terça-feira, 28 de abril de 2026

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 Dois amigos se encontram, como quem não quer nada, e de repente o passado encosta na mesa.

— Lembra do tijolão que comprei quando ainda éramos bem jovens? — diz um, com um meio sorriso, como quem revive um troféu antigo.

— Fazia sucesso — responde o outro, sem hesitar. — Imagina, quando tocava aquele “bip” na minha cintura, eu já me sentia importante. Mesmo sem muita gente entender o que estava acontecendo.

E os dois riem.

Porque era estranho mesmo. Um toque de telefone ecoando numa festa, num café, num bar, chamava atenção como se fosse um anúncio público da própria existência. E aqueles ringtones? Cada um mais chamativo que o outro. Era quase uma assinatura sonora da pessoa.

— Mas o melhor — continua um deles — era a encenação.

— Nossa!!! — o outro já antecipa, rindo.

— Tocava, a gente saía de onde estava, ia pra um canto qualquer e começava a gesticular. Como se o corpo pudesse traduzir uma conversa que ninguém estava ouvindo.

Pausa.

Os dois ficam alguns segundos em silêncio, como se enxergassem aquela cena acontecendo diante deles.

— Era bem estranho mesmo — conclui um, ainda rindo. — Mas sabe o que quase me fez jogar aquele tijolão fora?

— A conta?

— A conta. — agora os dois riem juntos — Cobravam tudo! Minuto, deslocamento, mensagem. Meu Deus, parecia um assalto.

— Bons tempos!

E então o silêncio volta. Mas não é vazio. É cheio de lembrança.

— Falando em mensagem, como era o nome mesmo?

— SMS.

— Isso! SMS — ele repete, saboreando a sigla — Short Message Service. Até 160 caracteres, e sem internet.

— Sem internet. — o outro balança a cabeça, como se isso hoje fosse quase inacreditável.

— E tinha um nome que a gente usava...

— Tinha mesmo! — o outro se anima — Como era?

Os dois se olham, e quase ao mesmo tempo respondem:

— Torpedo.

E, de repente, não era só uma palavra. Era uma época inteira cabendo dentro dela.


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— Mas peraí —  um deles interrompe, com aquele ar de quem não deixa a história passar batida —  SMS já não é mais do tijolão.

— Verdade! — o outro se corrige na hora — Aí já estamos falando dos Nokias, aquele auge do celular raiz.

E os dois riem, como quem muda de fase dentro da própria memória.

— E os emojis? — um lança, quase como quem abre uma gaveta esquecida.

— Se lembro? — o outro já entra no jogo — Aquilo era arte!

— Meu pai já fazia isso na máquina de escrever, desenhava com as teclas, mas acho que ele nunca imaginou que a gente ia mandar “carinha” por mensagem.

— Total! — responde o amigo — Era tipo emoção em código.

E aí os dois começam a puxar da memória, como quem coleciona pequenas relíquias:

— Clássicos. Vamos ver se ainda lembramos.

E quase como um ritual, eles vão dizendo em voz alta:

— :) ou :-) — sorriso, feliz

— :( ou :-( — triste

— ;) ou ;-) — piscadinha

— :-P ou :p — língua pra fora, zoeira pura

— :-D — gargalhada

— :-O ou :-o — surpresa

— >:( — bravo

— :'( — chorando

— <3 — coração, esse aqui era especial

— :-* — beijo

Eles param. Sorriem.

— Engraçado.  — diz um, pensativo — a gente tinha menos recurso, mas talvez colocasse mais intenção.

— É… — o outro concorda — hoje tem emoji pra tudo, mas naquela época, cada símbolo parecia que carregava um pouco da gente.

Silêncio de novo. Mas agora com um certo gosto de saudade boa.

— E pensar que tudo isso cabia em 160 caracteres.

— E ainda tinha que escolher bem, porque cada mensagem custava.

Os dois riem mais uma vez.

Porque, no fundo, não era só tecnologia.

Era jeito de sentir.

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