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Questão cobrada no PSS do Paraná, realizado no domingo (18), chama a atenção para a presença feminina na produção literária brasileira dos últimos 20 anos. Conheça algumas das autoras e obras que ajudam a compreender esse cenário.
Por Emerson Fulgencio de Lima | Mitá Arandu — 19 de outubro de 2026 - Uso de IA para pesquisas e organização textual.
Quem participou do Processo Seletivo Simplificado (PSS) para professores do Paraná, realizado no último domingo, 18 de outubro, encontrou, entre os conteúdos de Língua Portuguesa, uma questão relacionada à literatura brasileira contemporânea. O enunciado solicitava identificar a alternativa que apresentava exclusivamente escritoras pertencentes à produção literária das últimas duas décadas.
Mais do que uma questão de concurso, o assunto oferece uma excelente oportunidade para conhecer algumas das mulheres que vêm renovando a literatura brasileira.
Durante muito tempo, o ensino da literatura privilegiou nomes consagrados, como Machado de Assis, José de Alencar, Carlos Drummond de Andrade e Graciliano Ramos. Entre as mulheres, destacavam-se principalmente Cecília Meireles, Clarice Lispector e Rachel de Queiroz.
Entretanto, a literatura não parou no século XX. Novas escritoras conquistaram leitores, prêmios e reconhecimento, trazendo outras perspectivas para temas como identidade, desigualdade social, relações familiares, racismo, memória, violência e condição feminina.
Conheça dez escritoras fundamentais para compreender parte da produção literária brasileira do século XXI.
1. Conceição Evaristo — A literatura como memória e resistência
Uma das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea, Conceição Evaristo nasceu em Belo Horizonte, em 1946. Sua produção é marcada pelas experiências da população negra, especialmente das mulheres.
A escritora desenvolveu o conceito de escrevivência, que relaciona a criação literária às experiências vividas, à memória individual e coletiva e às histórias de grupos frequentemente silenciados.
Obras para conhecer:
Ponciá Vicêncio (2003): romance que acompanha a trajetória de uma mulher negra em busca de sua identidade, abordando ancestralidade, deslocamento e desigualdade.
Becos da memória (2006): narrativa construída a partir das experiências de moradores de uma comunidade ameaçada de remoção.
Olhos d'água (2014): coletânea de contos que apresenta histórias atravessadas pela pobreza, pelo racismo, pelo afeto e pela resistência.
Sua literatura demonstra que contar histórias também é uma maneira de preservar memórias e questionar injustiças.
2. Carla Madeira — Os sentimentos humanos em profundidade
Nascida em Belo Horizonte, Carla Madeira tornou-se um fenômeno editorial, conquistando leitores com romances intensos, personagens complexos e uma linguagem sensível.
Suas histórias exploram o amor, a culpa, a violência, o perdão e as consequências das escolhas humanas.
Obras para conhecer:
Tudo é rio (2014): romance sobre um casal marcado por uma tragédia, no qual amor, ciúme, sofrimento e perdão se entrelaçam.
A natureza da mordida (2018): narrativa sobre encontros, lembranças, perdas e as marcas deixadas pelas relações humanas.
Véspera (2021): romance que investiga as relações familiares, os conflitos entre irmãos e os efeitos de acontecimentos aparentemente irreversíveis.
Carla Madeira representa uma literatura que encontra nos dramas cotidianos matéria para grandes reflexões.
3. Ana Maria Gonçalves — A história brasileira contada por outras vozes
Ana Maria Gonçalves ganhou destaque com um dos romances históricos mais importantes publicados no Brasil neste século.
Sua escrita recupera experiências da população negra e revisita acontecimentos históricos a partir de perspectivas pouco contempladas pelas narrativas tradicionais.
Obras para conhecer:
Ao lado e à margem do que sentes por mim (2002): seu romance de estreia.
