terça-feira, 25 de agosto de 2026

Feira do livro

 Eu não lembro exatamente quantos anos tinha.

Também não lembro o nome de todos os livros que vi, nem consigo dizer quem eram os escritores que estavam lá. Criança guarda as coisas de outro jeito. Às vezes esquece os nomes, mas não esquece os cheiros, as cores e aquilo que sentiu.

Da Feira do Livro de Foz do Iguaçu eu lembro assim.

Lembro de chegar e achar que havia livros demais no mundo.

Livros grandes, pequenos, fininhos, enormes. Livros com monstros, princesas, animais que falavam, crianças aventureiras e lugares que eu nem sabia que existiam. Alguns estavam tão bonitos nas prateleiras que dava vontade de levar para casa mesmo sem saber do que tratavam.

Eu queria tocar em todos.

Minha mãe dizia:

— Escolha um.

Mas escolher um livro no meio de tantos era uma tarefa quase impossível.

Eu pegava um, depois encontrava outro mais interessante. Colocava o primeiro no lugar, caminhava mais um pouco e descobria um terceiro.

Foi quando entendi que livro tinha um problema: a gente nunca quer apenas um.

Havia muita gente andando. Crianças sentadas ouvindo histórias, professores chamando seus alunos, pais carregando sacolas, escritores conversando com leitores. Em algum lugar alguém contava uma história e, mesmo com todo aquele movimento, algumas crianças permaneciam quietinhas, olhando para o contador como se o restante da feira tivesse desaparecido.

Eu fui uma delas.

Não lembro qual história ele contou.

Isso é engraçado.

Esqueci a história, mas nunca esqueci a sensação de ouvi-la.

Durante alguns minutos, Foz do Iguaçu deixou de ser Foz. Eu não estava mais numa feira. Estava em algum lugar muito distante, desses onde só conseguimos chegar quando alguém abre um livro.

Depois continuei caminhando.

Ganhei um marcador de páginas. Peguei alguns folhetos que provavelmente minha mãe jogou fora dias depois. Folheei livros que não compramos e fiquei namorando outros que eram caros demais.

Até que finalmente escolhi o meu.

Saí segurando aquele livro com as duas mãos.

Hoje não sei onde ele está.

Talvez tenha sido emprestado e nunca devolvido. Talvez esteja dentro de alguma caixa. Talvez tenha se perdido em alguma mudança. Pode ser até que eu ainda o encontre um dia, amarelado pelo tempo, esperando silenciosamente que eu me lembre dele.

Mas uma coisa eu sei:

alguma coisa daquela Feira voltou comigo.

Durante muitos anos pensei que tivesse sido apenas um livro.

Hoje percebo que não.

Voltei carregando a descoberta de que existiam milhares de vidas além da minha, escondidas dentro de páginas.

Voltei sabendo que era possível viajar sem sair de Foz do Iguaçu.

Voltei desconfiando que as palavras poderiam fazer uma pessoa rir, chorar, pensar e até enxergar o mundo de outro jeito.

Talvez seja por isso que, quando passo perto de uma feira de livros, ainda diminuo o passo.

O adulto continua andando.

Mas aquela criança que um dia entrou na Feira do Livro de Foz do Iguaçu ainda está lá dentro.

Curiosa.

Olhando as capas.

Folheando escondido.

Tentando decidir qual livro levar.

E acreditando, como acreditava naquele dia, que atrás de cada capa existe um mundo esperando alguém abrir a primeira página.

AMORA

 Amora

O nome dela era Amora. Sua risada lembrava o doce das amoras maduras. Amora morava em uma casa cheia de crianças, cores e brinquedos compartilhados.

 Amora gostava de desenhar corações.

 Desenhava corações vermelhos, azuis, verdes, dourados.

 Dizia que cada coração tinha um sonho diferente.

 Mas o coração que ela mais desenhava era o “coração que escolhe”, um coração grande, brilhante, que encontrava outro coração só seu.

 Um dia, enquanto Amora pintava mais um de seus corações na varanda, chegou um casal: Dona Lídia e Seu Pedro. Eles caminhavam devagar, observando cada criança com muito carinho. Amora continuou desenhando, tímida, mas com esperança piscando nos olhos.

 — Que coração bonito é esse? — perguntou Dona Lídia, encantada.

 — É o coração que escolhe — respondeu Amora. — Ele sempre encontra alguém que combina com ele.

 Dona Lídia e Seu Pedro se entreolharam.

 Seu Pedro sorriu devagar.

 — E você acha que o seu já encontrou alguém? — perguntou ele.

 Amora pensou por um instante. Depois, colocou o lápis no chão, respirou fundo e disse:

 — Eu acho quem, talvez,  hoje ele esteja escolhendo.

 Dona Lídia se ajoelhou ao lado dela.

 — Sabia que o nosso coração também estava procurando alguém? — disse, com a voz macia. — Procurando alguém exatamente como você.

 O coração de Amora pulou dentro do peito. Era como se todas as amoras doces do mundo tivessem estourado de alegria ali dentro.

 Naquele dia, Amora empacotou seus desenhos, deixando apenas um na parede.

 Uma das crianças pergunta:

 — Você esqueceu esse?

 Ela responde:

 — Não. Esse fica para a próxima criança que chegar.

Por fim abraçou todos os amigos e saiu segurando a mão de sua nova família. Na porta, ela olhou para trás e viu o sol brilhando diferente, como se estivesse sorrindo para ela.

Na nova casa, Amora ganhou um quarto todo decorado com seus desenhos de coração. E, no centro da parede principal, ela colocou o maior de todos: o coração que escolhe.

 — Por que esse aqui fica no meio? — perguntou Seu Pedro.

 Amora sorriu.

 — Porque foi ele que nos encontrou.

 E, desde então, sempre que alguém perguntava a história dela, Amora dizia com orgulho:

 — Eu sou a menina que foi escolhida pelo coração.

 E sua risada doce continuava enchendo a casa de alegria, igualzinha ao sabor das amoras maduras no pé.

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Sou filho das selvas - Emerson Fulgencio

 Sou filho das selvas

 Uma luz é filtrada pelas folhas densas das árvores e clareia o chão úmido da mata. Uma imagem que, para os japoneses, poderia ser interpretada como um komorebi perfeito.

Agora é possível ouvir passos que se aproximam. São inúmeros e parecem estar ritmados ao som de uma fanfarra. Mais próximos. Mais próximos. O som aumenta como se alguém mexesse no botão de volume de um rádio. O que cantam parece ser algo tão puro, valente e encantador:

"Meu canto de morte,
Guerreiro, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo tupi."

Que momento glorioso! Ali estava eu, simples espectador de um dos desfiles mais encantadores que já presenciei, um deslumbre inesquecível.

