experiências da população negra, especialmente das mulheres.

A escritora desenvolveu o conceito de escrevivência, que relaciona a criação literária às experiências vividas, à memória individual e coletiva e às histórias de grupos frequentemente silenciados.

Obras para conhecer:

  • Ponciá Vicêncio (2003): romance que acompanha a trajetória de uma mulher negra em busca de sua identidade, abordando ancestralidade, deslocamento e desigualdade.

  • Becos da memória (2006): narrativa construída a partir das experiências de moradores de uma comunidade ameaçada de remoção.

  • Olhos d'água (2014): coletânea de contos que apresenta histórias atravessadas pela pobreza, pelo racismo, pelo afeto e pela resistência.

Sua literatura demonstra que contar histórias também é uma maneira de preservar memórias e questionar injustiças.

2. Carla Madeira — Os sentimentos humanos em profundidade

Nascida em Belo Horizonte, Carla Madeira tornou-se um fenômeno editorial, conquistando leitores com romances intensos, personagens complexos e uma linguagem sensível.

Suas histórias exploram o amor, a culpa, a violência, o perdão e as consequências das escolhas humanas.

Obras para conhecer:

  • Tudo é rio (2014): romance sobre um casal marcado por uma tragédia, no qual amor, ciúme, sofrimento e perdão se entrelaçam.

  • A natureza da mordida (2018): narrativa sobre encontros, lembranças, perdas e as marcas deixadas pelas relações humanas.

  • Véspera (2021): romance que investiga as relações familiares, os conflitos entre irmãos e os efeitos de acontecimentos aparentemente irreversíveis.

Carla Madeira representa uma literatura que encontra nos dramas cotidianos matéria para grandes reflexões.

3. Ana Maria Gonçalves — A história brasileira contada por outras vozes

Ana Maria Gonçalves ganhou destaque com um dos romances históricos mais importantes publicados no Brasil neste século.

Sua escrita recupera experiências da população negra e revisita acontecimentos históricos a partir de perspectivas pouco contempladas pelas narrativas tradicionais.

Obras para conhecer:

  • Ao lado e à margem do que sentes por mim (2002): seu romance de estreia.

  • Um defeito de cor (2006): extensa narrativa sobre Kehinde, uma mulher africana que enfrenta a escravidão e constrói sua trajetória entre a África e o Brasil.

Um defeito de cor tornou-se referência para os estudos sobre escravidão, identidade, ancestralidade e resistência negra.

É uma obra que convida o leitor a revisitar a história do Brasil por meio de uma perspectiva feminina e negra.

4. Aline Bei — Quando a prosa encontra a poesia

Aline Bei é uma das representantes de uma geração que experimenta novas possibilidades de linguagem literária.

Sua escrita apresenta características poéticas, com frases distribuídas de maneira particular pelas páginas, explorando pausas, silêncios e emoções.

Obras para conhecer:

  • O peso do pássaro morto (2017): romance que acompanha diferentes momentos da vida de uma mulher, abordando perdas, traumas, amadurecimento e solidão.

  • A pequena coreografia do adeus (2021): narrativa sobre uma jovem que enfrenta conflitos familiares e procura construir sua própria identidade.

A autora demonstra que a literatura contemporânea também se caracteriza pela experimentação formal, rompendo com estruturas narrativas convencionais.

5. Djamila Ribeiro — Literatura, filosofia e pensamento crítico

Filósofa e escritora, Djamila Ribeiro ocupa posição de destaque no debate intelectual brasileiro contemporâneo.

Sua produção está especialmente relacionada à filosofia, ao feminismo negro, ao racismo estrutural e às desigualdades sociais.

Obras para conhecer:

  • O que é lugar de fala? (2017): reflexão sobre as posições sociais a partir das quais as pessoas participam dos debates públicos.

  • Quem tem medo do feminismo negro? (2018): reunião de textos sobre racismo, feminismo e questões sociais.

  • Pequeno manual antirracista (2019): obra que apresenta reflexões e propostas práticas para o enfrentamento do racismo.

Embora sua produção esteja mais próxima do ensaio filosófico e social do que da ficção literária, Djamila integra o importante conjunto de autoras brasileiras contemporâneas.

6. Ana Paula Maia — A literatura dos personagens invisíveis

Ana Paula Maia construiu uma produção literária marcada por ambientes difíceis, violência, trabalho e personagens frequentemente esquecidos pela sociedade.

Sua ficção apresenta uma linguagem direta e situações que revelam aspectos sombrios da condição humana.

Obras para conhecer:

  • Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos (2009): narrativas centradas em trabalhadores que convivem com a brutalidade e a marginalização.

  • Assim na terra como embaixo da terra (2017): romance ambientado em uma colônia penal, explorando violência, poder e desumanização.

  • De cada quinhentos uma alma (2021): narrativa que combina isolamento, morte e sobrevivência em um cenário de devastação.

A escritora dá protagonismo a pessoas e profissões que raramente ocupam o centro das narrativas literárias.

7. Socorro Acioli — O fantástico e a cultura popular brasileira

Nascida no Ceará, Socorro Acioli desenvolve uma literatura marcada pela oralidade, pela cultura nordestina e pela presença de elementos fantásticos.

Suas narrativas aproximam o cotidiano de acontecimentos extraordinários, explorando crenças, tradições e histórias populares.