Um defeito de cor (2006): extensa narrativa sobre Kehinde, uma mulher africana que enfrenta a escravidão e constrói sua trajetória entre a África e o Brasil.
Um defeito de cor tornou-se referência para os estudos sobre escravidão, identidade, ancestralidade e resistência negra.
É uma obra que convida o leitor a revisitar a história do Brasil por meio de uma perspectiva feminina e negra.
4. Aline Bei — Quando a prosa encontra a poesia
Aline Bei é uma das representantes de uma geração que experimenta novas possibilidades de linguagem literária.
Sua escrita apresenta características poéticas, com frases distribuídas de maneira particular pelas páginas, explorando pausas, silêncios e emoções.
Obras para conhecer:
O peso do pássaro morto (2017): romance que acompanha diferentes momentos da vida de uma mulher, abordando perdas, traumas, amadurecimento e solidão.
A pequena coreografia do adeus (2021): narrativa sobre uma jovem que enfrenta conflitos familiares e procura construir sua própria identidade.
A autora demonstra que a literatura contemporânea também se caracteriza pela experimentação formal, rompendo com estruturas narrativas convencionais.
5. Djamila Ribeiro — Literatura, filosofia e pensamento crítico
Filósofa e escritora, Djamila Ribeiro ocupa posição de destaque no debate intelectual brasileiro contemporâneo.
Sua produção está especialmente relacionada à filosofia, ao feminismo negro, ao racismo estrutural e às desigualdades sociais.
Obras para conhecer:
O que é lugar de fala? (2017): reflexão sobre as posições sociais a partir das quais as pessoas participam dos debates públicos.
Quem tem medo do feminismo negro? (2018): reunião de textos sobre racismo, feminismo e questões sociais.
Pequeno manual antirracista (2019): obra que apresenta reflexões e propostas práticas para o enfrentamento do racismo.
Embora sua produção esteja mais próxima do ensaio filosófico e social do que da ficção literária, Djamila integra o importante conjunto de autoras brasileiras contemporâneas.
6. Ana Paula Maia — A literatura dos personagens invisíveis
Ana Paula Maia construiu uma produção literária marcada por ambientes difíceis, violência, trabalho e personagens frequentemente esquecidos pela sociedade.
Sua ficção apresenta uma linguagem direta e situações que revelam aspectos sombrios da condição humana.
Obras para conhecer:
Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos (2009): narrativas centradas em trabalhadores que convivem com a brutalidade e a marginalização.
Assim na terra como embaixo da terra (2017): romance ambientado em uma colônia penal, explorando violência, poder e desumanização.
De cada quinhentos uma alma (2021): narrativa que combina isolamento, morte e sobrevivência em um cenário de devastação.
A escritora dá protagonismo a pessoas e profissões que raramente ocupam o centro das narrativas literárias.
7. Socorro Acioli — O fantástico e a cultura popular brasileira
Nascida no Ceará, Socorro Acioli desenvolve uma literatura marcada pela oralidade, pela cultura nordestina e pela presença de elementos fantásticos.
Suas narrativas aproximam o cotidiano de acontecimentos extraordinários, explorando crenças, tradições e histórias populares.
Obras para conhecer:
A cabeça do santo (2014): romance sobre um jovem que descobre a capacidade de ouvir as orações das mulheres dirigidas a uma imagem de santo.
Oração para desaparecer (2023): narrativa que mistura memória, identidade, mistério e elementos fantásticos.
Sua produção mostra como as tradições populares continuam sendo uma fonte importante de renovação da literatura brasileira.
8. Giovana Madalosso — A vida urbana e suas contradições
Giovana Madalosso destaca-se pela construção de personagens contemporâneos, especialmente mulheres que enfrentam conflitos relacionados à maternidade, ao trabalho, às relações afetivas e à vida nas grandes cidades.
Sua literatura apresenta humor, crítica social e observações sobre as contradições do cotidiano.
