Dois amigos se encontram, como quem não quer nada, e de repente o passado encosta na mesa.
— Lembra do tijolão que comprei quando ainda éramos bem jovens? — diz um, com um meio sorriso, como quem revive um troféu antigo.
— Fazia sucesso — responde o outro, sem hesitar. — Imagina, quando tocava aquele “bip” na minha cintura, eu já me sentia importante. Mesmo sem muita gente entender o que estava acontecendo.
E os dois riem.
Porque era estranho mesmo. Um toque de telefone ecoando numa festa, num café, num bar, chamava atenção como se fosse um anúncio público da própria existência. E aqueles ringtones? Cada um mais chamativo que o outro. Era quase uma assinatura sonora da pessoa.
— Mas o melhor — continua um deles — era a encenação.
— Nossa!!! — o outro já antecipa, rindo.
— Tocava, a gente saía de onde estava, ia pra um canto qualquer e começava a gesticular. Como se o corpo pudesse traduzir uma conversa que ninguém estava ouvindo.
Pausa.
Os dois ficam alguns segundos em silêncio, como se enxergassem aquela cena acontecendo diante deles.
— Era bem estranho mesmo — conclui um, ainda rindo. — Mas sabe o que quase me fez jogar aquele tijolão fora?
— A conta?
— A conta. — agora os dois riem juntos — Cobravam tudo! Minuto, deslocamento, mensagem. Meu Deus, parecia um assalto.
— Bons tempos!
E então o silêncio volta. Mas não é vazio. É cheio de lembrança.
— Falando em mensagem, como era o nome mesmo?
— SMS.
— Isso! SMS — ele repete, saboreando a sigla — Short Message Service. Até 160 caracteres, e sem internet.
— Sem internet. — o outro balança a cabeça, como se isso hoje fosse quase inacreditável.
— E tinha um nome que a gente usava...
— Tinha mesmo! — o outro se anima — Como era?
Os dois se olham, e quase ao mesmo tempo respondem:
— Torpedo.
E, de repente, não era só uma palavra. Era uma época inteira cabendo dentro dela.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
— Mas peraí — um deles interrompe, com aquele ar de quem não deixa a história passar batida — SMS já não é mais do tijolão.
— Verdade! — o outro se corrige na hora — Aí já estamos falando dos Nokias, aquele auge do celular raiz.
E os dois riem, como quem muda de fase dentro da própria memória.
— E os emojis? — um lança, quase como quem abre uma gaveta esquecida.
— Se lembro? — o outro já entra no jogo — Aquilo era arte!
— Meu pai já fazia isso na máquina de escrever, desenhava com as teclas, mas acho que ele nunca imaginou que a gente ia mandar “carinha” por mensagem.
— Total! — responde o amigo — Era tipo emoção em código.
E aí os dois começam a puxar da memória, como quem coleciona pequenas relíquias:
— Clássicos. Vamos ver se ainda lembramos.
E quase como um ritual, eles vão dizendo em voz alta:
— :) ou :-) — sorriso, feliz
— :( ou :-( — triste
— ;) ou ;-) — piscadinha
— :-P ou :p — língua pra fora, zoeira pura
— :-D — gargalhada
— :-O ou :-o — surpresa
— >:( — bravo
— :'( — chorando
— <3 — coração, esse aqui era especial
— :-* — beijo
Eles param. Sorriem.
— Engraçado. — diz um, pensativo — a gente tinha menos recurso, mas talvez colocasse mais intenção.
— É… — o outro concorda — hoje tem emoji pra tudo, mas naquela época, cada símbolo parecia que carregava um pouco da gente.
Silêncio de novo. Mas agora com um certo gosto de saudade boa.
— E pensar que tudo isso cabia em 160 caracteres.
— E ainda tinha que escolher bem, porque cada mensagem custava.
Os dois riem mais uma vez.
Porque, no fundo, não era só tecnologia.
Era jeito de sentir.
Nenhum comentário:
Postar um comentário