Obras para conhecer:

  • A cabeça do santo (2014): romance sobre um jovem que descobre a capacidade de ouvir as orações das mulheres dirigidas a uma imagem de santo.

  • Oração para desaparecer (2023): narrativa que mistura memória, identidade, mistério e elementos fantásticos.

Sua produção mostra como as tradições populares continuam sendo uma fonte importante de renovação da literatura brasileira.

8. Giovana Madalosso — A vida urbana e suas contradições

Giovana Madalosso destaca-se pela construção de personagens contemporâneos, especialmente mulheres que enfrentam conflitos relacionados à maternidade, ao trabalho, às relações afetivas e à vida nas grandes cidades.

Sua literatura apresenta humor, crítica social e observações sobre as contradições do cotidiano.

Obras para conhecer:

  • Tudo pode ser roubado (2018): romance protagonizado por uma mulher que trabalha em um restaurante e se envolve em situações relacionadas ao desejo, ao consumo e às relações de poder.

  • Suíte Tóquio (2020): narrativa que explora maternidade, trabalho doméstico, desigualdade e relações entre mulheres de diferentes classes sociais.

A autora apresenta personagens que questionam expectativas sociais e os papéis tradicionalmente atribuídos às mulheres.

9. Jarid Arraes — A força do cordel e das mulheres negras

Jarid Arraes nasceu em Juazeiro do Norte, no Ceará, e tornou-se conhecida pela valorização da literatura de cordel e pela recuperação de histórias de mulheres negras.

Sua produção aproxima tradição popular, memória histórica e debates contemporâneos.

Obras para conhecer:

  • Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis (2017): apresenta trajetórias de mulheres negras importantes para a história brasileira, utilizando a linguagem tradicional do cordel.

  • Redemoinho em dia quente (2019): coletânea de contos que aborda experiências femininas, conflitos sociais e o cotidiano nordestino.

  • Corpo desfeito (2022): romance que trata de violência, relações familiares e possibilidades de reconstrução pessoal.

Jarid demonstra que a literatura popular e as formas tradicionais de expressão continuam vivas e relevantes.

10. Micheliny Verunschk — História, imaginação e ancestralidade

Micheliny Verunschk, escritora pernambucana, destaca-se pela combinação de pesquisa histórica, linguagem poética e narrativas que questionam versões oficiais da história.

Sua produção frequentemente aborda memória, colonialismo, violência e relações entre seres humanos e natureza.

Obras para conhecer:

  • Nossa Teresa: vida e morte de uma santa suicida (2014): romance que explora religiosidade, sofrimento e construção de narrativas.

  • O som do rugido da onça (2021): romance inspirado na história de duas crianças indígenas levadas do Brasil para a Europa no século XIX.

  • Caminhando com os mortos (2023): narrativa que aborda conflitos envolvendo religiosidade, intolerância e violência.

A autora utiliza a ficção para questionar apagamentos históricos e recuperar experiências frequentemente esquecidas.

Afinal, o que caracteriza a literatura brasileira dos últimos 20 anos?

Não existe uma única escola literária que reúna toda a produção brasileira contemporânea. Ao contrário, uma de suas características mais evidentes é justamente a diversidade.

Entre as tendências observadas nas obras dessas escritoras estão a valorização das memórias individuais e coletivas, o protagonismo feminino, a discussão das desigualdades sociais, a presença das identidades negras e indígenas, a experimentação da linguagem e a representação dos conflitos da vida urbana.

Outra característica importante é a multiplicidade de gêneros: romances, contos, cordéis, ensaios e narrativas que aproximam prosa e poesia.

Essas escritoras não formam um movimento literário único. Entretanto, suas obras ajudam a compreender como a literatura brasileira vem ampliando suas perspectivas e seus modos de representar a sociedade.

O que a questão do PSS nos ensina?

A presença da literatura contemporânea em uma prova destinada à seleção de professores é um lembrete importante: ensinar literatura não significa apenas estudar o passado, mas também compreender o que está sendo produzido no presente.

Conhecer os clássicos continua sendo indispensável. Machado de Assis, Clarice Lispector, Cecília Meireles e tantos outros autores permanecem fundamentais para a formação dos leitores.

Entretanto, o professor de Língua Portuguesa precisa acompanhar também as novas produções, reconhecer diferentes manifestações literárias e apresentar aos estudantes autores que dialogam com os problemas, as experiências e as inquietações de nosso tempo.

A literatura brasileira continua sendo escrita, publicada, discutida e reinventada.

E muitas das vozes que estão construindo essa história pertencem às mulheres.

Afinal, estudar literatura é também aprender a reconhecer o nosso tempo nas palavras de quem o escreve.

Mitá Arandu — Cultura, educação, memória e literatura.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

ILKA AGRIPINA VERA: A PROFESSORA QUE AJUDOU A ESCREVER A HISTÓRIA DE FOZ DO IGUAÇU


Foto: Áurea Cunha /
Arquivo Guatá

  Pioneira da educação iguaçuense, Ilka Vera dedicou mais de quatro   décadas ao magistério e deixou um legado que ultrapassa as salas de     aula.

 Por Emerson Fulgencio - pesquisas realizadas e organização do texto  com uso de IA. 