Os indígenas passam, em uma cadência perfeita, ali, na minha frente. Parecem não se importar com a minha presença. Estico o braço e toco em um deles. Ele não se mexe. Continua caminhando. Cantam juntos, olhando para o horizonte, como se seguissem um destino conhecido apenas por eles.

Então, de repente, tudo começa a desaparecer. Primeiro os sons. Depois as cores. Por fim, as figuras.

Abro os olhos.

— Guilherme! Você está dormindo? — pergunta meu pai, sorrindo.

Olho ao redor. Estou no banco de trás do carro. Meu pai dirige pela estrada enquanto meu irmão observa a paisagem pela janela.

— Já estamos chegando? — pergunto, ainda confuso.

— Estamos quase nas Cataratas — responde meu pai.

Sento-me direito. O coração ainda bate acelerado por causa do sonho. Em poucos dias seria a apresentação do Dia do Índio na escola e eu precisava decorar o poema I-Juca Pirama. Talvez por isso aqueles versos não saíssem da minha cabeça.

Quando chegamos, o rugido das águas tomou conta de tudo. Era um som poderoso, impossível de ignorar. Caminhamos pelas trilhas cercadas pela mata e, a cada curva, eu me sentia mais impressionado.

Foi então que encontramos um guia.

Ele era um senhor de fala tranquila e olhos atentos, daqueles que parecem guardar muitas histórias.

— Vocês conhecem a lenda das Cataratas? — perguntou.

Balancei a cabeça negativamente.

— Então vou contar.

Sentamos próximos ao mirante. Atrás dele, a névoa das quedas-d'água subia como fumaça branca em direção ao céu.

— Há muito tempo — começou o guia — vivia nesta região uma bela jovem indígena chamada Naipi. Sua beleza era conhecida por todas as tribos. Segundo a tradição, ela havia sido prometida ao deus-serpente M'Boy. Naipi se apaixonou por um jovem guerreiro chamado Tarobá. E Tarobá também a amava. Os dois decidiram fugir juntos pelo rio. Porém, M'Boy descobriu a fuga e ficou furioso. Com sua enorme força, cortou a terra, abriu uma gigantesca fenda e fez as águas despencarem em uma queda colossal. Assim nasceram as Cataratas. Diz a lenda que Tarobá foi transformado em uma árvore às margens das quedas. Naipi tornou-se uma rocha no meio das águas. E M'Boy permanece ali, guardando para sempre seu reino.

Por alguns instantes, fiquei em silêncio. Observei a floresta. O vento. A névoa. O som das águas. Apertei os olhos com as duas mãos. Será que estou sonhando novamente? Olhei para o lado. Ali estava meu pai em pé, segurando a mão do meu irmão. Agora era real. Estava verdadeiramente nas Cataratas do Iguaçu e alguém havia contado uma história. Para testar se era real, resolvi fazer uma pergunta:

— Estamos em solo indígena?

O guia, mais que depressa, respondeu que sim com a cabeça e, olhando bem nos meus olhos, disse:

— A América toda é solo indígena. Foz do Iguaçu é apenas um dos palcos onde contamos histórias que jamais devem ser esquecidas.

Nessa hora, parecia que o guia havia se esquecido de todos os outros que ali estavam e, em uma conversa unicamente comigo, decidira contar mais sobre tudo o que sabia.

— Para você ter uma ideia, pequeno garoto, estamos em uma região trinacional em que os três países preservam muito da cultura dos povos originários. As Cataratas do Iguaçu não são uma das maravilhas da natureza exclusivamente brasileira; elas dividem os territórios brasileiro e argentino. As Cataratas são um exemplo claro de que Deus pode dar uma bênção que beneficia duas nações. Não se esqueça disso.

Que profundo aquilo que ele havia acabado de falar. Mas isso me fez concluir que, se as duas nações não entendessem isso, poderiam se tornar inimigas. O guia queria me contar mais. Eu parecia querer tirar uma conclusão de cada nova história.

— Vocês já foram a Ciudad del Este? — perguntou o guia. — Passando pela Ponte da Amizade, ao olhar para o lado direito da ponte — isso para quem está indo para o Paraguai —, você observará uma ilha: a Ilha Acaray. Moradores mais antigos também a chamam de Ilha das Cobras. Um detalhe importante: essa ilha pertence ao Brasil. — risos. — Aqui temos uma história não menos importante que a Lenda das Cataratas, mas muitas pessoas não a conhecem.

A versão mais conhecida da história conta que Jupira era uma jovem indígena de extraordinária beleza que vivia na ilha. Tão bela era que despertava o interesse de todos os guerreiros da região. Para protegê-la, seus pais a mantinham na parte mais alta da ilha, longe dos visitantes. Com o passar dos anos, Jupira cresceu sem se apaixonar por ninguém e, segundo a lenda, seu espírito permanece na ilha até os dias de hoje, como uma guardiã daquele lugar. Alguns chamam essa narrativa de O Mito da Princesa Jupira e ainda dizem que o pai a isolou no topo da ilha para que nenhum dos pretendentes chegasse até ela.

— Sabe o que significa Acaray? O som "i" no final das palavras, na língua guarani, geralmente indica o diminutivo. E no início significa rio ou água.

Meu Deus! Quanta coisa estava passando pela minha cabeça. Então, Rio Iguaçu é rio de água? Preciso saber o que significa "guaçu" em tupi-guarani. Mas uma coisa eu já estava percebendo: nossa língua, nossa cultura, que mistura era essa? Agora entendi o que o professor de História disse na aula sobre a formação do povo brasileiro: somos um amálgama. Estou cada vez mais curioso para descobrir cada história, cada cantinho dessa cidade.

— Pequeno menino, Acaray significa "pequena coroa". E dizem que ela ainda está lá. Ela é a guardiã da região. — O velho sorriu. — Algumas pessoas dizem que, em certas manhãs de neblina, uma jovem pode ser vista no alto da ilha. Outros juram que é apenas o desenho das árvores contra a luz do amanhecer.

Meu pai me puxou pelo braço. Hora de ir embora. Meu irmão queria comprar uma camiseta. Meu pai comprou algumas lembranças para expor na estante de casa e mostrar para todo mundo que havia visitado as Cataratas do "rio grande" (durante o momento em que eles escolhiam seus souvenires, eu pesquisei no Google o significado de Iguaçu). Eu só queria ir para o carro e poder digerir tudo aquilo que havia acontecido durante o passeio.

No caminho de volta, o cansaço venceu novamente. Fechei os olhos e me vi outra vez na mata. A luz atravessava as folhas das árvores. Ao longe, ouvi o canto dos guerreiros. Mas, desta vez, não caminhei em direção a eles. Caminhei em direção ao rio.

Lá estava Jupira.

Envolvida pela névoa das águas, como se fosse parte da própria floresta.

