sexta-feira, 26 de junho de 2026

Assim que luto minhas guerras - Vencemos a covid-19

 

O Paradoxo da Presença e o Início de Tudo

A COVID-19 aproximou e afastou pessoas ao mesmo tempo. Um paradoxo. Aproximou aqueles que descobriram o valor da presença e afastou aqueles cujas relações já estavam destruídas. Talvez uma das maiores heranças da pandemia tenha sido a consciência de que o tempo compartilhado é limitado. Muitas famílias passaram a compreender que celebrar aniversários, reunir-se em volta de uma mesa ou simplesmente visitar um parente deixou de ser algo comum para se tornar algo precioso.


O ano de 2020 começou como uma história nova. Há cinco anos havíamos implantado a EJA DOM EAD aqui em Foz do Iguaçu e agora estávamos vivendo uma transição, algo que culminaria em uma nova sede. Iniciamos as matrículas e a procura estava excelente; muitas pessoas estavam reavivando seus sonhos de concluir os estudos. O ano letivo começou com salas cheias. Porém, o dia 20 de março se tornou inesquecível para muitas pessoas: o primeiro lockdown.

As notícias vinham pouco a pouco. Sabíamos que um mal se aproximava, mas muitos não acreditavam na sua magnitude. Já havíamos passado por epidemias como a gripe suína e a gripe aviária, mas a última grande pandemia, a Gripe Espanhola, não fazia parte da nossa geração. Era apenas página de livro; já haviam se passado 100 anos e o mundo agora era outro. Talvez esse tenha sido o fator de descrédito da população. Muitos, com certeza, acreditaram que era "só uma gripinha". Mas não foi.

O Alerta Global e a Chegada ao Brasil

Tudo começou de maneira muito sutil. Os noticiários, no final de 2019, alertaram que autoridades de Wuhan, na China, haviam identificado casos de uma pneumonia causada por um novo coronavírus. O mundo deu de ombros. Era final de ano, ninguém queria perder suas férias ou suas festas programadas. Além do mais, no mundo das Fake News, era só uma notícia a mais. Durante quase dois meses o vírus circulou sem parar, como hoje bem sabemos, e somente no final do mês de janeiro de 2020 a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional.

Imaginem a quantidade de pessoas que já estavam contaminadas nesse momento. Tudo estava acontecendo muito rápido. Tanto que, poucos dias após a declaração da OMS, o primeiro caso era confirmado no Brasil: um homem em São Paulo que havia retornado da Itália. A data dessa constatação? Dia 26 de fevereiro, quarta-feira de cinzas, logo após o Carnaval. Conseguem imaginar o nível de contaminação?

E agora? Como ficariam os outros eventos que exigiam público? O mundo vive de aglomerações — palavra essa que muito se ouviu e cujo ato muito se proibiu durante a pandemia. O calendário parecia datar não só os dias, mas sim o horror. Em 11 de março, após mais de 100 anos, vivia-se verdadeiramente um evento mundial. A Primeira e a Segunda Guerra Mundial não chegariam aos pés do que viria pela frente. A OMS declarava oficialmente a COVID-19 como uma pandemia. Uma pandemia é a disseminação global de uma doença infecciosa; declara-se quando um patógeno se espalha por diversos continentes simultaneamente, afetando um grande número de pessoas. Era isso que viveríamos nos próximos dias, meses e anos.

O Dia em que o Mundo Parou em Foz

Chegamos a 20 de março de 2020. Era uma quarta-feira à noite, com alunos e professores em sala de aula. Aquele seria o último dia para atividades coletivas decretado pela Vigilância Sanitária de nossa cidade, em cumprimento a um decreto nacional. Estávamos preparados para, no dia seguinte, interrompermos as atividades pelos próximos 30 dias. De repente, a Guarda Municipal chegou ao nosso colégio acompanhando um agente sanitário disposto a fechar a escola e ainda aplicar uma multa. Foi um momento de extrema tensão. Sabíamos da gravidade e estávamos com tudo pronto para, no dia seguinte, cumprir a lei e não reunir mais pessoas.

A data foi marcante. Começaram os lockdowns e quarentenas em vários países. Escolas, universidades, fronteiras, estádios, igrejas e comércios foram fechados em diversas regiões do mundo. Ninguém mais transitava para Ciudad del Este, no Paraguai: Ponte da Amizade fechada. Ninguém transitava para Puerto Iguazú, na Argentina: Ponte da Fraternidade fechada. Verdadeiramente vivíamos uma pandemia.