 Antes de Foz do Iguaçu se transformar em um dos principais destinos   turísticos do Brasil, antes da construção de Itaipu e do crescimento   acelerado da cidade, havia pessoas que, silenciosamente, construíam os   alicerces de nossa história. Algumas erguiam prédios, outras abriam   estradas. E havia aquelas que ensinavam as primeiras letras.

 Entre elas estava Ilka Agripina Vera, uma mulher cuja trajetória se   confunde com a própria história da educação iguaçuense.

 Nascida em 23 de junho de 1919, em Foz do Iguaçu, Ilka era filha de   Diego Ignácio Vera, argentino, e de mãe de origem paraguaia. Sua família representa bem a identidade fronteiriça da cidade, formada pelo encontro de diferentes povos, idiomas e culturas.

Seu pai foi responsável pelo funcionamento de um dos primeiros geradores de energia elétrica da cidade, movido a lenha. Enquanto ele ajudava a iluminar a pequena Foz do Iguaçu, a filha, anos depois, dedicaria a vida a outra forma de iluminação: o conhecimento.

Uma menina que queria aprender

A infância de Ilka aconteceu em uma Foz muito diferente daquela que conhecemos. As oportunidades de escolarização eram escassas, e o acesso à educação dependia, muitas vezes, da iniciativa de particulares ou de religiosos.

Sua primeira experiência escolar foi traumática. Em entrevista concedida ao jornalista Juvêncio Mazzarollo, em 1993, ela contou que abandonou uma pequena escola depois de presenciar uma professora castigar um aluno com a palmatória.

Ilka não concordava com aquela violência.

Passou a aprender em casa, com a ajuda de um tio, até ingressar, em 1928, na recém-criada Escola Bartolomeu Mitre. Fez parte da primeira turma de formandos da instituição.

A menina que enfrentou dificuldades para estudar se tornaria, anos depois, uma das professoras mais importantes da cidade.

O magistério como missão

Antes de ingressar definitivamente no magistério, Ilka trabalhou em atividades ligadas às obras realizadas no Parque Nacional do Iguaçu e também na área de enfermagem.

Sua experiência como educadora começou com filhos de trabalhadores envolvidos na construção da Usina São João, no Parque Nacional. Em 1947, passou a atuar oficialmente como professora na Escola Bartolomeu Mitre.

Posteriormente, também lecionou no Colégio Monsenhor Guilherme, onde trabalhou com a disciplina de História.

Foi uma das pioneiras na alfabetização de adultos em Foz do Iguaçu, numa época em que muitos trabalhadores não haviam tido oportunidade de frequentar a escola.

Sem os recursos tecnológicos de hoje, Ilka desenvolveu uma maneira própria de ensinar. Utilizava elementos da natureza, objetos simples e situações do cotidiano para tornar a aprendizagem mais próxima da realidade dos alunos.

Não precisava de grandes equipamentos para ensinar. Precisava conhecer seus estudantes.

Em sua entrevista de 1993, deixou uma frase que merece permanecer na memória de todos os educadores:

“O principal segredo do sucesso do professor é cativar os alunos.”

Uma afirmação simples, mas de extraordinária profundidade pedagógica.

A professora que enxergava além do comportamento

Entre os episódios de sua carreira, um revela especialmente sua sensibilidade.

Certa vez, ao enfrentar problemas de indisciplina com um aluno, Ilka tomou uma atitude pouco habitual: retirou-o da sala. Incomodada com a própria reação, procurou compreender o que estava acontecendo.

Descobriu que o menino enfrentava dificuldades familiares, relacionadas à separação dos pais.

O estudante posteriormente pediu desculpas e se tornou um dos melhores alunos.

A história revela uma educadora que, muito antes de expressões como educação socioemocional ganharem espaço nos debates pedagógicos, compreendia que o comportamento de uma criança nem sempre poderia ser explicado apenas pelo que acontecia dentro da sala de aula.

Era preciso olhar para o aluno. Conhecer sua história. Compreender suas dores.

Uma vida dedicada à educação

Ilka continuou estudando ao longo da vida, conquistando formação no magistério e, posteriormente, licenciatura em História.

Ao longo de mais de quatro décadas de trabalho, ajudou a alfabetizar gerações de iguaçuenses. Entre seus antigos estudantes estavam pessoas que mais tarde se tornariam médicos, engenheiros, advogados e profissionais de diferentes áreas.

Mas ela não costumava destacar um aluno em particular. Sua satisfação estava na aprendizagem e no reconhecimento recebido daqueles que passaram por suas salas de aula.

Na década de 1990, recebeu da Câmara Municipal o título de cidadã benemérita de Foz do Iguaçu, em reconhecimento à sua contribuição para a educação pública.

Ilka faleceu em 31 de janeiro de 2012, aos 92 anos.

Deixou, porém, algo que não pode ser medido apenas por diplomas, homenagens ou anos de serviço: o conhecimento transmitido a milhares de pessoas e a influência que esse conhecimento exerceu sobre suas vidas.

Uma professora que também amava sua cidade

Além de educadora, Ilka cultivava um profundo sentimento de pertencimento a Foz do Iguaçu.

Na década de 1950, escreveu um poema dedicado à cidade, no qual exaltava suas belezas naturais, sua gente e a importância do trabalho e da instrução para o desenvolvimento local.