— Você encontrou o que procurava? — perguntou ela.

Pensei nos guerreiros do épico de Gonçalves Dias. Na lenda de Naipi e Tarobá. Nas águas das Cataratas.

Então respondi:

— Acho que sim.

Ela sorriu.

— E o que encontrou?

Olhei para a correnteza.

— Histórias.

Ela apontou para o meu peito.

— Você encontrou pertencimento. As histórias estavam aqui antes de você nascer e continuarão aqui depois que você partir. Mas agora elas também vivem em você.

A névoa se tornou mais intensa. Os guerreiros começaram a cantar. As águas rugiram. As árvores dançaram com o vento. E tudo desapareceu.

Quando abri os olhos, estava no auditório da escola. Meu nome havia sido chamado. Caminhei até o palco segurando a folha do poema. Respirei fundo. E comecei:

"Meu canto de morte,
Guerreiro, ouvi..."

Não enxergava apenas palavras. Via os guerreiros atravessando a mata. Via Naipi e Tarobá navegando pelo rio. Via Jupira guardando a floresta. Via as Cataratas.

Enquanto existir alguém disposto a contar uma lenda, recitar um poema ou ouvir o canto da floresta, eles continuarão vivos.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Entre livros e leis: o que fazemos com aquilo que aprendemos?

Ontem, 11 de agosto, duas datas dividiram o calendário: o Dia do Estudante e o Dia do Advogado.

À primeira vista, talvez não tenham muito em comum. De um lado, cadernos, livros, provas, professores e aquela velha pergunta: “Isso vai cair na prova?”. Do outro, processos, tribunais, leis, argumentos e decisões.

Mas talvez estejam muito mais próximos do que imaginamos.

Todo advogado já foi estudante.

E, se for um bom advogado, provavelmente nunca deixou de ser.

Porque há profissões em que o diploma encerra uma etapa. No Direito — e talvez na própria vida — ele apenas muda o tipo de pergunta que fazemos.

O estudante aprende que não sabe.

Parece pouco, mas é uma descoberta extraordinária.

Quando somos jovens, temos uma estranha facilidade para acreditar que já entendemos o mundo. Depois vêm os livros, os professores, as experiências, os erros, as pessoas que pensam diferente de nós — e percebemos o tamanho daquilo que desconhecemos.

Estudar é, portanto, também um exercício de humildade.

Cada página lida deveria diminuir um pouco nossas certezas apressadas e aumentar nossa capacidade de perguntar.

Talvez seja justamente aí que o estudante encontre o advogado.

O Direito nasce da necessidade humana de organizar a convivência. Onde existem pessoas, existem interesses. Onde existem interesses, surgem conflitos. E onde existem conflitos, precisamos de princípios, regras, justiça e pessoas preparadas para defendê-los.

Mas nenhuma lei se sustenta apenas porque está escrita.

Antes da lei existe a vida.

Existe alguém que trabalha.

Alguém que perdeu.

Alguém que espera.

Alguém que foi injustiçado.

Alguém que precisa ser ouvido.

Por trás de cada processo existe uma história que não cabe completamente nas folhas de um processo.

E talvez por isso estudar seja tão importante.

Não estudamos apenas para saber mais.

Estudamos para enxergar melhor.

Para não aceitar qualquer argumento.

Para reconhecer nossos direitos e compreender nossos deveres.

Para distinguir opinião de conhecimento, grito de razão, conveniência de justiça.

Uma sociedade que deixa de estudar torna-se mais fácil de enganar.

Uma sociedade que conhece pouco seus direitos torna-se mais fácil de controlar.

Por isso, celebrar estudantes e advogados no mesmo dia acaba produzindo uma bela coincidência — ou, quem sabe, um lembrete.

Conhecimento e justiça precisam caminhar juntos.

De pouco adianta acumular conhecimento se ele não melhora nossa relação com o outro. E de pouco adianta falar em justiça se não estivermos dispostos a compreender a realidade daqueles que estão ao nosso redor.

Ontem foi o dia daqueles que estudam.

Foi também o dia daqueles que escolheram o Direito.

Hoje, passado o dia das homenagens, talvez reste a pergunta mais importante:

O que estamos fazendo com aquilo que aprendemos?

Porque livros podem ocupar estantes.

Diplomas podem ocupar paredes.

Leis podem ocupar códigos.

Mas conhecimento de verdade precisa ocupar a vida.

E, quando isso acontece, estudar deixa de ser apenas preparação para uma profissão.

Torna-se preparação para sermos pessoas melhores, cidadãos mais conscientes e seres humanos mais atentos ao mundo e às pessoas que passam diante dos nossos olhos.

Afinal, aprender é importante.

Mas aprender para servir, compreender e fazer justiça é ainda melhor.

FEITO COM IA.

sábado, 8 de agosto de 2026

Antes de ser pai, é preciso ser filho


Há uma curiosidade interessante sobre o Dia dos Pais: ele existe porque alguém, em algum momento da história, decidiu que a paternidade merecia ser lembrada. A sociedade escolheu uma data. Deus, porém, escolheu um princípio.

A Bíblia nunca apresenta a paternidade apenas como uma função biológica. Gerar um filho é um acontecimento. Tornar-se pai é um chamado.

Talvez seja por isso que ser pai assuste tanto. Não existe manual capaz de responder todas as perguntas. Não há pai que nunca tenha sentido medo de errar, culpa por uma decisão, ou dúvida sobre o caminho certo. A paternidade é uma escola onde ninguém se forma antes de começar.

Quando olhamos para as Escrituras, encontramos homens extraordinários que também foram pais imperfeitos. Abraão teve seus tropeços. Jó conheceu a dor. José precisou confiar em Deus sem entender todos os planos. Davi conquistou reinos, mas sofreu dentro da própria casa. O pai do filho pródigo experimentou a angústia da espera.

Nenhum deles foi perfeito.

Mas todos apontam para um Pai perfeito.

É exatamente aí que o evangelho muda completamente nossa compreensão sobre a família. Paulo escreve:

"Por causa disto me ponho de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome." (Efésios 3:14-15)

A palavra é profunda. Toda família recebe seu nome daquele que é Pai. Ou seja, Deus não aprendeu a ser Pai observando famílias humanas. Somos nós que aprendemos a paternidade observando Deus.

Isso muda tudo.

Porque um pai não ama apenas quando o filho merece. Deus nos amou primeiro.

Um pai não disciplina porque deseja punir. Deus disciplina porque ama.

Um pai não protege apenas quando é conveniente. Deus nunca abandona seus filhos.

Um pai não conduz apenas com palavras. Deus caminha conosco todos os dias.

Talvez o maior erro da nossa geração seja tentar ensinar os filhos a seguir um caminho que nós mesmos ainda não decidimos percorrer.