Os números começaram a assustar. Em abril, o Brasil ultrapassou os 400 mil casos. Entre julho e agosto, vivemos a primeira grande onda, e o país registrou mais de 1.500 mortes em um único dia pela primeira vez. Foi um ano de "abre e fecha tudo", uso obrigatório de máscaras e higienização rigorosa ao ir a mercados ou farmácias. Os comércios e negócios que permaneceram abertos foram classificados oficialmente como serviços essenciais, denominação estabelecida pela Lei Federal nº 13.979/2020 e regulamentada por decretos que garantiam o funcionamento das necessidades básicas da população.

A Adaptação do DOM e a Negligência nas Ruas

Ficamos sem aulas presenciais o ano todo. O admirável é que o DOM adaptou-se tão rapidamente ao "novo normal", como era costume falar, que não ficou um só dia sequer sem aulas. Migramos para o EAD de uma forma magistral. Na semana seguinte, criamos os grupos de WhatsApp que se tornariam as salas de aula e fizemos uma força-tarefa para a entrega das apostilas. Na sala da minha casa, organizei um estúdio e começamos a enviar teleaulas e atividades, além de realizar plantões nos mesmos horários das aulas. Nada parou.

Terminamos o semestre com pouca desistência e começamos o período seguinte com um número significativo de alunos. No dia 15 de outubro de 2020, inauguramos a nossa sede nova do DOM e, naquele final de ano, o número de pessoas que concluiu o Ensino Médio foi excelente. Contudo, paralelamente, existiam números horríveis. O Brasil encerrou o ano de 2020 com 7.675.781 casos confirmados de COVID-19 e 194.976 mortes registradas oficialmente, segundo dados do G1. Estima-se que, no primeiro ano, cerca de 3 milhões de mortes foram registradas no mundo. Era como se praticamente toda a população de Curitiba e sua região metropolitana sumisse do mapa.

O brasileiro é um caso a ser estudado. Parecia que, mesmo diante dos dados e dos noticiários diários, a população não acreditava integralmente no perigo. Não era raro a fiscalização flagrar festas clandestinas. Isso só ampliava a ação do vírus, que estava sendo implacável. Muitos foram os casos de jovens que frequentavam baladas e, ao voltar para casa, contaminavam a família toda: irmãos, pais e avós. Muitos se cuidavam ao máximo, mas o vírus vinha até eles pelas pessoas da própria convivência. Parecia injusto; era pura negligência.

O Vírus Bate à Porta

O vírus chegou perto de mim pela primeira vez através da minha esposa (na época, minha namorada), que testou positivo. Entramos em quarentena. Vivemos dias de grande tensão, pois o remédio era apenas aguardar o corpo reagir. Tivemos contato até o dia em que se confirmou a contaminação. Seus filhos foram para a casa do pai e todos testaram positivo. Mas, como tudo ocorre conforme os propósitos de Deus, o vírus não havia chegado até mim naquele momento.

O ano de 2021 estava para começar e já existia a promessa da vacinação. Mas seria o fim da pandemia? Eu não sabia que, no mês seguinte, eu seria o próximo. Fevereiro de 2021 tornou-se o mês e o ano que mudariam a minha vida para sempre. Vivíamos o pior momento da crise sanitária, com colapso hospitalar em vários estados, falta de leitos de UTI e uma média superior a 3 mil mortes por dia. Foi exatamente nesse cenário que testei positivo.

No início, acreditei que seria fácil. Controlava a temperatura e a saturação todos os dias, mas percebia que meu corpo não reagia. Queria ser forte, mas não era tão simples assim. No sétimo dia da quarentena obrigatória, peguei o carro e fui até a empresa assinar alguns documentos urgentes. Pedi para os meninos deixarem os papéis no saguão, do lado de fora da escola. Era uma sexta-feira e eu acreditava que na semana seguinte já voltaria ao trabalho. Para minha surpresa, ao chegar lá, percebi que estava com dificuldade de focar a visão e senti uma falta de ar como nunca havia ocorrido antes. Parei, peguei os documentos, assinei e pedi para a secretaria não mexer neles até segunda-feira. Voltei para casa.

