Gosto dessa história. Me faz bem contá-la.
Eu nasci em Umuarama, mas hoje sou mais iguaçuense que muitos que nasceram aqui, na terra das Cataratas. Viemos para Foz do Iguaçu em 1984.
Em Umuarama, meu pai era administrador de uma empresa pertencente a um tio dele. Minha mãe era costureira. A família havia crescido há dois anos com o nascimento do meu irmão mais novo, o Erick, e meu pai estava naquela fase da vida em que precisava ganhar mais dinheiro. Então comprou um caminhão.
Foi a pior escolha aos olhos humanos. Porém, se não tivesse feito isso, talvez não teríamos mudado para Foz.
O caminhão tinha tudo para ser um grande negócio, porém o motorista contratado não pensou que poderia estar prejudicando uma família e simplesmente sumiu com o veículo. Depois de alguns dias, meu pai o localizou no Mato Grosso e, em um ato de muita coragem, foi buscá-lo. Voltou dirigindo-o.
O sistema de caixa seca do caminhão FNM (Fenemê) possui oito marchas à frente e duas à ré. A configuração clássica utiliza uma combinação de alavancas — uma principal de quatro marchas e uma caixa de redução — que, quando combinadas, exigem habilidade e técnica do motorista.
Então imagine. Admirável.
O que sobrou do caminhão foram dívidas e um fusquinha azul-celeste. Ouvi muitas vezes que era azul "calcinha"; não gostava muito disso. Só lembro que, para completar o caos, em um dos passeios com o tal Fusca, a parte de baixo do banco traseiro estava sem proteção e a estrutura metálica encostou na bateria, fechando curto.
Resultado: pegou fogo. Não queimou o Fusca. Proteção de Deus, sem dúvidas.
Enfim, o Fusca foi vendido, mais dívidas saudadas e uma vida para começar do zero, com três filhos, esposa e uma tia que morava conosco havia alguns anos.
E foi nesse cenário que nasceu a oportunidade de vir para Foz.
Aqui em Foz já moravam meu tio Irineu e minha tia Lia. Eles haviam chegado à cidade em 1978, ano em que abriram o Conservatório Musical Beethoven.
Antes de mudar para cá, nós já havíamos vindo passar férias. As duas famílias sempre foram muito unidas. Viajávamos juntos, estávamos sempre um na casa do outro, apesar da distância. Então o momento chegou.
O tio Irineu ficou sabendo que havia um hotel para ser arrendado ao lado da casa onde moravam, na Avenida Brasil, no coração da cidade. Mais que depressa, comunicou meu pai. E tudo foi tão rápido que não há como duvidar que Deus age em tudo nas nossas vidas. Negócio feito. Vamos morar em Foz do Iguaçu.
Quando conto que meu pai comprou um Opala bordô com teto de vinil, fiado, colocou a família toda dentro e veio parar em Foz, depois vendeu o Opala e mandou o dinheiro para pagar o dono, ninguém acredita. Mas as coisas aconteceram cada uma à sua maneira, nas formas mais curiosas possíveis. Enfim, estávamos em Foz. Março de 1984.
Agora meu pai era proprietário de um hotel em Foz do Iguaçu: o Hotel Junior's, na Avenida Brasil, em frente à Rua Rio Branco. Os vizinhos? Nossos tios e primos. Agora apenas um muro nos separava, e nós conseguíamos pulá-lo com frequência.
Sem saber, naquele março de 1984, não estávamos apenas mudando de cidade. Estávamos chegando ao lugar que, anos depois, eu aprenderia a chamar de lar.
Hoje já são mais de 40 anos de Foz.
Os dois primeiros anos foram no hotel. Depois, o proprietário do imóvel solicitou a devolução. O negócio estava indo muito bem, porém teve que ser interrompido.
A família toda trabalhou muito e de forma unida nesse primeiro desafio. Foram dois anos inesquecíveis.
Primeiro porque o tempo novo nascia com tudo acontecendo da melhor maneira possível. E nós, os filhos, agora estávamos vivendo nosso primeiro desafio de ajudar pai e mãe nos negócios.
Eu já tinha horário para ficar na recepção. Minha tia ajudava no café e na organização dos quartos. Todo mundo trabalhando.
Em 1984, Foz do Iguaçu possuía aproximadamente entre 135 e 150 mil habitantes. O ciclo econômico da década de 1980 foi marcado pela transição do auge da construção da Usina de Itaipu para a consolidação da economia de fronteira, baseada fortemente no turismo e no comércio internacional.
Em outras palavras, vivíamos aquele momento em que ônibus e mais ônibus de muambeiros — ou sacoleiros, como eram chamados — vinham para cá para levar mercadorias para outros estados.
Algo bem curioso acontecia no nosso hotel naquela época: ganhávamos mais dinheiro vendendo banhos do que hospedando pessoas.
Os ônibus dos sacoleiros paravam no hotel para organizar as mercadorias, tomar banho, comer, beber muita cerveja e partir no momento em que acreditavam que os postos de fiscalização não estivessem em operação.
Era um momento histórico para a cidade. Foz estava se reinventando, pois sofrera, nessa mesma época, com a demissão em massa dos trabalhadores de Itaipu.
Depois de viver o ciclo da exploração da madeira e da erva-mate, o ciclo da construção de Itaipu, agora Foz viveria o ciclo do turismo de compras.
Depois da fase do Hotel Junior's, meu pai adquiriu um novo empreendimento: um minimercado, ou, como ficou conhecido, Mercado Lima.
Creio que o Mercado Lima também participou ativamente do desnvolvimento de Foz. Estava localizado na Rua Jorge Sanwais, próximo ao Colégio Monsenhor Guilheme, da baixada, próximo ao rio. Essa última referência não é por acaso. Ali bem próximo ao mercadinho ficava o local em que embarcações atravessavam para o lado paraguaio levando mercadorias brasileiras para o abastecimento do comercio do país vizinho. Ilegal, porém o ganha pão de muitos ali da região e do lado de lá também.
O comércio do pai chegou a vender 1500 litros de leite no dia. 200 bojões de gás. 1000 kg de farinha de trigo. No final da tarde, além das vendas realizadas, ganhávamos dinheiro com os “chapas” que vinham gastar o “faz-me rir”.
Na época a Vila Portes abria seus primeiro comércios e nós éramos já referência em exportação.
Tinhamos açougue, padaria, secos e molhados, armarinhos em geral. Ainda não existia essa palavra, mas éramos um ATACAREJO aos modos 1980. O comércio não era grande, mas o giro de mercadorias era imenso.
Estamos falando aqui dos nossos primeiros cinco anos em Foz do Iguaçu. Nesse período, a cidade crescia, a fronteira fervilhava de oportunidades e nossa família crescia junto com ela.
Agora eu já estava no ensino médio. Aos poucos, deixava de ser apenas o menino que havia chegado de Umuarama para me tornar um jovem iguaçuense. Entre os corredores do Mercado Lima, as ruas de terra que aos poucos ganhavam asfalto, os amigos da escola e o movimento constante da fronteira, eu começava a entender que Foz do Iguaçu já não era apenas a cidade para onde havíamos nos mudado.
Era a cidade que estava me formando.
Sem perceber, enquanto meu pai construía um negócio e ajudava a abastecer uma cidade em transformação, eu também construía minhas próprias raízes. E aquelas raízes já estavam profundas demais para serem arrancadas.
Foz do Iguaçu havia deixado de ser destino. Estava se transformando em minha vida.












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