O manuscrito foi preservado pela família e divulgado posteriormente, acrescentando mais uma dimensão à memória dessa mulher que testemunhou tantas transformações da fronteira.

Ilka conheceu uma Foz de ruas tranquilas, cinemas improvisados, escolas ainda em formação e uma população que começava a construir sua identidade urbana.

Viu a cidade crescer, transformar-se e ganhar projeção internacional.

E participou desse processo ensinando.

A memória de quem ensinou não pode ser esquecida

Foz do Iguaçu costuma contar sua história por meio das grandes obras, dos monumentos, das Cataratas, da Ponte da Amizade e da Usina de Itaipu.

Tudo isso tem sua importância.

Mas uma cidade também é construída por pessoas que, muitas vezes, não aparecem nas fotografias oficiais de inaugurações.

Professores que ensinavam com poucos recursos. Mulheres que enfrentaram limitações de sua época. Educadores que abriram caminhos para gerações inteiras.

Ilka Agripina Vera pertence a esse grupo.

Sua trajetória nos lembra que a história da educação não se resume a prédios escolares, reformas curriculares ou políticas públicas. Ela também é feita de relações humanas, persistência, dedicação e compromisso.

Talvez essa seja uma das maiores lições deixadas por Ilka: uma cidade não se desenvolve apenas quando aprende a construir grandes obras, mas também quando oferece às pessoas a oportunidade de aprender a ler o mundo.

E Ilka ajudou Foz do Iguaçu a fazer exatamente isso.


Fontes históricas: Entrevista de Ilka Agripina Vera concedida ao jornalista Juvêncio Mazzarollo, em 1993, publicada no livro Foz do Iguaçu: Retratos (1997); acervo Guatá Cultura em Movimento; revista Escrita, edição 53, e Museu da Imprensa de Foz do Iguaçu.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Esquerda ou direita?

 Entrei na briga, resolvi discutir sobre a direita e a esquerda. Vem comigo?

Ultimamente, tenho ouvido tanta gente dizendo “sou de direita”, “sou de esquerda”, “não suporto a direita”, “detesto a esquerda”, que resolvi investigar. Parece que o mundo foi dividido em dois lados e que, obrigatoriamente, precisamos escolher um deles. E, de preferência, não gostar do outro.

Comecei pela escrita. Há quem escreva com a mão direita e quem escreva com a esquerda. Confesso que o que me dá certa aflição é letra feia, mas não vamos criar mais uma divisão por causa disso.

Outro dia, assistindo a um vídeo de Geografia, aprendi uma curiosidade. Você sabe identificar as margens direita e esquerda de um rio? Basta olhar no sentido da correnteza, de costas para a nascente.

No Rio Paraná, por exemplo, olhando de Itaipu em direção ao Marco das Três Fronteiras, Ciudad del Este fica à direita e Foz do Iguaçu, à esquerda. Portanto, Foz está na margem esquerda do Rio Paraná. Seria, então, uma cidade de esquerda? Calma, pessoal! É apenas Geografia.

E no Rio Iguaçu? Se você olhar das Cataratas em direção à foz do rio, Foz do Iguaçu estará em qual margem? Deixo como tarefa de casa. Afinal, professor não perde o costume.

Certa vez, precisei comprar uma peça para o carro. O vendedor perguntou se era a direita ou a esquerda. Fiquei na dúvida. Direita de quem? Minha ou de quem olha o carro de frente? Descobri que a referência é a posição de quem está sentado ao volante, olhando para a frente. Simples assim. 

E o relógio? Tradicionalmente no braço esquerdo. A aliança? No Brasil, costuma ficar na mão direita durante o noivado e na esquerda depois do casamento. Até o amor muda de lado! Tomara que não mude de sentimento.

Você sabia que os botões das camisas masculinas tradicionalmente ficam à direita de quem veste, enquanto os das femininas ficam à esquerda? Uma das explicações históricas associa essa diferença ao tempo em que mulheres da elite eram vestidas por criadas. Até para abotoar uma camisa encontramos uma maneira de dividir os lados.

E os ingleses, que dirigem pela esquerda? Uma das explicações remonta aos cavaleiros medievais, que circulavam desse lado para manter a mão direita livre para sacar a espada. Imagine um brasileiro chegando a Londres e descobrindo que, por lá, a esquerda é o lado certo!

No cérebro, a situação é ainda mais curiosa: o hemisfério esquerdo controla boa parte dos movimentos do lado direito do corpo, e vice-versa. Ou seja, dentro da nossa própria cabeça, direita e esquerda precisam trabalhar juntas. Talvez esteja aí uma boa lição.

E no futebol? Quem não gostaria de ter uma perna esquerda tão destra quanto a de Nilton Santos, a Enciclopédia do Futebol? Ou a canhota de Branco, autor de verdadeiras bombas nas cobranças de falta? E Garrincha, que jogava pela ponta direita e deixava os adversários sem saber para que lado correr? No futebol, ninguém se incomoda com a esquerda ou com a direita. O importante é saber jogar. Pena que fora dos gramados nem sempre pensamos assim.

Até a linguagem entrou nessa história. A palavra “sinistro” vem do latim sinister, que também significava “esquerdo”. Com o tempo, ganhou sentidos negativos. Coitados dos canhotos! Será que até o vocabulário resolveu persegui-los.

