segunda-feira, 15 de junho de 2026

Sou filho das selvas

Uma luz é filtrada pelas folhas densas das árvores e clareia o chão úmido da mata. Uma imagem que, para os japoneses, poderia ser interpretada como um komorebi perfeito.

Agora é possível ouvir passos que se aproximam. São inúmeros e parecem estar ritmados ao som de uma fanfarra. Mais próximos, mais próximos, o som aumenta como se alguém mexesse no botão de volume de um rádio. O que cantam parece ser algo tão puro, valente e encantador:

"Meu canto de morte,

Guerreiro, ouvi:

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci;

Guerreiros, descendo

Da tribo tupi."

Que momento glorioso! Eu ali, um simples espectador de um dos desfiles mais encantadores que já presenciei, um deslumbre inesquecível. Os indígenas passam, em uma cadência perfeita, ali, na minha frente. Parecem não se importar com a minha presença. Estico o braço e toco em um deles. Ele não se mexe. Continua caminhando. Cantam juntos, olhando para o horizonte, como se seguissem um destino conhecido apenas por eles.

Então, de repente, tudo começa a desaparecer. Primeiro os sons. Depois as cores. Por fim, as figuras.

Abro os olhos.

— Guilherme! Você está dormindo? — pergunta meu pai, sorrindo.

Olho ao redor. Estou no banco de trás do carro. Meu pai dirige pela estrada enquanto meu irmão observa a paisagem pela janela.

— Já estamos chegando? — pergunto, ainda confuso.

— Estamos quase nas Cataratas — responde meu pai.

Sento-me direito. O coração ainda bate acelerado por causa do sonho. Em poucos dias seria a apresentação do Dia do Índio na escola, e eu precisava decorar o poema I-Juca Pirama. Talvez por isso aqueles versos não saíssem da minha cabeça.

Quando chegamos, o rugido das águas tomou conta de tudo. Era um som poderoso, impossível de ignorar. Caminhamos pelas trilhas cercadas pela mata e, a cada curva, eu me sentia mais impressionado.

Foi então que encontramos um guia.

Ele era um senhor de fala tranquila e olhos atentos, daqueles que parecem guardar muitas histórias.

— Vocês conhecem a lenda das Cataratas? — perguntou.

Balancei a cabeça negativamente.

— Então vou contar.

Sentamos próximos ao mirante. Atrás dele, a névoa das quedas-d'água subia como fumaça branca em direção ao céu.

— Há muito tempo — começou o guia — vivia nesta região uma bela jovem indígena chamada Naipi. Sua beleza era conhecida por todas as tribos. Segundo a tradição, ela havia sido prometida ao deus-serpente M'Boy. Mas Naipi se apaixonou por um jovem guerreiro chamado Tarobá. E Tarobá também a amava. Os dois decidiram fugir juntos pelo rio. Porém, M'Boy descobriu a fuga e ficou furioso. Com sua enorme força, cortou a terra, abriu uma gigantesca fenda e fez as águas despencarem em uma queda colossal. Assim nasceram as Cataratas. Diz a lenda que Tarobá foi transformado em uma árvore às margens das quedas. Naipi tornou-se uma rocha no meio das águas. E M'Boy permanece ali, guardando para sempre seu reino.

Por alguns instantes, fiquei em silêncio. Observei a floresta. O vento. A névoa. O som das águas. Apertei os olhos com as duas mãos. Será que estou sonhando novamente? Olhei para o lado. Ali estava meu pai em pé, segurando a mão do meu irmão. Agora era real. Estava verdadeiramente nas Cataratas do Iguaçu e alguém havia contado uma história. Para testar se era real, resolvi fazer uma pergunta:

— Estamos em solo indígena?

O guia, mais que depressa, respondeu que sim com a cabeça e, olhando bem nos meus olhos, disse:

— A América toda é solo indígena. Foz do Iguaçu é apenas um dos palcos onde contamos histórias que jamais devem ser esquecidas.

Nessa hora, parecia que o guia havia se esquecido de todos os outros que ali estavam e, em uma conversa unicamente comigo, decidira contar mais sobre tudo o que sabia.

— Para você ter uma ideia, pequeno garoto, estamos em uma região trinacional em que os três países preservam muito da cultura dos povos originários. As Cataratas do Iguaçu não são uma das maravilhas da natureza exclusivamente brasileira; elas dividem os territórios brasileiro e argentino. As Cataratas são um exemplo claro de que Deus pode dar uma bênção que beneficia duas nações. Não se esqueça disso.