A Descida ao Vale e o Hospital Costa Cavalcante

Fiquei na casa da minha namorada, pois ela já estava imune por ter passado pela contaminação. Ao retornar, senti-me extremamente fraco e abatido. Naquela noite, as coisas pioraram drasticamente; parecia que eu não conseguia respirar. Foi então que a Marilu agendou um raio-X para a manhã de sábado. O exame só pôde ser feito no final do expediente, após o meio-dia. Fomos para o hospital.

Com muita dificuldade, caminhei do carro até a sala do exame. O técnico percebeu a gravidade do caso e, zelando pela ética, solicitou que eu fosse encaminhado com urgência para atendimento. Fomos direto para o hospital do convênio, onde meu irmão e minha cunhada logo se juntaram a nós. Ali senti que estava prestes a viver o momento mais difícil da minha vida em relação à saúde. A Marilu saiu da sala de triagem e foi chorar do lado de fora. "Todo mundo está morrendo" era o que ouvíamos. Pensei: seria a minha vez?

Fui encaminhado para o internamento no Hospital Costa Cavalcante. Como providência divina, a enfermeira do plantão já havia sido nossa aluna, e a médica que fez o primeiro atendimento também. Eu estava em boas mãos. Passei a tarde recebendo oxigênio enquanto aguardava uma vaga na UTI. Eu tentava manter a tranquilidade, mas sabia que, para os que ficaram do lado de fora, o desespero era grande. Assim que a vaga foi liberada, vivi a minha primeira experiência real de internação em um hospital; eu nunca tinha tomado sequer um soro na vida. Trouxeram um saco plástico para eu guardar minhas roupas, chinelos, celular, carteira e até o aparelho auditivo. Saí da cama e, em uma cadeira de rodas, fui levado para a UTI COVID. Aquele corredor parecia não ter fim.

Na UTI: A Guerra Espiritual e o Clamor

Ao chegar, fui para o leito — era apenas um paciente por quarto. Naquele leito de UTI, eu ficaria pelas próximas 48 horas, que seriam decisivas. Já na chegada, colocaram-me no soro e no oxigênio. Eram muitos papéis para assinar. Como o Hospital Costa Cavalcante estava utilizando o protocolo do Hospital Albert Einstein, seria ministrado em mim o plasma coletado de pessoas que já haviam vencido o coronavírus. Precisei autorizar medicamentos e procedimentos de emergência que fossem necessários para salvar minha vida.

O que quero relatar agora é o motivo principal de esta história estar no livro. Na primeira noite de UTI, já sob o efeito de vários medicamentos, comecei as sessões de Ventilação Mecânica Não Invasiva (VNI). Já adianto que, apesar de ter ficado oito dias internado, graças a Deus e às orações, intercessões e novenas das pessoas que lutaram comigo, não precisei ser intubado. Durante a primeira sessão de ventilação, algo aconteceu e me trouxe a certeza de que eu sairia dali com vida.

O enfermeiro chegou com a máquina acompanhado do fisioterapeuta. Explicaram o procedimento e instalaram o equipamento. Perguntei quanto tempo duraria: as sessões seriam de 40 minutos a uma hora, quatro vezes ao dia. Perguntei se poderia ficar mais tempo, e o fisioterapeuta respondeu que, quanto mais eu aguentasse, melhor seria. Coloquei na cabeça que ficaria o máximo de tempo que conseguisse. Passada a primeira hora da sessão, eles vieram para desligar o aparelho. Com um sinal de mão — já que a máscara cobria todo o meu rosto e impulsionava o ar de forma a forçar a respiração cadenciada —, avisei que queria continuar. Eles ficaram admirados. Usei o respirador por quase três horas seguidas. O suor escorria pelo corpo; parecia que eu tinha corrido uma maratona, tamanha foi a força física necessária. O enfermeiro ao meu lado parecia preocupado, até que fiz o sinal para parar. Quando tiraram a máscara, senti um vigor físico que há dias não experimentava. Tomado por uma força estranha, comecei a cantar e a louvar em voz alta:

"Assim que luto minhas guerras

Assim que luto minhas guerras

Assim que luto minhas guerras

Assim que luto minhas guerras

Parece que estou cercado

Mas sou guardado por ti

Parece que estou cercado, Jesus

Parece que estou cercado

Mas sou guardado por ti"

