segunda-feira, 16 de março de 2026

O silêncio do abandono

 O silêncio do abandono

Há abandonos que fazem barulho. Portas que batem, malas arrastadas, passos que descem a escada sem olhar para trás. Mas há também abandonos silenciosos. São os mais profundos. A criança não sabe explicar o que sente. Ela apenas percebe que algo falta. Falta um olhar, uma pergunta simples no fim do dia, um “como foi na escola?”, um abraço sem motivo. No começo, ela espera. Toda criança espera. Espera na porta, espera na janela, espera no coração. Com o tempo, ela começa a inventar explicações. Talvez tenha feito algo errado. Talvez não tenha sido boa o suficiente. Talvez precise se comportar melhor, tirar notas melhores, falar menos, chorar menos. A criança tenta merecer o amor que deveria ser gratuito.

É nesse momento que a psicologia começa a explicar aquilo que o coração da criança ainda não sabe dizer. Quando o vínculo é quebrado cedo demais, algo se desorganiza por dentro. A criança aprende a viver em estado de alerta, com medo de perder novamente quem ama. Alguns crescem tentando agradar o mundo inteiro. Outros aprendem a não confiar em ninguém. Como dizem os psicólogos, a primeira imagem que temos do mundo nasce da forma como fomos cuidados. Se o cuidado falta, o mundo parece um lugar inseguro.

Lembro-me então de uma parte marcante do livro O Vendedor de Sonhos, de Augusto Cury.
Um homem extremamente ocupado, sempre correndo atrás de resultados, reuniões, negócios, compromissos. Um homem que dizia amar a família, mas que nunca tinha tempo para ela. Sua filha tinha uma apresentação na escola. Algo simples para os adultos, mas gigantesco para o coração de uma criança. Ela pediu que o pai fosse. Ele prometeu tentar. Mas o possível nunca aconteceu. O trabalho falou mais alto. A agenda venceu. E a cadeira do pai ficou vazia no auditório. Quando ele chegou em casa, encontrou a filha em silêncio. E ela disse algo que corta qualquer coração:

Pai, eu fiquei esperando você.

Não era uma acusação. Era apenas a verdade de uma criança.

Muitas vezes o mundo adulto cria justificativas para essas ausências. Dizemos que é pelo trabalho, pela correria, pela necessidade. Contamos a nós mesmos que depois compensaremos, que amanhã teremos mais tempo, que um dia faremos diferente. Mas, como canta Legião Urbana na música Quase Sem Querer, “mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira.” Porque no fundo sabemos. Sabemos quando estamos ausentes. Sabemos quando estamos trocando presença por urgência, pessoas por compromissos, abraços por prazos. No mundo adulto aquilo parece pequeno. No mundo da infância é tudo.

Mais tarde, na mesma história, a vida faz aquilo que às vezes faz com todos nós: vira o jogo de maneira brutal. A esposa e a filha entram em um avião. O avião explode. De repente, aquele homem que nunca tinha tempo descobre o peso de um silêncio definitivo. Agora é ele quem espera. Espera por um abraço que não virá mais, por uma voz que não responderá, por uma presença que não voltará. E naquele momento ele entende algo que antes parecia invisível: o abandono que feriu a filha agora ecoa dentro dele.

Quando caminhamos pelas cidades, não é difícil deparar com ecos dessa mesma história espalhados pelas calçadas. Muitos moradores de rua não começaram ali. Houve um dia em que tiveram casa, família, sonhos, mesa posta. Mas a vida, às vezes, quebra laços. Uma separação difícil, um casamento que terminou em silêncio, um filho que se afastou ou até mesmo um emprego perdido.

E quando o coração fica vazio demais, algo tenta ocupar o espaço. Infelizmente, muitas vezes o álcool ou outra qualquer substância entra onde antes moravam pessoas. A garrafa passa a fazer companhia. Algo para anestesiar lembranças. E pouco a pouco a vida vai se desfazendo.

Não é raro perceber que, por trás de muitos rostos cansados nas ruas, existe uma história de abandono recebido ou praticado. Gente que perdeu alguém, ou que se perdeu de si mesma.

A teologia, curiosamente, também fala muito sobre essa experiência humana. A Bíblia guarda histórias de pessoas esquecidas, rejeitadas, deixadas à margem. O próprio Cristo, na cruz, em dor profunda, pronunciou uma frase que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” É como se a fé reconhecesse que o abandono é uma das dores mais universais da humanidade. Mas a mesma fé também insiste em outra esperança. No Salmo 27, versículo 10, uma promessa bíblica de de consolo e acolhimento divino em momentos de rejeição ou abandono família, está escrito: “Mesmo que pai e mãe me abandonem, o Senhor me acolherá.” Talvez seja por isso que a cura, tanto na psicologia quanto na fé, comece quase sempre da mesma forma simples: alguém que permanece.

Nem sempre quem volta é quem foi embora. Às vezes surge um professor, um avô, um amigo, um amor, alguém que chega sem discursos grandiosos. apenas fica. Fica ouvindo, ou fica cuidando, ou simplesmente fica presente.  A psicologia chama isso de reconstrução do vínculo. A teologia chama de graça.

E então aquela criança, que um dia aprendeu a esperar sozinha, descobre algo novo: que nem todas as pessoas vão embora. Algumas permanecem. E às vezes é isso que começa a curar tudo. 

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