Herdei histórias antes mesmo de herdar o sobrenome.Algumas vieram em forma de conselho, outras em silêncio. Mas há aquelas que chegam como um sussurro atravessando gerações difíceis de explicar, mais ainda de ignorar. Foi assim quando, já adulto, descobri fragmentos do passado da minha avó paterna. Diziam que ela transitava entre práticas que misturavam o bem e o mal, como quem acende uma vela sem saber exatamente a quem ilumina. Diziam também que quatro vidas foram interrompidas antes do tempo, restando apenas meu pai e meu tio, sobreviventes de uma história que nunca foi contada por inteiro, apenas sentida.
E foi aí que uma pergunta começou a me rondar: o que, de fato, herdamos?
No cristianismo, aprendi que “maldição” não é uma palavra mágica lançada ao vento, mas um estado: o afastamento do sagrado. Não é apenas algo que recai, é algo que se constrói, muitas vezes sem perceber, em escolhas repetidas, em práticas naturalizadas, em caminhos trilhados sem questionamento. E, sim, há quem diga que certas inclinações atravessam gerações como rios subterrâneos, irrigando comportamentos, decisões, destinos.
Mas também aprendi outra coisa, talvez mais poderosa: só se quebra aquilo que se conhece.
E isso muda tudo.
Porque buscar respostas em adivinhações, em tentativas desesperadas de decifrar o invisível, pode ser apenas mais uma forma de se perder talvez até de inaugurar uma nova corrente daquilo que se quer evitar. É como tentar apagar um incêndio com gasolina: o problema não é só não resolver, é piorar.
Então comecei a olhar para algo mais simples e mais difícil: minhas próprias obras.
Não as grandes, não as que impressionam os outros, mas aquelas pequenas, cotidianas, quase invisíveis. Como trato as pessoas. Como ajo quando ninguém está vendo. Como respondo àquilo que me feriu. Porque, no fim, somos conhecidos por nossas obras. E são elas que, silenciosamente, nos tornam benditos ou malditos.
Talvez minha avó tenha carregado suas próprias sombras. Talvez tenha sido, de alguma forma, “maldita entre as mulheres”, não como sentença eterna, mas como consequência de escolhas desconectadas do sagrado. Mas essa história não termina nela. Nem precisa continuar da mesma forma.
Porque existe uma outra possibilidade, a de interromper a corrente.
E eu gosto de pensar que minha família, apesar de tudo, carrega mais elos de luz do que de escuridão. Que há mais gestos de amor do que de ruptura. Mais tentativas de acertar do que erros repetidos. Talvez a verdadeira herança não esteja no que fizeram antes de mim, mas no que eu escolho fazer agora.
No fim das contas, no livro de Provérbios 26:2 ainda ecoa com uma simplicidade desconcertante:
“Como o pássaro no seu vaguear e como a andorinha no seu voar, assim a maldição sem motivo não encontra pouso.”
E isso me dá esperança.
Porque, se não houver motivo, ela não fica.
E se não fica, alguém, em algum momento, decidiu não dar mais abrigo
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