Notei que não era apenas uma luta biológica para me manter vivo; eu havia entrado em uma verdadeira guerra espiritual naquele momento. Precisava resistir, e era uma resistência não só contra a carne e o sangue, mas uma resistência de FÉ. A música Minhas Guerras faz referência à batalha lutada pelo povo de Deus liderado pelo rei Josafá. O inimigo era imenso e o povo estava com medo, mas a estratégia dada por Deus foi: "Não temas, esta guerra é minha". Assim como o povo daquela época colocou o coral à frente do exército, ali estava eu louvando. Outras profissionais da saúde vieram até o quarto e eu continuei. O respirador seria a minha ferramenta, mas Deus era a minha espada, meu escudo e meu capacete. Eu disse ao enfermeiro: "É assim que eu vou vencer essa guerra". Ele sorriu de canto; era a primeira noite e ele certamente sabia o que ainda estava por vir.

A Mão de Deus no Mar Revolto

Logo depois, um silêncio profundo tomou conta do lugar e fiquei completamente só. As paredes verdes do hospital pareciam estar se aproximando e o quarto ficou minúsculo. A luz apagada criava um ambiente de sombras estranhas. Comecei a orar profundamente. Deus estava ali, eu podia sentir. Mas por que eu estava passando por aquilo? As paredes pareciam sufocar ainda mais. Seriam os efeitos dos medicamentos? Falta de oxigênio?

Estiquei a mão no vazio. Em uma das paredes, vi nitidamente um mar revolto se formando. Ali, de mão estendida em direção à parede, uma frase ecoou forte na minha mente: "Eu venço, mas se estiver segurando as mãos de Deus". Clamei em pensamento: "Senhor, segura a minha mão, eu quero andar sobre estas águas". Naquele instante, senti como se uma mão viesse em minha direção e segurasse firmemente a minha mão estendida. O mar imediatamente se acalmou e as paredes voltaram a se afastar. "É assim que luto minhas guerras", pensei.

Um salmo que sempre recitamos em viagens familiares fez-se presente na minha oração: "Elevo os meus olhos para os montes; de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra", seguido por: "O Senhor é a minha força e o meu escudo; nele o meu coração confia, e dele recebo ajuda". Eu sabia que seria um milagre. A noite, enfim, acalmou.

As frases técnicas que ouvi, como "se precisar, teremos que te intubar" e "esta será a noite que determinará os próximos dias", não seriam o meu diagnóstico final. De madrugada, senti fome. O enfermeiro — um verdadeiro anjo — providenciou algo para eu comer. Esse profissional passou dois plantões comigo e tinha uma ternura e um cuidado que, com certeza, foram fundamentais na minha recuperação.

A Segunda Noite e o Quarto ao Lado

Passei a noite em claro e o segundo dia chegou. Durante a madrugada, enfrentei o pior dos exames: a gasometria. O café da manhã foi esperado como se fosse um banquete. Continuei usando o respirador não invasivo quantas vezes fosse necessário. Foi um dia inteiro de observação; a última noite daquelas primeiras 48 horas seria a decisiva. A essa altura, não era raro um enfermeiro entrar no quarto e comentar que já sabia que eu era o "paciente cantor". Acho que fiquei famoso naquele bloco do hospital. O fisioterapeuta do plantão seguinte queria até detalhes de como eu havia aguentado três horas direto na máquina.

Durante a tarde, fizeram acessos centrais para a administração de medicamentos pesados, o que me assustou bastante. Mas era o protocolo necessário. A segunda noite estava por vir, e ela veio. Logo após o jantar, fui colocado novamente no respirador. O médico já havia feito a visita de rotina e, pelo que percebi, os parâmetros estavam normais. Porém, por volta das 23h, senti a minha respiração extremamente cansada. Olhava pelo reflexo da TV desligada os monitores que ficavam atrás da minha cabeceira. Os batimentos cardíacos pareciam estáveis, a temperatura estava um pouco acima e a saturação, de tempo em tempo, despencava. Era o alerta.

Os enfermeiros vieram às pressas e precisei ser colocado na posição de pronação (de bruços). Faltava o ar, era terrivelmente desconfortável e o corpo inteiro doía. Foi mais uma noite inteira em claro. A equipe entrava no quarto com muito mais frequência; parecia que o hospital vivia um clima tenso e diferente naquela madrugada. Eles entraram conversando baixinho e, mesmo sem meus aparelhos auditivos, consegui entender que haviam acabado de perder o paciente do quarto ao lado.