Mas, afinal, de onde surgiram a direita e a esquerda na política?

A história nos leva à Revolução Francesa, em 1789. Na Assembleia, os representantes se organizaram fisicamente conforme suas posições. À direita, de modo geral, ficavam os defensores da monarquia e da ordem tradicional. À esquerda, aqueles que defendiam mudanças mais profundas na sociedade.

A disposição das cadeiras acabou dando nome a correntes políticas que atravessaram séculos e fronteiras. E pensar que tudo poderia ter sido diferente se alguém tivesse trocado as cadeiras de lugar!

Humberto Gessinger, dos Engenheiros do Hawaii, já brincava com essas contradições em A Revolta dos Dândis II, quando cantava: “Esquerda e direita, direitos e deveres”.

Uma frase curta, mas provocadora. Afinal, em tempos de tanta preocupação em defender a direita ou a esquerda, talvez estejamos nos esquecendo justamente dos direitos e dos deveres. Principalmente dos deveres, que parecem sempre pertencer ao lado de lá.

Hoje, evidentemente, as diferenças políticas são muito mais complexas. Existem várias direitas, várias esquerdas e inúmeras posições entre elas. O problema não está em ter convicções, mas em transformá-las em verdades absolutas.

Conheço pessoas extraordinárias que pensam diferente de mim. E outras que pensam exatamente como eu, mas com quem tenho enormes dificuldades de convivência. Isso deveria nos ensinar alguma coisa.

Um amigo costumava dizer que existem ideias dominantes em determinadas épocas, mas que nem tudo permanece para sempre. A história confirma isso. Costumes mudam, conceitos envelhecem e certezas aparentemente inabaláveis acabam sendo revistas.

Lembro novamente de Humberto Gessinger:

"Você esquece que eu não sou de ferro
E até o ferro pode enferrujar
Você esquece que eu não sou de aço
E faço questão de provar
Olhe pra mim... Enquanto eu me quebro"

Quando canta sobre a fragilidade humana e nos recorda de que até o ferro pode enferrujar. Se até o ferro sofre a ação do tempo, por que nossas opiniões deveriam permanecer intocáveis?

E Raul Seixas, em sua genial Metamorfose Ambulante, já nos provocava a desconfiar daquela velha opinião formada sobre tudo.

Não se trata de abandonar princípios ou mudar de opinião conforme o vento. Trata-se de reconhecer que aprender também exige disposição para rever aquilo que julgávamos definitivo.

Talvez a vida seja mesmo um grande campo de futebol. Há quem jogue pela direita, quem prefira a esquerda e quem passe os noventa minutos em cima do muro, reclamando do juiz. Mas de nada adianta discutir tanto os lados se ninguém estiver preocupado em fazer o gol.

Depois de tantas descobertas, cheguei a uma conclusão: a direita e a esquerda são importantes na Geografia, no trânsito, na anatomia, na história e na política. Mas há algo ainda mais importante: saber de onde estamos olhando.

Talvez o grande problema dos nossos dias seja que muita gente está tão preocupada em defender uma das margens que já nem se interessa em compreender o rio.

E agora, se me dão licença, preciso encerrar esta crônica. Ainda tenho uma lanterna do carro da minha esposa para comprar e não lembro se é a direita ou a esquerda. Vou ter que sentar no carro no banco do motorista, segurar firme o volante e olhar para frente. 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

“Quem bate esquece; quem apanha, não.”

 


Existiam algumas frases emblemáticas que saíam da boca do meu pai, e essa era uma delas: “Quem bate esquece; quem apanha, não.” Quando ele falava isso, com certeza, o contexto o perturbara.

Entendo-o, pois a frase expressa uma ideia muito humana: para quem causa a dor, o episódio pode ser pequeno e passageiro; para quem a recebe, pode deixar uma marca por muito tempo. E não precisa se referir à agressão física. Vale para palavras, humilhações, injustiças, abandonos e atitudes aparentemente pequenas.

Acredito que essa frase também nos ensina que existem muitas maneiras de bater sem usar as mãos. Uma palavra dita no momento errado, uma brincadeira que humilha, um comentário feito diante de outras pessoas, um desprezo, uma ausência. Para quem fez, talvez não tenha significado quase nada. Para quem recebeu, pode ter significado muito.

Talvez por isso algumas pessoas se lembrem, décadas depois, de uma frase ouvida na infância, de uma vergonha passada na escola ou de uma injustiça sofrida no trabalho. Quem provocou aquilo provavelmente seguiu a vida e esqueceu. Quem sentiu a dor guardou até os detalhes.

Mas há um lado dessa frase que me inquieta ainda mais: somos muito bons em lembrar das vezes em que apanhamos e nem sempre tão bons em lembrar das vezes em que batemos. Pode ser que alguém carregue até hoje uma palavra que dissemos e da qual já nem nos lembramos.

Talvez meu pai soubesse disso.

Hoje, quando aquela velha frase me volta à memória, penso menos em quem me feriu e mais nas marcas que eu mesmo posso ter deixado pelo caminho.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

 A FÉ CABE NUMA SEMENTE

Ontem fui à igreja.

