sexta-feira, 27 de março de 2026

FERNANDO CRAVIOLA

 Os garotos e garotas da minha época gostavam de rock. Éramos da geração que queria mudar o mundo e nosso canal de comunicação — a música — tinha que falar o que sentíamos. Aproveitar a juventude era ter uma banda.

A nossa chamava-se "Blecaute Social". Beto na guitarra e vocal, Marlon na guitarra e vocal, Marcos no contrabaixo (era o dono da pedaleira, principalmente do overdrive Boss) e eu na bateria GOPE do irmão do Marlon. Sim, na bateria.

Tinha 16 anos, tinha um par de baquetas brancas e fazia aulas com uns músicos recém-chegados do Nordeste. Ministravam aulas em um conservatório musical ali atrás da rodoviária velha (a rodoviária, nessa época, aqui em Foz, ficava entre a Almirante Barroso e a Av. Brasil).

Um dia, o professor de bateria faltou. Sei lá, teve um imprevisto qualquer, e o professor de guitarra é que veio ministrar aula naquela tarde. O cara tocava em uma banda que admirávamos; ele era uma espécie de padrinho das bandas da piazada.

Quem se inscrevia para fazer aula ali é porque tinha a certeza de que iria montar uma banda. E o cara de quem estou falando, daquela aula de improviso ou sei lá o quê, era o Fernando Craviola.

A aula daquela tarde foi uma "discoteca lisa". Nem sei se esse nome existe ou se minha memória autoficcional é quem criou. Repicava com as baquetas no chimbal e, no tempo certo, com uma delas batia na caixa. E mais: tinha que abrir o chimbal para dar aquele efeito de pratos que o baterista dos Incríveis fazia na introdução de uma de suas músicas.

Para entender bem, é aquela batida da música "Camila", da banda Nenhum de Nós.

Nossa banda tem fotos, tem muitos amigos, tem muitas lembranças. O Fernando tem uma história real de músico, pois continuou com a música durante todos esses anos e só encerrou o expediente hoje.

Tempos atrás, tive o privilégio de ministrar aulas para o Fernandinho, na época de escola. Todos os meses, o pai, Fernando, estava lá na escola. Era muito bom conversar sobre música e relembrar histórias.

O Fernandinho se formou e, então, para encontrar o Fernando também não era difícil. Bastava sair para jantar em algum restaurante bacana da cidade que lá estava ele, esbanjando talento, musicalidade, mas, acima de tudo, simpatia.

Fernando sempre será uma das pessoas que levarei como referência musical. Ele alimentou e valorizou nosso sonho de juventude.

A música sempre foi e é algo muito presente na minha vida. Entendi, com o tempo, que ela é a trilha sonora dos nossos momentos. Acho que é por isso que não gosto de repetir muito algumas músicas que hoje não fazem mais sentido para mim.

Fernando, você não lerá essas palavras, mas eu sei que o que já falamos um para o outro, apesar de mais simples do que isso tudo escrito, expressou quem sempre considerei que você era.

Descanse.

Foz do Iguaçu, 08 de janeiro de 2023. 

segunda-feira, 16 de março de 2026

O silêncio do abandono

 O silêncio do abandono

Há abandonos que fazem barulho. Portas que batem, malas arrastadas, passos que descem a escada sem olhar para trás. Mas há também abandonos silenciosos. São os mais profundos. A criança não sabe explicar o que sente. Ela apenas percebe que algo falta. Falta um olhar, uma pergunta simples no fim do dia, um “como foi na escola?”, um abraço sem motivo. No começo, ela espera. Toda criança espera. Espera na porta, espera na janela, espera no coração. Com o tempo, ela começa a inventar explicações. Talvez tenha feito algo errado. Talvez não tenha sido boa o suficiente. Talvez precise se comportar melhor, tirar notas melhores, falar menos, chorar menos. A criança tenta merecer o amor que deveria ser gratuito.

É nesse momento que a psicologia começa a explicar aquilo que o coração da criança ainda não sabe dizer. Quando o vínculo é quebrado cedo demais, algo se desorganiza por dentro. A criança aprende a viver em estado de alerta, com medo de perder novamente quem ama. Alguns crescem tentando agradar o mundo inteiro. Outros aprendem a não confiar em ninguém. Como dizem os psicólogos, a primeira imagem que temos do mundo nasce da forma como fomos cuidados. Se o cuidado falta, o mundo parece um lugar inseguro.

Lembro-me então de uma parte marcante do livro O Vendedor de Sonhos, de Augusto Cury.
Um homem extremamente ocupado, sempre correndo atrás de resultados, reuniões, negócios, compromissos. Um homem que dizia amar a família, mas que nunca tinha tempo para ela. Sua filha tinha uma apresentação na escola. Algo simples para os adultos, mas gigantesco para o coração de uma criança. Ela pediu que o pai fosse. Ele prometeu tentar. Mas o possível nunca aconteceu. O trabalho falou mais alto. A agenda venceu. E a cadeira do pai ficou vazia no auditório. Quando ele chegou em casa, encontrou a filha em silêncio. E ela disse algo que corta qualquer coração:

Pai, eu fiquei esperando você.