Filhos aprendem muito menos pelos discursos e muito mais pelas pegadas que encontram dentro de casa.

Antes de ensinar a orar, precisam ver um pai de joelhos.

Antes de aprender sobre perdão, precisam ver um pai pedindo perdão.

Antes de ouvir sobre honestidade, precisam conviver com um pai íntegro.

Antes de escutar sobre Deus, precisam enxergar em casa um reflexo do caráter de Deus.

Por isso, a maior responsabilidade de um pai talvez não seja construir patrimônio para os filhos, mas construir um testemunho diante deles.

No fim das contas, descobrimos uma verdade simples e transformadora: ninguém consegue exercer plenamente a paternidade sem antes aceitar a condição de filho.

Quanto mais nos aproximamos do Pai celestial, mais nos tornamos o pai que nossos filhos precisam.

Porque a paternidade não começa quando um filho nasce.

Ela começa quando um homem decide seguir o Pai que nunca falha.

E talvez seja essa a maior herança que um pai pode deixar: não apenas um sobrenome, mas um caminho. Um caminho que leva seus filhos até Deus.


Reflexão elabora a partir de pesquisa e escrito com o uso de IA. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

21ª Feira do Livro Internacional de Foz do Iguaçu - 2026


                                         21ª Feira do Livro Internacional de Foz do Iguaçu

A literatura tem o poder de transformar vidas, despertar a imaginação e aproximar pessoas. Entre os dias 3 e 6 de setembro, a Praça da Paz será palco da 21ª Feira do Livro Internacional de Foz do Iguaçu, um dos mais importantes eventos culturais da região.

Nesta edição, a autora homenageada será Ruth Rocha, um dos maiores nomes da literatura infantojuvenil brasileira. Com uma trajetória de mais de 50 anos dedicados aos livros, ela conquistou gerações de leitores com obras marcantes, como Marcelo, Marmelo, Martelo, incentivando o gosto pela leitura e pela criatividade.

O evento contará com uma programação especial, reunindo escritores, atividades culturais, lançamentos de livros, palestras, oficinas e atrações para crianças, jovens e adultos.

Você é nosso convidado! Venha viver essa grande celebração da literatura, conhecer novos autores, prestigiar a cultura e compartilhar momentos inesquecíveis com toda a família.

🗓 Data: 3 a 6 de setembro de 2026
📍 Local: Praça da Paz – Foz do Iguaçu

Esperamos por você! Afinal, cada livro abre um novo mundo de possibilidades. 📖✨

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Manifesto do MITÁ ARANDU


Manifesto do MITÁ ARANDU

Antes de existir um menino, existiu uma pergunta.

E toda grande pergunta nasce da curiosidade.

O Mitá Arandu é aquele menino que observa antes de falar. Que escuta antes de julgar. Que aprende antes de ensinar.

Ele não sabe tudo.

E talvez seja justamente por isso que aprenda tanto.

Enquanto muitos procuram respostas prontas, ele prefere descobrir o caminho.

Aprende com os livros, mas também com as árvores.

Aprende com a professora, mas também com a avó.

Aprende com os erros, com os acertos, com os amigos, com o silêncio, com a chuva, com o rio e com o voo dos pássaros.

Para ele, toda pessoa tem uma história.

Toda história tem um ensinamento.

E todo dia traz uma nova oportunidade de aprender.

Mitá Arandu significa "menino sabido" em tupi-guarani.

Mas ser sabido não é ser dono da verdade.

É manter viva a curiosidade.

É fazer perguntas sem medo.

É reconhecer que ninguém é pequeno demais para ensinar, nem grande demais para aprender.

Neste espaço, o humor caminha ao lado da reflexão.

As risadas dividem lugar com as perguntas.

As charges não existem para apontar culpados.

Existem para despertar olhares.

Acreditamos que a inteligência pode ser gentil.

Que a simplicidade pode ser profunda.

Que uma boa conversa vale mais do que um grito.

Que o conhecimento cresce quando é compartilhado.

E que a sabedoria começa quando entendemos que ainda há muito para descobrir.

Seja bem-vindo.

Sente-se conosco.

O Teko provavelmente vai fazer alguma bagunça.

O Mitá Arandu fará uma pergunta.

E talvez, sem perceber, você encontre uma resposta que estava procurando há muito tempo.

Porque toda criança nasce curiosa.

E toda sociedade melhora quando decide continuar aprendendo.

MITÁ ARANDU

Onde a curiosidade encontra a sabedoria.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

MITÁ ARANDU e TEKO


 

O dia em que João Virou empresa

João sempre sonhou em crescer na vida. Quando criança, queria ser astronauta. Na adolescência, pensou em ser jogador de futebol. Na fase adulta, depois de algumas derrotas e boletos, passou a sonhar apenas com um emprego estável.

Conseguiu.

Entrava às oito, saía às dezoito, tomava café na copa, reclamava do calor do escritório e participava das tradicionais conversas sobre o resultado do futebol. Era funcionário. Tinha crachá, décimo terceiro, férias e até uma mesa com uma gaveta que não fechava direito.

A vida seguia seu curso previsível até que, certo dia, foi chamado para uma reunião.


— João, temos uma excelente oportunidade para você.

João estranhou. Na experiência dele, toda frase que começava com "excelente oportunidade" terminava em mais trabalho.

— Você vai deixar de ser funcionário e se tornar uma empresa.

Ele sorriu sem entender.

— Uma empresa?

— Exatamente! Você será empreendedor. Dono do próprio negócio. Mais liberdade, mais autonomia.

João saiu da sala se perguntando como havia se transformado em uma empresa em menos de quinze minutos.

Na semana seguinte, abriu um CNPJ.

Foi um momento emocionante. Antes era apenas João da Silva. Agora era "João da Silva Serviços Especializados Ltda.". Sentiu-se quase uma multinacional.

Mas algumas coisas continuaram curiosamente iguais.

Seguia entrando às oito.

Continuava saindo às dezoito.

Recebia ordens das mesmas pessoas.

Sentava na mesma cadeira.

Tomava o mesmo café.

Reclamava do mesmo calor.

A única diferença é que agora ele era uma empresa.

Uma empresa sem sede.

Sem funcionários.

Sem departamento financeiro.

Sem conselho administrativo.

Sem patrimônio.

Mas uma empresa.

Quando alguém perguntava onde ele trabalhava, a resposta ficou complicada.

— Trabalho na Empresa X.

— Mas você não tem uma empresa?

— Tenho.

— Então você trabalha para sua empresa?

— Mais ou menos.

— E sua empresa presta serviço para a Empresa X?

— Isso.

— E quem manda em você?

— A Empresa X.

— Então você é funcionário?

— Não. Sou empresário.

Ninguém entendia muito bem. Nem João.

Com o passar do tempo, percebeu que havia adquirido um superpoder moderno: o de assumir sozinho todos os riscos do negócio sem possuir o negócio.