Obras para conhecer:
Tudo pode ser roubado (2018): romance protagonizado por uma mulher que trabalha em um restaurante e se envolve em situações relacionadas ao desejo, ao consumo e às relações de poder.
Suíte Tóquio (2020): narrativa que explora maternidade, trabalho doméstico, desigualdade e relações entre mulheres de diferentes classes sociais.
A autora apresenta personagens que questionam expectativas sociais e os papéis tradicionalmente atribuídos às mulheres.
9. Jarid Arraes — A força do cordel e das mulheres negras
Jarid Arraes nasceu em Juazeiro do Norte, no Ceará, e tornou-se conhecida pela valorização da literatura de cordel e pela recuperação de histórias de mulheres negras.
Sua produção aproxima tradição popular, memória histórica e debates contemporâneos.
Obras para conhecer:
Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis (2017): apresenta trajetórias de mulheres negras importantes para a história brasileira, utilizando a linguagem tradicional do cordel.
Redemoinho em dia quente (2019): coletânea de contos que aborda experiências femininas, conflitos sociais e o cotidiano nordestino.
Corpo desfeito (2022): romance que trata de violência, relações familiares e possibilidades de reconstrução pessoal.
Jarid demonstra que a literatura popular e as formas tradicionais de expressão continuam vivas e relevantes.
10. Micheliny Verunschk — História, imaginação e ancestralidade
Micheliny Verunschk, escritora pernambucana, destaca-se pela combinação de pesquisa histórica, linguagem poética e narrativas que questionam versões oficiais da história.
Sua produção frequentemente aborda memória, colonialismo, violência e relações entre seres humanos e natureza.
Obras para conhecer:
Nossa Teresa: vida e morte de uma santa suicida (2014): romance que explora religiosidade, sofrimento e construção de narrativas.
O som do rugido da onça (2021): romance inspirado na história de duas crianças indígenas levadas do Brasil para a Europa no século XIX.
Caminhando com os mortos (2023): narrativa que aborda conflitos envolvendo religiosidade, intolerância e violência.
A autora utiliza a ficção para questionar apagamentos históricos e recuperar experiências frequentemente esquecidas.
Afinal, o que caracteriza a literatura brasileira dos últimos 20 anos?
Não existe uma única escola literária que reúna toda a produção brasileira contemporânea. Ao contrário, uma de suas características mais evidentes é justamente a diversidade.
Entre as tendências observadas nas obras dessas escritoras estão a valorização das memórias individuais e coletivas, o protagonismo feminino, a discussão das desigualdades sociais, a presença das identidades negras e indígenas, a experimentação da linguagem e a representação dos conflitos da vida urbana.
Outra característica importante é a multiplicidade de gêneros: romances, contos, cordéis, ensaios e narrativas que aproximam prosa e poesia.
Essas escritoras não formam um movimento literário único. Entretanto, suas obras ajudam a compreender como a literatura brasileira vem ampliando suas perspectivas e seus modos de representar a sociedade.
O que a questão do PSS nos ensina?
A presença da literatura contemporânea em uma prova destinada à seleção de professores é um lembrete importante: ensinar literatura não significa apenas estudar o passado, mas também compreender o que está sendo produzido no presente.
Conhecer os clássicos continua sendo indispensável. Machado de Assis, Clarice Lispector, Cecília Meireles e tantos outros autores permanecem fundamentais para a formação dos leitores.
Entretanto, o professor de Língua Portuguesa precisa acompanhar também as novas produções, reconhecer diferentes manifestações literárias e apresentar aos estudantes autores que dialogam com os problemas, as experiências e as inquietações de nosso tempo.
A literatura brasileira continua sendo escrita, publicada, discutida e reinventada.
E muitas das vozes que estão construindo essa história pertencem às mulheres.
Afinal, estudar literatura é também aprender a reconhecer o nosso tempo nas palavras de quem o escreve.
Mitá Arandu — Cultura, educação, memória e literatura.