O pastor Coty que havia participado de uma conferência no Paraguai aproveitou a passagem por Foz do Iguaçu e veio pregar na DOXA. Abriu a Bíblia e falou sobre uma história que eu conheço há muitos anos: a parábola do semeador.

Semente.

Terra.

Pedra.

Espinhos.

Fruto.

Jesus tinha essa extraordinária capacidade de explicar o céu apontando para a terra.

Talvez porque o mundo natural tenha muito mais a nos ensinar sobre o espiritual do que imaginamos.

Uma das primeiras frases daquela noite me alcançou:

— Frutificação não é um ato de esforço.

Pensei nas árvores.

Nunca vi uma laranjeira fazendo força para produzir laranjas. Nunca vi uma videira angustiada tentando fabricar uvas. O galho não acorda pela manhã preocupado com sua produtividade. Ele simplesmente permanece ligado à árvore.

E, porque permanece, frutifica.

Talvez tenhamos complicado demais algumas coisas.

Queremos produzir frutos sem permanecer na árvore. Queremos fé sem relacionamento, transformação sem Palavra, respostas sem escuta.

Na parábola, o problema nunca esteve na semente.

A semente era boa.

O que mudava era a terra.

Algumas sementes foram roubadas. Outras nasceram depressa e morreram. Algumas foram sufocadas. Mas houve aquelas que encontraram boa terra e produziram fruto.

E foi então que outra coisa chamou minha atenção.

Mateus diz que a boa terra representa aquele que ouve e compreende.

Marcos fala daquele que ouve e recebe.

Lucas, daquele que ouve e conserva.

Compreender.

Receber.

Conservar.

Três verbos para uma vida inteira.

Talvez eu tenha passado muito tempo pensando que oração fosse principalmente falar. Naquela noite, porém, anotei uma frase que me incomodou de um jeito bom:

Oração tem muito mais a ver com audição do que com fala.

Fiquei pensando em quantas vezes cheguei diante de Deus carregando uma lista de assuntos e, depois de dizer tudo, levantei-me e fui embora.

Sem perguntar:

— E o Senhor? Quer me dizer alguma coisa?

A fé vem pelo ouvir.

Pedro não caminhou sobre a água simplesmente porque teve coragem de colocar o pé para fora do barco. Antes disso houve uma palavra:

— Vem.

Talvez ninguém caminhe verdadeiramente sobre as águas.

Caminhamos sobre uma Palavra.

O centurião também compreendeu isso quando disse a Jesus que não precisava ir até sua casa:

— Basta uma palavra.

Gente de fé aprende a se agarrar à Palavra.

Mas existe ainda o terceiro verbo: conservar.

E talvez seja esse o mais difícil.

Porque receber uma promessa é emocionante. Conservá-la enquanto nada acontece é outra história.

Queremos a promessa, mas Deus parece interessado também na pessoa em que nos transformaremos enquanto esperamos por ela.

Então me ocorreu uma pergunta:

O que vale mais: o prêmio ou a pessoa que precisei me tornar para alcançá-lo?

Talvez algumas promessas não tenham sido dadas apenas para nos informar onde chegaremos. Talvez tenham sido dadas para nos encorajar a atravessar o caminho.

É durante a caminhada que aprendemos perseverança.

É durante a espera que o caráter cresce.

É quando ainda não vemos que descobrimos em quem realmente confiamos.

Josué recebeu uma missão enorme, mas a orientação de Deus passava por algo aparentemente silencioso: meditar na Palavra dia e noite.

É preciso coragem para enfrentar gigantes.

Mas talvez também seja preciso coragem para fechar a porta, silenciar o mundo e permanecer diante de Deus.

Vida devocional também é coragem.

Saí da igreja pensando naquela pequena semente.

Ela não faz barulho.

Não anuncia o que está acontecendo debaixo da terra.

Durante algum tempo, quem olha de fora pode até pensar que nada está acontecendo.

Mas está.

A casca se rompe.

A raiz procura profundidade.

Depois surge um pequeno sinal verde sobre a terra.

E um dia aquilo que cabia na palma da mão oferece sombra, abrigo e fruto.

Talvez a fé seja assim.

Não necessariamente compreender tudo o que Deus está fazendo, mas conhecer suficientemente o caráter de quem lançou a semente.

Ouvir.

Compreender.

Receber.

Conservar.

E permanecer ligado à Árvore.

Porque fruto não se fabrica.

Fruto nasce de relacionamento.


Observação: Fiz anotações da palavra, organizei em forma de texto, essa é a minha interpretação, acredito que o pastor transmitiu muito mais que isso na manhã do domingo.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Piá de rua X Piá de prédio

Eu fui piá de rua.

Não desses que dizem que brincavam na rua porque, vez ou outra, chutaram uma bola na calçada. Fui piá de rua com endereço, território e jurisdição: Conjunto Libra, Rua Piraí.

A Rua Piraí era nossa, a Rua Iapó era nossa, mas nosso território comum era a Rua Mané Garrincha, que na época nem tinha esse nome, pois ainda não ligava os bairros como hoje. Ela era uma rua provisória para prefeitura, mas era nossa orficialmente. 

Ou pelo menos era isso que pensávamos.

Naquele tempo, ela não tinha o movimento que tem hoje. Dava para esticar uma rede de vôlei de um lado ao outro e, se a brincadeira fosse futebol, colocávamos os golzinhos no asfalto e pronto: estava inaugurado o estádio.