Pedi para me deitarem na posição normal novamente, pois estava profundamente angustiado. Do meu leito, eu conseguia avistar o paciente do quarto da frente e percebi que ele estava intubado. Naquela madrugada fria, vi médicos e enfermeiros fazendo massagem cardíaca desesperada nele — ou nela —, mas a pessoa acabou falecendo. Fecharam a porta. No meu isolamento e solidão, a música voltou a brotar: cantei alto, desafiando o medo.

"Assim que luto minhas guerras

Assim que luto minhas guerras

Parece que estou cercado

Mas sou guardado por ti"

"Senhor, não me abandone. Acalme esta tempestade", eu clamava. Às 4h da manhã, veio a terrível gasometria novamente. Como doía. Mas a noite finalmente se foi e o dia amanheceu.

A Transferência e a Visita Clandestina

O café chegou e, com ele, a assistente social, os enfermeiros e a médica da manhã, Dra. Gisele. Eu tinha sobrevivido à segunda noite. "Glória a Deus", eu repetia mentalmente.

— Está bem, Sr. Emerson? — perguntou a médica.

Respondi que sim e arrisquei:

— Quando vou para casa?

— Ainda é cedo para decidirmos isso, mas tenho uma excelente notícia para o senhor: vamos mudar de UTI. Após as 12h, o senhor irá para a UTI 2, que é focada na recuperação do pulmão. Ainda há risco de o quadro se agravar, mas o seu corpo correspondeu muito bem aos medicamentos.

Mais um glória a Deus! Mas antes da transferência, tive uma grande surpresa. A assistente social fez uma videoconferência com a Marilu, e ela conseguiu incluir outros membros da família na chamada. Que alegria poder mostrar para todos que, mesmo contra as expectativas, eu estava bem. Aproveitei o momento para delegar algumas ações da escola e passei algumas senhas de acesso. Era apenas uma questão de tempo.

E as surpresas não pararam por aí. Se existe uma pessoa que sofreu, mas não se abateu, foi a minha namorada. Ela conseguiu a façanha de entrar clandestinamente na UTI. Não me perguntem como, mas, de repente, lá estava ela, toda paramentada com roupas hospitalares, fazendo uma visita secreta. Tomei um susto tão grande que meu coração acelerou. Foi um misto de alegria extrema com o medo de vê-la se expondo àquela carga viral. A emoção quase complicou as coisas: no momento em que vi a Marilu, minha saturação alterou no monitor. Fiquei preocupado, mas ela, valente, permaneceu ali em pé, ao meu lado. Que dedicação, que carinho e que coragem!

Na UTI 2: O Cenário de Guerra e os Aparelhos Auditivos

No meio da tarde, fui finalmente transferido para a UTI 2. Senti um alívio enorme. Agora eu dividia o espaço com outras pessoas no mesmo ambiente, havia uma televisão ligada e mais movimentação. Ao meu redor, vi alguns convalescentes em estados muito piores que o meu: alguns usando fraldas, outros com sondas — uma verdadeira enfermaria de guerra. Os fortes estavam sobrevivendo.

Na primeira noite nessa nova ala, tive o privilégio de ser cuidado pelo Matheus, filho da Deilde, nossa secretária documentadora da EJA e do CEPFI aqui em Foz do Iguaçu. Que profissionalismo e cuidado desse menino! Ele me fez sentir em casa. À noite, senti muito frio e tomei muita água, mas não parei de fazer as sessões na máquina de oxigênio, da qual eu já havia tomado posse mentalmente desde o primeiro dia.

Os dias iam passando. Em uma das madrugadas, a TV exibia o filme O Menino da Porteira, com o cantor Daniel. O aparelho estava sem volume, mas eu lia os lábios dos atores; eu conhecia as falas e ouvia o filme apenas assistindo. Quando passou a cena da música-tema, o menino abrindo a porteira e o personagem jogando a moeda, o sono quase me venceu. No entanto, o medo subconsciente de fechar os olhos, apagar e perder o controle da situação não me deixava dormir direito.

Foi na UTI 2 que a minha heroína driblou o sistema hospitalar mais uma vez e fez chegar até mim os meus aparelhos auditivos. A partir dali, eu já entendia muito bem os médicos e enfermeiros e conseguia conversar com todos. E, surpreendentemente, ela apareceu na minha frente de novo! Havia entrado junto com outra família, infiltrando-se com aquele jeito corajoso que só ela tem. Lá estava ela me visitando presencialmente, mesmo sendo proibido. Falávamos todos os dias por vídeo, mas ela precisava me ver de perto, tocar em mim e constatar que eu estava vivo.