Que profundo aquilo que ele havia acabado de falar. Mas isso me fez concluir que, se as duas nações não entendessem isso, poderiam se tornar inimigas. O guia queria me contar mais. Eu parecia querer tirar uma conclusão de cada nova história.

— Vocês já foram a Ciudad del Este? — perguntou o guia. — Passando pela Ponte da Amizade, ao olhar para o lado direito da ponte — isso para quem está indo para o Paraguai —, você observará uma ilha: a Ilha Acaray. Moradores mais antigos também a chamam de Ilha das Cobras. Um detalhe importante: essa ilha pertence ao Brasil. — risos. — Aqui temos uma história não menos importante que a Lenda das Cataratas, mas muitas pessoas não a conhecem. A versão mais conhecida da história conta que Jupira era uma jovem indígena de extraordinária beleza que vivia na ilha. Tão bela era que despertava o interesse de todos os guerreiros da região. Para protegê-la, seus pais a mantinham na parte mais alta da ilha, longe dos visitantes. Com o passar dos anos, Jupira cresceu sem se apaixonar por ninguém e, segundo a lenda, seu espírito permanece na ilha até os dias de hoje, como uma guardiã daquele lugar. Alguns chamam essa narrativa de O Mito da Princesa Jupira e ainda dizem que o pai a isolou no topo da ilha para que nenhum dos pretendentes chegasse até ela.

— Sabe o que significa Acaray? O som "i" no final das palavras, na língua guarani, geralmente indica o diminutivo. E no início significa rio ou água.

Meu Deus! Quanta coisa estava passando pela minha cabeça. Então, Rio Iguaçu é rio de água? Preciso saber o que significa "guaçu" em tupi-guarani. Mas uma coisa eu já estava percebendo: nossa língua, nossa cultura, que mistura era essa? Agora entendi o que o professor de História disse na aula sobre a formação do povo brasileiro: somos um amálgama. Estou cada vez mais curioso para descobrir cada história, cada cantinho dessa cidade.

— Pequeno menino, Acaray significa "pequena coroa". E dizem que ela ainda está lá. Ela é a guardiã da região. — O velho sorriu. — Algumas pessoas dizem que, em certas manhãs de neblina, uma jovem pode ser vista no alto da ilha. Outros juram que é apenas o desenho das árvores contra a luz do amanhecer.

Meu pai me puxou pelo braço. Hora de ir embora. Meu irmão queria comprar uma camiseta. Meu pai comprou algumas lembranças para expor na estante de casa e mostrar para todo mundo que havia visitado as Cataratas do "rio grande" (durante o momento em que eles escolhiam seus souvenires, eu pesquisei no Google o significado de Iguaçu). Eu só queria ir para o carro e poder digerir tudo aquilo que havia acontecido durante o passeio.

No caminho de volta, o cansaço venceu novamente. Fechei os olhos e me vi outra vez na mata. A luz atravessava as folhas das árvores. Ao longe, ouvi o canto dos guerreiros. Mas, desta vez, não caminhei em direção a eles. Caminhei em direção ao rio. Lá estava Jupira. Envolvida pela névoa das águas, como se fosse parte da própria floresta.

— Você encontrou o que procurava? — perguntou ela.

Pensei nos guerreiros do épico de Alencar. Na lenda de Naipi e Tarobá. Nas águas das Cataratas. Então respondi:

— Acho que sim.

Ela sorriu.

— E o que encontrou?

Olhei para a correnteza.

— Histórias.

Ela apontou para o meu peito.

— Você encontrou pertencimento. As histórias estavam aqui antes de você nascer e continuarão aqui depois que você partir. Mas agora elas também vivem em você.

A névoa se tornou mais intensa. Os guerreiros começaram a cantar. As águas rugiram. As árvores dançaram com o vento. E tudo desapareceu.

Quando abri os olhos, estava no auditório da escola. Meu nome havia sido chamado. Caminhei até o palco segurando a folha do poema. Respirei fundo. E comecei:

"Meu canto de morte,

Guerreiro, ouvi..."

Não enxergava apenas palavras. Via os guerreiros atravessando a mata. Via Naipi e Tarobá navegando pelo rio. Via Jupira guardando a floresta. Via as Cataratas.

Enquanto existir alguém disposto a contar uma lenda, recitar um poema ou ouvir o canto da floresta, eles continuarão vivos.