Não era uma acusação. Era apenas a verdade de uma criança.

Muitas vezes o mundo adulto cria justificativas para essas ausências. Dizemos que é pelo trabalho, pela correria, pela necessidade. Contamos a nós mesmos que depois compensaremos, que amanhã teremos mais tempo, que um dia faremos diferente. Mas, como canta Legião Urbana na música Quase Sem Querer, “mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira.” Porque no fundo sabemos. Sabemos quando estamos ausentes. Sabemos quando estamos trocando presença por urgência, pessoas por compromissos, abraços por prazos. No mundo adulto aquilo parece pequeno. No mundo da infância é tudo.

Mais tarde, na mesma história, a vida faz aquilo que às vezes faz com todos nós: vira o jogo de maneira brutal. A esposa e a filha entram em um avião. O avião explode. De repente, aquele homem que nunca tinha tempo descobre o peso de um silêncio definitivo. Agora é ele quem espera. Espera por um abraço que não virá mais, por uma voz que não responderá, por uma presença que não voltará. E naquele momento ele entende algo que antes parecia invisível: o abandono que feriu a filha agora ecoa dentro dele.

Quando caminhamos pelas cidades, não é difícil deparar com ecos dessa mesma história espalhados pelas calçadas. Muitos moradores de rua não começaram ali. Houve um dia em que tiveram casa, família, sonhos, mesa posta. Mas a vida, às vezes, quebra laços. Uma separação difícil, um casamento que terminou em silêncio, um filho que se afastou ou até mesmo um emprego perdido.

E quando o coração fica vazio demais, algo tenta ocupar o espaço. Infelizmente, muitas vezes o álcool ou outra qualquer substância entra onde antes moravam pessoas. A garrafa passa a fazer companhia. Algo para anestesiar lembranças. E pouco a pouco a vida vai se desfazendo.

Não é raro perceber que, por trás de muitos rostos cansados nas ruas, existe uma história de abandono recebido ou praticado. Gente que perdeu alguém, ou que se perdeu de si mesma.

A teologia, curiosamente, também fala muito sobre essa experiência humana. A Bíblia guarda histórias de pessoas esquecidas, rejeitadas, deixadas à margem. O próprio Cristo, na cruz, em dor profunda, pronunciou uma frase que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” É como se a fé reconhecesse que o abandono é uma das dores mais universais da humanidade. Mas a mesma fé também insiste em outra esperança. No Salmo 27, versículo 10, uma promessa bíblica de de consolo e acolhimento divino em momentos de rejeição ou abandono família, está escrito: “Mesmo que pai e mãe me abandonem, o Senhor me acolherá.” Talvez seja por isso que a cura, tanto na psicologia quanto na fé, comece quase sempre da mesma forma simples: alguém que permanece.

Nem sempre quem volta é quem foi embora. Às vezes surge um professor, um avô, um amigo, um amor, alguém que chega sem discursos grandiosos. apenas fica. Fica ouvindo, ou fica cuidando, ou simplesmente fica presente.  A psicologia chama isso de reconstrução do vínculo. A teologia chama de graça.

E então aquela criança, que um dia aprendeu a esperar sozinha, descobre algo novo: que nem todas as pessoas vão embora. Algumas permanecem. E às vezes é isso que começa a curar tudo. 

...

Talvez esse texto já tenha terminado para muitos em algum parágrafo que o fez parar e refletir e sem força não quis dar sequência. Mas o incrível que um dia após ter escrito eu percebi que caberia mais um parágrafo aqui que se chamaria  "O autoabandono".

Uma forma de abandono que não acontece na ausência do outro, acontece na ausência de si. Aquele que, muitas vezes, nasce lá atrás, na infância ferida. A pessoa aprende que precisa cuidar de tudo, de todos, agradar, resolver, suportar e, sem perceber, deixa a si mesma por último.

Não cuida da própria saúde, adia sonhos, não se capacita, não se desenvolve. Entrega tudo aos outros e oferece a si apenas o resto.

A psicologia explica isso como um padrão aprendido: quando o amor foi instável ou insuficiente, a pessoa passa a acreditar que precisa merecer existir para o outro, mas não aprende a existir para si. É como se, internamente, repetisse o abandono que um dia sofreu.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Cria em mim, ó Deus, um coração puro.

Existe o ladrão que ama, que se arrepende, que luta contra injustiças, e isso desafia nossa ideia simplista de bem e mal.

Essa frase sempre me volta à mente quando penso nas histórias humanas. Histórias que incomodam porque recusam a divisão confortável entre heróis e vilões, entre luz absoluta e trevas completas. A vida real raramente se encaixa nesses contornos simples. O coração humano é um território mais confuso.

