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Dizem que tempo é dinheiro. Talvez seja por isso que tanta gente anda pobre de vida.
Passamos boa parte da existência vendendo horas. Oito por dia, quarenta e quatro por semana, milhares por ano. Em troca, recebemos um salário que, não raramente, termina antes do mês. Quando sobra tempo, arrumamos outro trabalho. Quando sobra dinheiro, falta tempo para gastá-lo. E, quando finalmente conseguimos os dois, às vezes já nos faltam disposição, saúde ou vontade.
O curioso é que ninguém parece perceber o tamanho do negócio que está fazendo. Vendemos algo que não podemos fabricar, guardar, emprestar ou recuperar. E o pior: não sabemos quanto ainda temos em estoque.
Mas não é apenas no trabalho que o tempo desaparece. Há quem passe três horas deslizando o dedo pela tela do celular e não consiga dedicar quinze minutos à leitura de um livro. Gente que conhece a rotina de desconhecidos nas redes sociais, mas ignora o que acontece dentro da própria casa. Pais que acompanham cada lance de uma partida de futebol, mas não percebem que os filhos cresceram. Casais que dividem a cama, a conta de luz e a senha do Wi-Fi, mas já não dividem uma boa conversa.
O tempo está lá. O que anda faltando é perceber para onde ele vai.
Certa vez, durante um curso, ouvi uma história que nunca mais esqueci. Funcionários de uma empresa estranhavam o comportamento do diretor. Frequentemente, ao passarem diante de sua sala, encontravam-no sentado, com os cotovelos apoiados sobre a mesa, a cabeça entre as mãos e os olhos fechados. Ficava assim durante longos períodos.
Naturalmente, começaram a desconfiar. Afinal, numa sociedade que confunde movimento com produtividade, um homem parado só pode estar dormindo ou ganhando dinheiro demais.
Até que alguém resolveu perguntar o que ele fazia.
— Estou pensando. Prefiro pensar sobre um problema estando fora dele. Primeiro penso para resolver, depois me preparo para executar.
A resposta era simples. E desconcertante.
Estamos tão acostumados a fazer alguma coisa que desaprendemos a importância de não fazer nada. Ou melhor, de fazer aquilo que não produz barulho, não acende uma tela, não gera relatórios e não rende curtidas: pensar.
Hoje, o silêncio parece um defeito que precisa ser corrigido imediatamente com alguma notificação.
Sou diretor de uma instituição que oferece educação para jovens e adultos. Convivo diariamente com histórias de pessoas que, por diferentes razões, interromperam os estudos. Algumas tiveram que trabalhar quando deveriam estar na escola. Outras se casaram, tiveram filhos, assumiram responsabilidades antes mesmo de compreender o significado da palavra responsabilidade. Algumas se perderam nas drogas, uma diversão cara. Outras se perderam em coisas aparentemente mais baratas, mas que também lhes custaram anos de vida.
Nem todas escolheram abandonar a escola. Muitas foram obrigadas pelas circunstâncias. A vida, às vezes, cobra mensalidades que ninguém consegue pagar.
Recentemente, conversei com um homem de cinquenta anos que relutava em fazer sua matrícula.
— Não tenho tempo para vir à escola — disse ele.
Perguntei sobre seu trabalho, seus compromissos, sua rotina. Era um daqueles homens que parecem carregar o mundo nas costas e ainda pedem desculpas por não conseguirem carregar mais.
Então fiz uma pergunta:
— Quando você vai ter tempo para você?
Ele me olhou sem responder.
Insisti:
— O que você faz que é realmente para você? Já percebeu que passa boa parte da vida trocando suas horas por um salário para conseguir continuar vivendo? E quando é que você vive?
Seu semblante mudou.
Depois de alguns instantes, respondeu:
— Sabe que eu gostava tanto de jogar sinuca? Faz anos que não jogo.
Aquilo me chamou a atenção. Não era uma viagem internacional, um carro novo ou uma casa na praia. Era uma mesa de sinuca. Algumas bolas coloridas, um taco e talvez uma conversa entre amigos.
A vida que ele sentia falta cabia numa mesa de feltro verde.
Disse-lhe:
— Faz tempo que você não faz nada para você ou por você com o tempo que deveria ser seu.
Fiquei pensando naquela conversa. Quantas pessoas não abandonaram também suas mesas de sinuca? Quantos violões estão esquecidos nos armários? Quantos livros permanecem fechados nas estantes? Quantas visitas aos pais foram adiadas para um domingo que nunca chegou? Quantas crianças ouviram um "agora não" de adultos que estavam ocupados demais para perceber que a infância não espera?
Há quem guarde a melhor louça para uma visita especial e nunca a utilize. Quem compre roupas para uma ocasião importante que não chega. Quem diga que vai aprender a tocar piano quando se aposentar. Quem prometa conhecer o mar depois de pagar todas as contas.
Como se a vida fosse uma sala de espera.
Não se trata, evidentemente, de condenar o trabalho. Trabalhar é necessário, digno e, para muitos, uma questão de sobrevivência. Nem todos dispõem do privilégio de escolher como utilizar suas horas. Há quem precise de dois empregos não por ambição, mas porque um só não paga o aluguel.
O problema começa quando transformamos essa necessidade em destino e passamos a acreditar que viver é apenas cumprir obrigações.
Talvez o problema não seja apenas a falta de tempo. Seja também a facilidade com que entregamos nossas horas a coisas que não nos devolvem nada.
O tempo é um patrimônio estranho. Não podemos tocá-lo, vê-lo ou guardá-lo numa gaveta. Uma nota de cem reais perdida provoca indignação. Cem minutos desperdiçados passam quase despercebidos. E, no entanto, dinheiro perdido pode voltar. Tempo, não.
Volto àquele aluno de cinquenta anos. Penso que ele não estava apenas diante da possibilidade de concluir os estudos. Estava diante de uma oportunidade de voltar a ser protagonista da própria história.
Talvez estudar não lhe devolva os anos que passaram. Mas pode transformar os anos que ainda virão.
E talvez ele volte a jogar sinuca. Espero que sim.
Porque, no fim das contas, a pergunta não é apenas quanto vale o nosso tempo.
É por quanto estamos vendendo a nossa vida.