Se adoecesse, problema dele.

Se precisasse parar, problema dele.

Se o contrato acabasse, problema dele.

A liberdade prometida parecia funcionar principalmente para o outro lado da mesa.

Ainda assim, João observava o mundo e percebia que não estava sozinho. Havia milhares de empresas como ele caminhando pelas ruas, esperando ônibus, tomando café e participando de reuniões online. Empresas que tinham rosto, família, sonhos e contas para pagar.

Talvez o fenômeno mais curioso do nosso tempo seja justamente esse: nunca houve tantos empreendedores que não escolheram empreender.

E assim João segue sua jornada.

Todos os dias acorda, toma banho, veste a roupa de trabalho e sai para mais uma jornada empresarial.

Sua esposa pergunta:

— Vai para a empresa?

Ele responde:

— Vou.

E a frase está correta dos dois jeitos possíveis.


TEXTO ELABORADO INTEGRALMENTE POR IA. Foi atribuido apenas um prompt. 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Assim que luto minhas guerras - Vencemos a covid-19

 

O Paradoxo da Presença e o Início de Tudo

A COVID-19 aproximou e afastou pessoas ao mesmo tempo. Um paradoxo. Aproximou aqueles que descobriram o valor da presença e afastou aqueles cujas relações já estavam destruídas. Talvez uma das maiores heranças da pandemia tenha sido a consciência de que o tempo compartilhado é limitado. Muitas famílias passaram a compreender que celebrar aniversários, reunir-se em volta de uma mesa ou simplesmente visitar um parente deixou de ser algo comum para se tornar algo precioso.


O ano de 2020 começou como uma história nova. Há cinco anos havíamos implantado a EJA DOM EAD aqui em Foz do Iguaçu e agora estávamos vivendo uma transição, algo que culminaria em uma nova sede. Iniciamos as matrículas e a procura estava excelente; muitas pessoas estavam reavivando seus sonhos de concluir os estudos. O ano letivo começou com salas cheias. Porém, o dia 20 de março se tornou inesquecível para muitas pessoas: o primeiro lockdown.

As notícias vinham pouco a pouco. Sabíamos que um mal se aproximava, mas muitos não acreditavam na sua magnitude. Já havíamos passado por epidemias como a gripe suína e a gripe aviária, mas a última grande pandemia, a Gripe Espanhola, não fazia parte da nossa geração. Era apenas página de livro; já haviam se passado 100 anos e o mundo agora era outro. Talvez esse tenha sido o fator de descrédito da população. Muitos, com certeza, acreditaram que era "só uma gripinha". Mas não foi.

O Alerta Global e a Chegada ao Brasil

Tudo começou de maneira muito sutil. Os noticiários, no final de 2019, alertaram que autoridades de Wuhan, na China, haviam identificado casos de uma pneumonia causada por um novo coronavírus. O mundo deu de ombros. Era final de ano, ninguém queria perder suas férias ou suas festas programadas. Além do mais, no mundo das Fake News, era só uma notícia a mais. Durante quase dois meses o vírus circulou sem parar, como hoje bem sabemos, e somente no final do mês de janeiro de 2020 a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional.

Imaginem a quantidade de pessoas que já estavam contaminadas nesse momento. Tudo estava acontecendo muito rápido. Tanto que, poucos dias após a declaração da OMS, o primeiro caso era confirmado no Brasil: um homem em São Paulo que havia retornado da Itália. A data dessa constatação? Dia 26 de fevereiro, quarta-feira de cinzas, logo após o Carnaval. Conseguem imaginar o nível de contaminação?

E agora? Como ficariam os outros eventos que exigiam público? O mundo vive de aglomerações — palavra essa que muito se ouviu e cujo ato muito se proibiu durante a pandemia. O calendário parecia datar não só os dias, mas sim o horror. Em 11 de março, após mais de 100 anos, vivia-se verdadeiramente um evento mundial. A Primeira e a Segunda Guerra Mundial não chegariam aos pés do que viria pela frente. A OMS declarava oficialmente a COVID-19 como uma pandemia. Uma pandemia é a disseminação global de uma doença infecciosa; declara-se quando um patógeno se espalha por diversos continentes simultaneamente, afetando um grande número de pessoas. Era isso que viveríamos nos próximos dias, meses e anos.

O Dia em que o Mundo Parou em Foz

Chegamos a 20 de março de 2020. Era uma quarta-feira à noite, com alunos e professores em sala de aula. Aquele seria o último dia para atividades coletivas decretado pela Vigilância Sanitária de nossa cidade, em cumprimento a um decreto nacional. Estávamos preparados para, no dia seguinte, interrompermos as atividades pelos próximos 30 dias. De repente, a Guarda Municipal chegou ao nosso colégio acompanhando um agente sanitário disposto a fechar a escola e ainda aplicar uma multa. Foi um momento de extrema tensão. Sabíamos da gravidade e estávamos com tudo pronto para, no dia seguinte, cumprir a lei e não reunir mais pessoas.

A data foi marcante. Começaram os lockdowns e quarentenas em vários países. Escolas, universidades, fronteiras, estádios, igrejas e comércios foram fechados em diversas regiões do mundo. Ninguém mais transitava para Ciudad del Este, no Paraguai: Ponte da Amizade fechada. Ninguém transitava para Puerto Iguazú, na Argentina: Ponte da Fraternidade fechada. Verdadeiramente vivíamos uma pandemia.

Os números começaram a assustar. Em abril, o Brasil ultrapassou os 400 mil casos. Entre julho e agosto, vivemos a primeira grande onda, e o país registrou mais de 1.500 mortes em um único dia pela primeira vez. Foi um ano de "abre e fecha tudo", uso obrigatório de máscaras e higienização rigorosa ao ir a mercados ou farmácias. Os comércios e negócios que permaneceram abertos foram classificados oficialmente como serviços essenciais, denominação estabelecida pela Lei Federal nº 13.979/2020 e regulamentada por decretos que garantiam o funcionamento das necessidades básicas da população.

A Adaptação do DOM e a Negligência nas Ruas

Ficamos sem aulas presenciais o ano todo. O admirável é que o DOM adaptou-se tão rapidamente ao "novo normal", como era costume falar, que não ficou um só dia sequer sem aulas. Migramos para o EAD de uma forma magistral. Na semana seguinte, criamos os grupos de WhatsApp que se tornariam as salas de aula e fizemos uma força-tarefa para a entrega das apostilas. Na sala da minha casa, organizei um estúdio e começamos a enviar teleaulas e atividades, além de realizar plantões nos mesmos horários das aulas. Nada parou.