Lembro-me de uma cena da série Narcos. Pablo Escobar, interpretado por Wagner Moura, está sentado em um balanço no jardim da casa na montanha. É a famosa hora silenciosa em que parece que até o vento sabe que algo está terminando. Pouco antes, ainda em fuga, ele havia queimado dois milhões de dólares para aquecer a filha que entrava em hipotermia.

Naquele instante, o dinheiro que havia custado tantas vidas, virou apenas papel. A vida da filha era tudo.

A cena é perturbadora. O mesmo homem conhecido pela violência e pela ausência de piedade queimando uma fortuna para salvar uma criança.

Mas talvez seja justamente aí que mora a verdade incômoda: até as figuras mais temidas são moldadas por laços humanos.Crueldade e amor podem habitar a mesma biografia.Todo mundo ama alguém.

Talvez seja aí que começa o verdadeiro drama humano. Porque amar não nos impede de errar — e errar não nos impede de amar. E quando o ser humano perde o senso do sagrado, perde também o senso do pecado.

Então começa um processo quase imperceptível: um erro chama outro erro; uma justificativa chama outra justificativa; um abismo chama outro abismo.

No início, o erro parece pequeno. Depois vem a explicação que o torna aceitável. Logo surge a frase perigosa que costuma vestir o mal com roupas de virtude: “se a intenção é boa, o crime pode ser justificável.” É nesse momento que o homem começa a se colocar acima da moral. Mas quem se coloca acima da moral assume uma tarefa impossível: tornar-se o próprio juiz. E quase ninguém suporta esse peso.

A literatura conhece bem essa agonia. Raskólnikov, em Crime e Castigo, decide assassinar uma velha agiota acreditando que sua mente superior está além da moral comum. Durante páginas e páginas ele tenta provar para si mesmo que seu crime foi racional, necessário, quase justo. Mas há algo que ele não consegue silenciar. A consciência. Ela não grita de uma vez. Ela sussurra. Mas sussurra todos os dias.

E quanto mais ele tenta justificar o crime, mais a própria alma se torna um tribunal. No final, Raskólnikov descobre que a paz não nasce das explicações. Ele nasce da confissão. Não é apenas remorso emocional, é reconhecimento moral.

Essa batalha interior não pertence apenas à literatura russa. O apóstolo Paulo descreveu o mesmo conflito com uma honestidade quase dolorosa: “Pois não faço o bem que quero, mas justamente o mal que não quero fazer é que eu faço.” É a confissão mais antiga da humanidade.

Dentro de nós existe uma lei que deseja o bem e outra que insiste em nos puxar para baixo. É por isso que Provérbios resume a questão com simplicidade antiga:

“A justiça conduz à vida, mas quem segue o mal vai para a morte.”

Essa luta atravessa séculos de histórias. Camilo Castelo Branco escreveu sobre ela em O Bem e o Mal. Tolkien a transformou em epopeia em O Senhor dos Anéis, quando mostra como o poder pode corromper até os corações mais nobres. Oscar Wilde revelou sua face mais decadente em O Retrato de Dorian Gray, quando a alma se deteriora enquanto o rosto permanece intacto.

Mas talvez uma das imagens mais belas dessa batalha esteja em As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis. Ali, a teologia aparece disfarçada de conto infantil. Edmundo trai os irmãos. Escolhe o lado errado. Vende a própria família por um punhado de promessas. Pela lógica da justiça antiga, ele deveria pagar pela culpa. Mas então Aslan se oferece para morrer em seu lugar. O leão inocente caminha até a Mesa de Pedra, cercado de zombaria e violência, e aceita o sacrifício. A cena ecoa uma história ainda mais antiga.

No evangelho, Jesus é crucificado entre dois ladrões. Um deles ri. O outro confessa. No meio da dor, ele reconhece o que poucos ali tiveram coragem de admitir: que a justiça estava sendo invertida naquele momento. E então Jesus responde com três palavras que carregam toda a esperança do cristianismo: Hoje mesmo (não depois de provar algo) estará Comigo (não sozinho) no Paraíso (restaurado).

É curioso perceber que, naquele monte, quem reconhece a justiça não são os homens considerados justos. São os criminosos. Os religiosos condenam. O ladrão confessa. Talvez porque quem já esteve no fundo do abismo reconheça melhor a profundidade dele.

No fim das contas, todas essas histórias, bíblicas, literárias ou históricas, apontam para a mesma verdade silenciosa: o maior tribunal do mundo não está nas cortes humanas. Ele está dentro de nós. O maior castigo não vem da sentença de um juiz. Vem da consciência. E talvez por isso uma das orações mais humanas já escritas continue ecoando através dos séculos, no Salmo 51: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro.”

Porque, no fundo, a redenção não começa quando alguém consegue provar que estava certo. Ela começa quando alguém finalmente tem coragem de admitir que estava errado.