Carro?

De vez em quando aparecia um.

Alguém gritava:

— Ó o carro!

Arrastávamos o gol, esperávamos o cidadão passar e, imediatamente, retomávamos a posse do patrimônio público.

A prefeitura provavelmente nunca soube, mas havia concedido aquela rua para nós.

E havia moradores em todos os setores do nosso pequeno país.

Eu morava na Piraí. A Cíntia também, mas lá na última quadra. Júnior, Vinícius, Gabriela e Marcos moravam na rua de trás.

Marcos?

Bem, nós só descobrimos que ele se chamava Marcos depois de adultos.

Para nós, ele sempre foi o Índio.

Aliás, infância de bairro tinha dessas coisas. Você podia conviver dez anos com uma pessoa sem ter a menor ideia do nome que constava na certidão de nascimento dela.

Na avenida moravam Marli e a irmã. Tinha o Fabinho, o Etelvino e, evidentemente, o icônico Magvaldo.

Magvaldo não cabe nesta crônica.

Merece uma só para ele.

E havia ainda outros que apareciam, desapareciam, voltavam no dia seguinte e ninguém perguntava onde tinham ido. Criança não precisava confirmar presença. Bastava chegar.

Nossa comunicação também era bastante sofisticada.

A gente parava diante da casa e gritava:

— ÔÔÔÔ, FULANO!

Se não funcionasse, gritava mais alto.

Se a mãe aparecesse na janela dizendo:

— Ele tá de castigo!

Pronto.

Era o equivalente analógico de visualizar a mensagem e não poder responder.

Mas faltou alguém.

E eu sei que ele reclamaria se ficasse de fora.

Eder.

Meu primo.

Tecnicamente, Eder era um piá de prédio.

Mas ninguém é perfeito.

Ele morava em apartamento, conhecia elevador, interfone e essas modernidades todas. Só que, nos finais de semana, fazia sua migração particular para o Conjunto Libra.

E escolhia a rua.

Talvez porque tivesse descoberto uma coisa que nós, moradores do Conjunto Libra, nem percebíamos: aquelas ruas oferecia uma liberdade que não cabia entre quatro paredes.

No Libra, Eder deixava de ser piá de prédio.

Virava um dos nossos.

Jogava bola, vôlei, corria, inventava, brigava, fazia as pazes e participava daquele maravilhoso sistema educacional sem reconhecimento do MEC chamado rua.

A rua ensinava muita coisa.

Ensinava a dividir times.

Ensinava que o dono da bola tinha certos privilégios políticos.

Ensinava que “a bola é minha e eu vou embora” era uma poderosa ferramenta de negociação.

Ensinava medicina. Quantos "tampos" de dedão tivemos que colar de forma improvisada, quantos ralados, esfolados... O caso da porta da Brasília do pai do Vinícius que abriu, bem no momento da curva, não cabe aqui ainda, será conversa para outras crônicas. Acho que o leitor vai ficar curioso, mas não dá para contar agora.

Ensinava que uma discussão de quinze minutos sobre se a bola entrou ou não podia terminar imediatamente quando alguma mãe aparecia no portão:

— CHEGA! TODO MUNDO PRA CASA!

E todo mundo ia.

Porque existiam autoridades superiores ao dono da bola.

Hoje passo pela Mané Garrincha e quase não reconheço nosso antigo estádio.

A rua se tornou uma das mais movimentadas do bairro. Imagino o que aconteceria se alguém resolvesse esticar uma rede de vôlei de uma calçada à outra.

Provavelmente apareceria no grupo de WhatsApp do bairro antes mesmo do primeiro saque, ou da primeira bola furada, o que não era incomum acontecer, pois a cerca viva de espinhos era um rival difícil de vencer. 

Talvez seja essa uma das diferenças entre o piá de rua e o piá de prédio.

Nós tínhamos menos estrutura e mais território.


sábado, 5 de setembro de 2026

21ª Feira Internacional do Livro de Foz do Iguaçu - Praça da Paz, no coração de Foz do Iguaçu, transformou-se em uma grande página de livro.

 📚✨ FOZ VOLTOU A RESPIRAR LITERATURA!

Por Emerson Fulgencio. 

A 21ª Feira Internacional do Livro de Foz do Iguaçu está simplesmente encantadora. Um cenário que parece ter saído das páginas de um conto de fadas.

E talvez seja justamente disso que a cidade estivesse com saudade: de encontrar-se novamente entre livros, histórias, música, arte e gente.

Nestes dias, a Praça da Paz, no coração de Foz do Iguaçu, transformou-se em uma grande página de livro. E por ela passam crianças de olhos curiosos, jovens descobrindo novas histórias, adultos reencontrando o prazer da leitura e famílias inteiras vivendo juntas a cultura.

É bonito caminhar pela Feira e perceber a atmosfera contagiante. Livros por todos os lados, conversas, encontros, música, apresentações artísticas e, especialmente, o talento dos nossos escritores e artistas locais ganhando espaço e encontrando seus leitores.

Há crianças sentadas folheando livros. Há gente parando para ouvir música. Há escritores autografando suas obras. Há encontros inesperados e histórias sendo compartilhadas.