O Lado Humano do Cuidado e o Incidente

Mais noites e mais dias se passaram. Na TV, agora passava o programa Largados e Pelados. Eu nunca tinha assistido, mas logo me vi torcendo para um dos participantes vencer. Eu criava pequenos mundos ali dentro para que tudo ganhasse sentido e para que o tempo passasse o mais rápido possível.

Nesse processo, percebi que o papel do técnico em enfermagem é sensacional. É ele quem tem o contato mais direto com o paciente; é esse profissional que verdadeiramente cuida através da presença física. Tenho uma gratidão imensa por quase todos os que cuidaram de mim, pois eles têm uma importância vital para confortar e acalmar.

Contudo, fica um alerta sobre o lado humano e o estresse da profissão. Em uma das noites, uma técnica — cujo nome preservarei — teve um acesso de nervosismo. Em um ato de fúria, deu um soco no aparelho dosador de soro e proferiu palavras cheias de ira. Aquilo me desestabilizou emocionalmente de forma imediata. Minha saturação caiu e meus batimentos dispararam no monitor. Ela olhou para os aparelhos e disparou que, se a minha saturação não melhorasse por bem, eu seria intubado, então era bom eu tratar de melhorar. Eu não tive forças para reagir. Se estivesse em outra situação, teria dado uma gargalhada e feito uma brincadeira, mas ali me faltavam forças.

Era a minha quinta noite. Eu sabia que receberia alta assim que terminasse o protocolo dos medicamentos, mas aquela noite foi horrível. Urinei a noite toda, senti muita falta de ar e a equipe teve que aumentar o oxigênio, que já estava no nível mínimo devido ao processo de desmame. Fechei os olhos, sabendo que não dormiria, e orei. Peguei virtualmente mais uma vez nas mãos de Deus e clamei para que Jesus se fizesse presente ali através do seu Espírito Santo. Enfim, chegou a hora da gasometria, a hora do café e o alívio da troca de plantão. A rotina se restabelecia. Após o café, vinha a visita do médico, a videoconferência com a assistente social, o raio-X, a fisioterapia e o respirador. E assim foi por mais dois dias.

O Dia da Vitória e os Números da História

Até que, finalmente, chegou o dia da alta. O técnico de enfermagem entrou no quarto com a minha mochila conhecida, debruçou-se sobre a pesteira da cama e brincou:

— Como os pacientes desta ala são lindos! O senhor, com essa barba, está parecendo um artista de cinema.

Foi a frase mais forçada, porém a mais fantástica e animadora que ouvi nos últimos dias. O pesadelo estava terminando. O soro chegou ao fim, tomei a última vitamina dissolvida em um copo d'água, comi o último almoço hospitalar e recebi a última injeção de anticoagulante.

A saída, por questões de protocolo, foi feita pelos fundos e em uma cadeira de rodas. Eu ainda me sentia extremamente fraco, porém estava oficialmente de alta. Os médicos — Dr. Jerman, Dra. Gisele — e toda a equipe de enfermagem vieram se despedir. Foi um "tchau" que não permitia saudades e um adeus sem a menor vontade de retornar, como costuma ser a despedida de um hospital.

O elevador chegou e descemos até a porta dos fundos. O sol forte do meio-dia bateu no meu corpo e, de repente, vi muitas pessoas conhecidas ali fora me esperando. Havia cartazes, balões, sorrisos e choros de pura vitória. Foram dias difíceis para todos nós, e eu estava sedento por um abraço, sedento por presença.

Infelizmente, quantas e quantas pessoas não tiveram o final feliz que foi permitido a mim? A COVID-19 continuou ceifando vidas pelo mundo e só começou a ser controlada quando a vacinação em massa finalmente teve início. Eu fui vacinado pela primeira vez no dia 26 de maio de 2021. Os números globais continuaram crescendo de forma assustadora, atingindo a marca de 770 milhões de casos no mundo todo, com mais de 7 milhões de mortes oficialmente registradas. O Brasil, até o ano de 2024, registrou a triste marca de 715 mil vidas perdidas para a doença. Eu, por milagre e por propósito, me tornei um sobrevivente dessa história. 


















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