Terminamos o semestre com pouca desistência e começamos o período seguinte com um número significativo de alunos. No dia 15 de outubro de 2020, inauguramos a nossa sede nova do DOM e, naquele final de ano, o número de pessoas que concluiu o Ensino Médio foi excelente. Contudo, paralelamente, existiam números horríveis. O Brasil encerrou o ano de 2020 com 7.675.781 casos confirmados de COVID-19 e 194.976 mortes registradas oficialmente, segundo dados do G1. Estima-se que, no primeiro ano, cerca de 3 milhões de mortes foram registradas no mundo. Era como se praticamente toda a população de Curitiba e sua região metropolitana sumisse do mapa.

O brasileiro é um caso a ser estudado. Parecia que, mesmo diante dos dados e dos noticiários diários, a população não acreditava integralmente no perigo. Não era raro a fiscalização flagrar festas clandestinas. Isso só ampliava a ação do vírus, que estava sendo implacável. Muitos foram os casos de jovens que frequentavam baladas e, ao voltar para casa, contaminavam a família toda: irmãos, pais e avós. Muitos se cuidavam ao máximo, mas o vírus vinha até eles pelas pessoas da própria convivência. Parecia injusto; era pura negligência.

O Vírus Bate à Porta

O vírus chegou perto de mim pela primeira vez através da minha esposa (na época, minha namorada), que testou positivo. Entramos em quarentena. Vivemos dias de grande tensão, pois o remédio era apenas aguardar o corpo reagir. Tivemos contato até o dia em que se confirmou a contaminação. Seus filhos foram para a casa do pai e todos testaram positivo. Mas, como tudo ocorre conforme os propósitos de Deus, o vírus não havia chegado até mim naquele momento.

O ano de 2021 estava para começar e já existia a promessa da vacinação. Mas seria o fim da pandemia? Eu não sabia que, no mês seguinte, eu seria o próximo. Fevereiro de 2021 tornou-se o mês e o ano que mudariam a minha vida para sempre. Vivíamos o pior momento da crise sanitária, com colapso hospitalar em vários estados, falta de leitos de UTI e uma média superior a 3 mil mortes por dia. Foi exatamente nesse cenário que testei positivo.

No início, acreditei que seria fácil. Controlava a temperatura e a saturação todos os dias, mas percebia que meu corpo não reagia. Queria ser forte, mas não era tão simples assim. No sétimo dia da quarentena obrigatória, peguei o carro e fui até a empresa assinar alguns documentos urgentes. Pedi para os meninos deixarem os papéis no saguão, do lado de fora da escola. Era uma sexta-feira e eu acreditava que na semana seguinte já voltaria ao trabalho. Para minha surpresa, ao chegar lá, percebi que estava com dificuldade de focar a visão e senti uma falta de ar como nunca havia ocorrido antes. Parei, peguei os documentos, assinei e pedi para a secretaria não mexer neles até segunda-feira. Voltei para casa.

A Descida ao Vale e o Hospital Costa Cavalcante

Fiquei na casa da minha namorada, pois ela já estava imune por ter passado pela contaminação. Ao retornar, senti-me extremamente fraco e abatido. Naquela noite, as coisas pioraram drasticamente; parecia que eu não conseguia respirar. Foi então que a Marilu agendou um raio-X para a manhã de sábado. O exame só pôde ser feito no final do expediente, após o meio-dia. Fomos para o hospital.

Com muita dificuldade, caminhei do carro até a sala do exame. O técnico percebeu a gravidade do caso e, zelando pela ética, solicitou que eu fosse encaminhado com urgência para atendimento. Fomos direto para o hospital do convênio, onde meu irmão e minha cunhada logo se juntaram a nós. Ali senti que estava prestes a viver o momento mais difícil da minha vida em relação à saúde. A Marilu saiu da sala de triagem e foi chorar do lado de fora. "Todo mundo está morrendo" era o que ouvíamos. Pensei: seria a minha vez?

Fui encaminhado para o internamento no Hospital Costa Cavalcante. Como providência divina, a enfermeira do plantão já havia sido nossa aluna, e a médica que fez o primeiro atendimento também. Eu estava em boas mãos. Passei a tarde recebendo oxigênio enquanto aguardava uma vaga na UTI. Eu tentava manter a tranquilidade, mas sabia que, para os que ficaram do lado de fora, o desespero era grande. Assim que a vaga foi liberada, vivi a minha primeira experiência real de internação em um hospital; eu nunca tinha tomado sequer um soro na vida. Trouxeram um saco plástico para eu guardar minhas roupas, chinelos, celular, carteira e até o aparelho auditivo. Saí da cama e, em uma cadeira de rodas, fui levado para a UTI COVID. Aquele corredor parecia não ter fim.

Na UTI: A Guerra Espiritual e o Clamor

Ao chegar, fui para o leito — era apenas um paciente por quarto. Naquele leito de UTI, eu ficaria pelas próximas 48 horas, que seriam decisivas. Já na chegada, colocaram-me no soro e no oxigênio. Eram muitos papéis para assinar. Como o Hospital Costa Cavalcante estava utilizando o protocolo do Hospital Albert Einstein, seria ministrado em mim o plasma coletado de pessoas que já haviam vencido o coronavírus. Precisei autorizar medicamentos e procedimentos de emergência que fossem necessários para salvar minha vida.

O que quero relatar agora é o motivo principal de esta história estar no livro. Na primeira noite de UTI, já sob o efeito de vários medicamentos, comecei as sessões de Ventilação Mecânica Não Invasiva (VNI). Já adianto que, apesar de ter ficado oito dias internado, graças a Deus e às orações, intercessões e novenas das pessoas que lutaram comigo, não precisei ser intubado. Durante a primeira sessão de ventilação, algo aconteceu e me trouxe a certeza de que eu sairia dali com vida.

O enfermeiro chegou com a máquina acompanhado do fisioterapeuta. Explicaram o procedimento e instalaram o equipamento. Perguntei quanto tempo duraria: as sessões seriam de 40 minutos a uma hora, quatro vezes ao dia. Perguntei se poderia ficar mais tempo, e o fisioterapeuta respondeu que, quanto mais eu aguentasse, melhor seria. Coloquei na cabeça que ficaria o máximo de tempo que conseguisse. Passada a primeira hora da sessão, eles vieram para desligar o aparelho. Com um sinal de mão — já que a máscara cobria todo o meu rosto e impulsionava o ar de forma a forçar a respiração cadenciada —, avisei que queria continuar. Eles ficaram admirados. Usei o respirador por quase três horas seguidas. O suor escorria pelo corpo; parecia que eu tinha corrido uma maratona, tamanha foi a força física necessária. O enfermeiro ao meu lado parecia preocupado, até que fiz o sinal para parar. Quando tiraram a máscara, senti um vigor físico que há dias não experimentava. Tomado por uma força estranha, comecei a cantar e a louvar em voz alta:

"Assim que luto minhas guerras

Assim que luto minhas guerras

Assim que luto minhas guerras

Assim que luto minhas guerras

Parece que estou cercado

Mas sou guardado por ti

Parece que estou cercado, Jesus

Parece que estou cercado

Mas sou guardado por ti"

Notei que não era apenas uma luta biológica para me manter vivo; eu havia entrado em uma verdadeira guerra espiritual naquele momento. Precisava resistir, e era uma resistência não só contra a carne e o sangue, mas uma resistência de FÉ. A música Minhas Guerras faz referência à batalha lutada pelo povo de Deus liderado pelo rei Josafá. O inimigo era imenso e o povo estava com medo, mas a estratégia dada por Deus foi: "Não temas, esta guerra é minha". Assim como o povo daquela época colocou o coral à frente do exército, ali estava eu louvando. Outras profissionais da saúde vieram até o quarto e eu continuei. O respirador seria a minha ferramenta, mas Deus era a minha espada, meu escudo e meu capacete. Eu disse ao enfermeiro: "É assim que eu vou vencer essa guerra". Ele sorriu de canto; era a primeira noite e ele certamente sabia o que ainda estava por vir.

A Mão de Deus no Mar Revolto

Logo depois, um silêncio profundo tomou conta do lugar e fiquei completamente só. As paredes verdes do hospital pareciam estar se aproximando e o quarto ficou minúsculo. A luz apagada criava um ambiente de sombras estranhas. Comecei a orar profundamente. Deus estava ali, eu podia sentir. Mas por que eu estava passando por aquilo? As paredes pareciam sufocar ainda mais. Seriam os efeitos dos medicamentos? Falta de oxigênio?

Estiquei a mão no vazio. Em uma das paredes, vi nitidamente um mar revolto se formando. Ali, de mão estendida em direção à parede, uma frase ecoou forte na minha mente: "Eu venço, mas se estiver segurando as mãos de Deus". Clamei em pensamento: "Senhor, segura a minha mão, eu quero andar sobre estas águas". Naquele instante, senti como se uma mão viesse em minha direção e segurasse firmemente a minha mão estendida. O mar imediatamente se acalmou e as paredes voltaram a se afastar. "É assim que luto minhas guerras", pensei.

Um salmo que sempre recitamos em viagens familiares fez-se presente na minha oração: "Elevo os meus olhos para os montes; de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra", seguido por: "O Senhor é a minha força e o meu escudo; nele o meu coração confia, e dele recebo ajuda". Eu sabia que seria um milagre. A noite, enfim, acalmou.

As frases técnicas que ouvi, como "se precisar, teremos que te intubar" e "esta será a noite que determinará os próximos dias", não seriam o meu diagnóstico final. De madrugada, senti fome. O enfermeiro — um verdadeiro anjo — providenciou algo para eu comer. Esse profissional passou dois plantões comigo e tinha uma ternura e um cuidado que, com certeza, foram fundamentais na minha recuperação.

A Segunda Noite e o Quarto ao Lado

Passei a noite em claro e o segundo dia chegou. Durante a madrugada, enfrentei o pior dos exames: a gasometria. O café da manhã foi esperado como se fosse um banquete. Continuei usando o respirador não invasivo quantas vezes fosse necessário. Foi um dia inteiro de observação; a última noite daquelas primeiras 48 horas seria a decisiva. A essa altura, não era raro um enfermeiro entrar no quarto e comentar que já sabia que eu era o "paciente cantor". Acho que fiquei famoso naquele bloco do hospital. O fisioterapeuta do plantão seguinte queria até detalhes de como eu havia aguentado três horas direto na máquina.

Durante a tarde, fizeram acessos centrais para a administração de medicamentos pesados, o que me assustou bastante. Mas era o protocolo necessário. A segunda noite estava por vir, e ela veio. Logo após o jantar, fui colocado novamente no respirador. O médico já havia feito a visita de rotina e, pelo que percebi, os parâmetros estavam normais. Porém, por volta das 23h, senti a minha respiração extremamente cansada. Olhava pelo reflexo da TV desligada os monitores que ficavam atrás da minha cabeceira. Os batimentos cardíacos pareciam estáveis, a temperatura estava um pouco acima e a saturação, de tempo em tempo, despencava. Era o alerta.

Os enfermeiros vieram às pressas e precisei ser colocado na posição de pronação (de bruços). Faltava o ar, era terrivelmente desconfortável e o corpo inteiro doía. Foi mais uma noite inteira em claro. A equipe entrava no quarto com muito mais frequência; parecia que o hospital vivia um clima tenso e diferente naquela madrugada. Eles entraram conversando baixinho e, mesmo sem meus aparelhos auditivos, consegui entender que haviam acabado de perder o paciente do quarto ao lado.

Pedi para me deitarem na posição normal novamente, pois estava profundamente angustiado. Do meu leito, eu conseguia avistar o paciente do quarto da frente e percebi que ele estava intubado. Naquela madrugada fria, vi médicos e enfermeiros fazendo massagem cardíaca desesperada nele — ou nela —, mas a pessoa acabou falecendo. Fecharam a porta. No meu isolamento e solidão, a música voltou a brotar: cantei alto, desafiando o medo.

"Assim que luto minhas guerras

Assim que luto minhas guerras

Parece que estou cercado

Mas sou guardado por ti"

"Senhor, não me abandone. Acalme esta tempestade", eu clamava. Às 4h da manhã, veio a terrível gasometria novamente. Como doía. Mas a noite finalmente se foi e o dia amanheceu.

A Transferência e a Visita Clandestina

O café chegou e, com ele, a assistente social, os enfermeiros e a médica da manhã, Dra. Gisele. Eu tinha sobrevivido à segunda noite. "Glória a Deus", eu repetia mentalmente.

— Está bem, Sr. Emerson? — perguntou a médica.

Respondi que sim e arrisquei:

— Quando vou para casa?

— Ainda é cedo para decidirmos isso, mas tenho uma excelente notícia para o senhor: vamos mudar de UTI. Após as 12h, o senhor irá para a UTI 2, que é focada na recuperação do pulmão. Ainda há risco de o quadro se agravar, mas o seu corpo correspondeu muito bem aos medicamentos.

Mais um glória a Deus! Mas antes da transferência, tive uma grande surpresa. A assistente social fez uma videoconferência com a Marilu, e ela conseguiu incluir outros membros da família na chamada. Que alegria poder mostrar para todos que, mesmo contra as expectativas, eu estava bem. Aproveitei o momento para delegar algumas ações da escola e passei algumas senhas de acesso. Era apenas uma questão de tempo.

