sexta-feira, 22 de maio de 2026

A rua

Uma rua pode revelar uma realidade sem nenhuma palavra.

Nas rachaduras da calçada, no portão sempre fechado, na cadeira vazia da varanda, no comércio que abriu tarde demais, na freada antes da lombada.

Algumas carregam o cansaço de quem acorda antes do sol. Outras exibem a pressa, o abandono, a esperança nas roupas de bebê penduradas no varal. 

Há ruas onde crianças brincam até anoitecer; outras, onde o medo aprende a andar cedo.

Muros, grades, flores no jardim. Música alta, som de vozes na tevê, fumaça de fogão a lenha. Cachorro latindo, gato no telhado, chorrinho e cantiga de ninar.

Toda rua é um retrato humano.
E mesmo calada, sempre está dizendo alguma coisa.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Entre a memória e a fronteira: Festa do Povo Paraguaio celebra cultura, mães e raízes em Foz do Iguaçu

Em maio, duas datas carregadas de significado histórico e afetivo se encontram no coração da comunidade paraguaia: o Dia da Independência do Paraguai, celebrado em 14 e 15 de maio, e o Dia das Mães. Em Foz do Iguaçu, cidade marcada pela convivência entre povos e culturas da tríplice fronteira, essas celebrações ganharam mais uma vez um tom especial com a realização da tradicional Festa do Povo Paraguaio.

A quinta edição do evento aconteceu no último dia 16 de maio, na Vila Paraguaia, bairro localizado às margens do Rio Paraná, praticamente vizinho do Paraguai. Separados apenas pelo rio que também marca a divisa entre os dois países, Brasil e Paraguai compartilham naquela região muito mais do que território: compartilham histórias, famílias, sotaques e tradições.

A festa é organizada por duas amigas da comunidade, Indyanara e Luiza, esta presidente da associação de moradores da Vila Paraguaia, filha de um dos pioneiros paraguaios que ajudaram a construir a história do bairro em Foz do Iguaçu. Mais do que um evento cultural, a celebração tornou-se um símbolo de pertencimento e preservação das raízes paraguaias em solo brasileiro.

A relação de Foz do Iguaçu com os povos vizinhos vem de longa data. Um levantamento populacional realizado em 1889 registrou 324 habitantes na então colônia militar da região, sendo a maioria paraguaios e argentinos, além da presença indígena e de outros grupos ligados à extração de erva-mate e madeira.

Essa diversidade continua viva até hoje — e pode ser vista em festas como essa.

Durante o evento, o pequeno bairro ganhou cores, música e aromas típicos do Paraguai. Moradores e visitantes acompanharam apresentações culturais, danças tradicionais, músicas folclóricas, além de exposições de artesanato que ajudam a manter viva a identidade do povo paraguaio na fronteira.

Na culinária, um dos grandes destaques foi o tradicional “vori vori”, prato típico paraguaio preparado à base de caldo e bolinhas de farinha de milho e queijo, além da famosa chipa, patrimônio gastronômico muito apreciado pelos moradores da fronteira.

As fotos registradas durante a festa mostram a participação da comunidade, famílias reunidas, crianças, idosos e visitantes celebrando juntos uma herança cultural que atravessa gerações. Em uma cidade conhecida mundialmente pelas Cataratas, eventos como a Festa do Povo Paraguaio revelam outro patrimônio valioso de Foz do Iguaçu: sua diversidade humana e cultural.

Mais do que celebrar datas históricas, a festa reafirma a importância dos imigrantes paraguaios na formação social da cidade e fortalece os laços entre os povos da fronteira, mostrando que cultura também é memória, resistência e união.















sexta-feira, 15 de maio de 2026

O Homem Que Nunca Conseguia Ficar

Havia um homem que sempre trocava de lugar.

Mudava de casa.
Mudava de cidade.
Mudava os móveis.
Mudava os planos.
Mudava até os sonhos.

Achava que o problema era o bairro.
Depois, acreditou que era o salário.
Mais tarde, pensou que era a falta de tempo.
Então culpou o governo, o calor, o trânsito, os vizinhos, a idade.

Comprou coisas que queria muito.
Esperou dias ansiosamente por entregas.
Sonhou com carros.
Com viagens.
Com uma casa silenciosa.
Com um sofá confortável.
Com um quarto escuro e frio o suficiente para dormir sem preocupações.

E por alguns instantes funcionava.

Funcionava quando a chave do carro novo girava.
Funcionava quando o cheiro de tinta fresca tomava conta da casa.
Funcionava quando alguém dizia:
“Agora sua vida vai pra frente.”

Mas havia um problema:
A felicidade sempre chegava com prazo de validade.

Era como segurar água nas mãos.

Quanto mais apertava, mais ela escapava.

Com o tempo, percebeu algo estranho:
Não importava onde estivesse, existia sempre uma sensação de não pertencimento.

Como se sua alma estivesse esperando alguma coisa que o mundo não sabia entregar.

Foi então que começou a notar detalhes pequenos.

Os idosos olhando fotografias antigas em silêncio.
Os cemitérios crescendo.
As rugas surgindo devagar no rosto das pessoas.
Os hospitais lotados.
Os remédios sobre as mesas.
Os “adeus” que ninguém estava preparado para dizer.

Descobriu que o mundo inteiro sofria da mesma saudade.

Uma saudade de algo que muitos nunca tinham visto.

Então lembrou de Abraão.

A Bíblia dizia que ele morava em tendas porque aguardava uma cidade cujo construtor era Deus.

Achou aquilo bonito.

Depois lembrou de José do Egito, que viveu no palácio mais poderoso da Terra, mas pediu que seus ossos não permanecessem no Egito.

Até os grandes homens da Bíblia pareciam carregar a sensação de que estavam apenas de passagem.

Naquela noite, sentado sozinho, o homem percebeu algo assustador e ao mesmo tempo consolador:

Talvez ninguém consiga realmente “ficar” neste mundo.

Talvez a alma humana tenha sido feita para outro lugar.

E então entendeu por que nada satisfaz completamente.

Nem dinheiro.
Nem beleza.
Nem fama.
Nem prazer.
Nem conquistas.

Porque existem vazios que não são daqui.

O mundo oferece distrações.
O Céu oferece lar.

Naquela madrugada, pela primeira vez em muitos anos, ele olhou para cima.

Não para procurar estrelas.

Mas para procurar esperança.

E enquanto a cidade fazia barulho do lado de fora, uma paz silenciosa começou a nascer dentro dele.

Como se Deus sussurrasse:

“Você sente falta de casa porque foi criado para a eternidade.”


Produzido com IA.