E talvez uma Feira do Livro seja exatamente isso: um lugar onde a cidade se encontra consigo mesma por meio da cultura.

Foz do Iguaçu tem muitos cartões-postais conhecidos pelo mundo inteiro. Nestes dias, porém, há outro cartão-postal que merece ser contemplado:

uma praça cheia de livros, arte, crianças, famílias e histórias.

Que cena bonita!

Que atmosfera!

Que saudade a gente estava disso.

📖❤️ A Praça da Paz virou uma página de livro. E Foz do Iguaçu está escrevendo uma história linda nela.





















quinta-feira, 3 de setembro de 2026

21ª FEIRA INTERNACIONAL DO LIVRO DE FOZ DO IGUAÇU! 2026


 📚✨ COMEÇOU A 21ª FEIRA INTERNACIONAL DO LIVRO DE FOZ DO IGUAÇU!

E adivinha quem vai estar por lá? 👀🌿
O Mitá Arandu!

Durante todos os dias da Feira, o Mitá vai passear, conhecer livros, encontrar histórias, descobrir curiosidades e trazer muita coisa legal para compartilhar por aqui. 📖💛

📅 3 a 6 de setembro de 2026
⏰ 9h às 22h
📍 Praça da Paz — Foz do Iguaçu

E o Mitá já avisou:

“Vou visitar todos os dias e trazer muitas dicas pra você!” 😄

Porque livro não é só para ler.
Livro é para descobrir mundos! 🌎📚

#MitáArandu #FeiraDoLivro #FeiraDoLivroFoz #FozDoIguaçu #Literatura #Leitura #Livros #Cultura #NossaFoz #LerTransforma


PROGRAMAÇÃO COMPLETA: https://www.foz.pr.gov.br/21a-feira-internacional-do-livro-de-foz-do-iguacu-comeca-nesta-quinta-feira-03/

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Nino e Lola



No início eram apenas dois cães, Nino e Lola. Juarez ia todos os dias visitar o canil. Quando chegava, era uma festa: rabos abanando, pulos e lambidas.

No meio do quintal havia uma grande árvore. Juarez fez apenas uma recomendação:

— Podem brincar onde quiserem, mas não cavem debaixo daquela árvore.

Nino e Lola nunca tinham pensado em cavar ali. Mas, depois da proibição, começaram a olhar para aquele lugar com curiosidade.

Até que apareceu uma gatinha.

— Por que vocês não podem cavar aí?

— Juarez não deixou — respondeu Lola.

— Talvez ele tenha enterrado um osso...

Lola olhou para Nino. Nino olhou para Lola.

Um osso?

Lola deu a primeira patada. Nino,  a segunda. Em poucos minutos, havia terra para todos os lados.

Então ouviram os passos de Juarez.

Pela primeira vez, em vez de correrem para recebê-lo, esconderam-se.

— Nino, onde você está?

NIno apareceu com a cabeça baixa e o focinho sujo de terra.

— Foi a Lola!

— Ah, claro! — reclamou ela. — E quem ajudou a cavar?

Juarez aproximou-se do buraco e explicou:

— Eu não proibi vocês porque havia alguma coisa escondida aqui. Do outro lado desta cerca passa uma estrada. Eu estava protegendo vocês.

Os dois abaixaram as orelhas.

Talvez tenha sido naquele dia que os cães aprenderam algo que os humanos também demorariam muito para entender: nem todo limite existe para nos impedir de viver. Alguns existem justamente para preservar a vida.

E dizem que foi assim que os cachorros herdaram de Nino e Lola duas características que carregam até hoje: quando fazem alguma coisa errada, sabem perfeitamente que fizeram...

E, mesmo tendo casa, comida, carinho e uma caminha confortável, basta alguém deixar o portão aberto para quererem descobrir o que existe do outro lado.



quarta-feira, 26 de agosto de 2026

“NÃO TENHO TEMPO PARA LER...”


 📱📚 CHARGE #009 | “NÃO TENHO TEMPO PARA LER...”

Quantas vezes a gente já ouviu — ou falou — essa frase?

— Eu até queria ler, mas não tenho tempo...

Aí o Mitá fez uma pergunta simples:

📱 “Quanto tempo de celular hoje?”

😳 6 horas e 47 minutos!

E o Teko matou a charada:

😂 “Acho que o tempo estava escondido no celular...”

A verdade é que, muitas vezes, não precisamos encontrar mais tempo. Precisamos apenas perceber onde estamos colocando o tempo que já temos.

Não é preciso abandonar o celular nem começar lendo um livro inteiro por dia. Que tal trocar 20 minutinhos de tela por 20 minutos de leitura?

Em uma semana, são mais de duas horas de histórias, conhecimento e descobertas. 🌱📖

Como diria o Mitá:

“Às vezes não falta tempo. Falta escolher onde colocá-lo.”

📚 LER TRANSFORMA!
Menos tempo de tela. Mais tempo de história.

E aí, coragem para conferir seu tempo de tela hoje? 😂👇

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A FORÇA DA MULHER - 10 escritoras contemporâneas. 10 histórias. 10 dias de literatura.

Especial Outubro Rosa | Mitá Arandu As protagonistas serão Conceição Evaristo, Carla Madeira, Ana Maria Gonçalves, Aline Bei, Djamila Ribeir...