E as surpresas não pararam por aí. Se existe uma pessoa que sofreu, mas não se abateu, foi a minha namorada. Ela conseguiu a façanha de entrar clandestinamente na UTI. Não me perguntem como, mas, de repente, lá estava ela, toda paramentada com roupas hospitalares, fazendo uma visita secreta. Tomei um susto tão grande que meu coração acelerou. Foi um misto de alegria extrema com o medo de vê-la se expondo àquela carga viral. A emoção quase complicou as coisas: no momento em que vi a Marilu, minha saturação alterou no monitor. Fiquei preocupado, mas ela, valente, permaneceu ali em pé, ao meu lado. Que dedicação, que carinho e que coragem!

Na UTI 2: O Cenário de Guerra e os Aparelhos Auditivos

No meio da tarde, fui finalmente transferido para a UTI 2. Senti um alívio enorme. Agora eu dividia o espaço com outras pessoas no mesmo ambiente, havia uma televisão ligada e mais movimentação. Ao meu redor, vi alguns convalescentes em estados muito piores que o meu: alguns usando fraldas, outros com sondas — uma verdadeira enfermaria de guerra. Os fortes estavam sobrevivendo.

Na primeira noite nessa nova ala, tive o privilégio de ser cuidado pelo Matheus, filho da Deilde, nossa secretária documentadora da EJA e do CEPFI aqui em Foz do Iguaçu. Que profissionalismo e cuidado desse menino! Ele me fez sentir em casa. À noite, senti muito frio e tomei muita água, mas não parei de fazer as sessões na máquina de oxigênio, da qual eu já havia tomado posse mentalmente desde o primeiro dia.

Os dias iam passando. Em uma das madrugadas, a TV exibia o filme O Menino da Porteira, com o cantor Daniel. O aparelho estava sem volume, mas eu lia os lábios dos atores; eu conhecia as falas e ouvia o filme apenas assistindo. Quando passou a cena da música-tema, o menino abrindo a porteira e o personagem jogando a moeda, o sono quase me venceu. No entanto, o medo subconsciente de fechar os olhos, apagar e perder o controle da situação não me deixava dormir direito.

Foi na UTI 2 que a minha heroína driblou o sistema hospitalar mais uma vez e fez chegar até mim os meus aparelhos auditivos. A partir dali, eu já entendia muito bem os médicos e enfermeiros e conseguia conversar com todos. E, surpreendentemente, ela apareceu na minha frente de novo! Havia entrado junto com outra família, infiltrando-se com aquele jeito corajoso que só ela tem. Lá estava ela me visitando presencialmente, mesmo sendo proibido. Falávamos todos os dias por vídeo, mas ela precisava me ver de perto, tocar em mim e constatar que eu estava vivo.

O Lado Humano do Cuidado e o Incidente

Mais noites e mais dias se passaram. Na TV, agora passava o programa Largados e Pelados. Eu nunca tinha assistido, mas logo me vi torcendo para um dos participantes vencer. Eu criava pequenos mundos ali dentro para que tudo ganhasse sentido e para que o tempo passasse o mais rápido possível.

Nesse processo, percebi que o papel do técnico em enfermagem é sensacional. É ele quem tem o contato mais direto com o paciente; é esse profissional que verdadeiramente cuida através da presença física. Tenho uma gratidão imensa por quase todos os que cuidaram de mim, pois eles têm uma importância vital para confortar e acalmar.

Contudo, fica um alerta sobre o lado humano e o estresse da profissão. Em uma das noites, uma técnica — cujo nome preservarei — teve um acesso de nervosismo. Em um ato de fúria, deu um soco no aparelho dosador de soro e proferiu palavras cheias de ira. Aquilo me desestabilizou emocionalmente de forma imediata. Minha saturação caiu e meus batimentos dispararam no monitor. Ela olhou para os aparelhos e disparou que, se a minha saturação não melhorasse por bem, eu seria intubado, então era bom eu tratar de melhorar. Eu não tive forças para reagir. Se estivesse em outra situação, teria dado uma gargalhada e feito uma brincadeira, mas ali me faltavam forças.

Era a minha quinta noite. Eu sabia que receberia alta assim que terminasse o protocolo dos medicamentos, mas aquela noite foi horrível. Urinei a noite toda, senti muita falta de ar e a equipe teve que aumentar o oxigênio, que já estava no nível mínimo devido ao processo de desmame. Fechei os olhos, sabendo que não dormiria, e orei. Peguei virtualmente mais uma vez nas mãos de Deus e clamei para que Jesus se fizesse presente ali através do seu Espírito Santo. Enfim, chegou a hora da gasometria, a hora do café e o alívio da troca de plantão. A rotina se restabelecia. Após o café, vinha a visita do médico, a videoconferência com a assistente social, o raio-X, a fisioterapia e o respirador. E assim foi por mais dois dias.

O Dia da Vitória e os Números da História

Até que, finalmente, chegou o dia da alta. O técnico de enfermagem entrou no quarto com a minha mochila conhecida, debruçou-se sobre a pesteira da cama e brincou:

— Como os pacientes desta ala são lindos! O senhor, com essa barba, está parecendo um artista de cinema.

Foi a frase mais forçada, porém a mais fantástica e animadora que ouvi nos últimos dias. O pesadelo estava terminando. O soro chegou ao fim, tomei a última vitamina dissolvida em um copo d'água, comi o último almoço hospitalar e recebi a última injeção de anticoagulante.

A saída, por questões de protocolo, foi feita pelos fundos e em uma cadeira de rodas. Eu ainda me sentia extremamente fraco, porém estava oficialmente de alta. Os médicos — Dr. Jerman, Dra. Gisele — e toda a equipe de enfermagem vieram se despedir. Foi um "tchau" que não permitia saudades e um adeus sem a menor vontade de retornar, como costuma ser a despedida de um hospital.

O elevador chegou e descemos até a porta dos fundos. O sol forte do meio-dia bateu no meu corpo e, de repente, vi muitas pessoas conhecidas ali fora me esperando. Havia cartazes, balões, sorrisos e choros de pura vitória. Foram dias difíceis para todos nós, e eu estava sedento por um abraço, sedento por presença.

Infelizmente, quantas e quantas pessoas não tiveram o final feliz que foi permitido a mim? A COVID-19 continuou ceifando vidas pelo mundo e só começou a ser controlada quando a vacinação em massa finalmente teve início. Eu fui vacinado pela primeira vez no dia 26 de maio de 2021. Os números globais continuaram crescendo de forma assustadora, atingindo a marca de 770 milhões de casos no mundo todo, com mais de 7 milhões de mortes oficialmente registradas. O Brasil, até o ano de 2024, registrou a triste marca de 715 mil vidas perdidas para a doença. Eu, por milagre e por propósito, me tornei um sobrevivente dessa história. 


















Feira do livro

 Eu não lembro exatamente quantos anos tinha. Também não lembro o nome de todos os livros que vi, nem consigo dizer quem eram os escritores ...