Dia de greve.
Os ônibus estão parados. Os motoristas de aplicativos também.
Curioso, depois daquele “dia em que a Terra parou”, lá no auge da pandemia de COVID-19, parece que nada mais assusta tanto assim. A gente já viu o mundo desacelerar de um jeito tão absurdo que, agora, o caos cotidiano quase soa comum.
Mas não deixa de incomodar.
Porque, no fundo, a pergunta fica martelando: se o transporte coletivo é uma concessão pública, se a mobilidade urbana é um bem comum, então quem está falhando? Quem está negligenciando?
É, talvez pense demais.
Porque começo falando de greve e, quando vejo, já estou discutindo etimologia.
A palavra “greve” vem do francês grève, que originalmente significava uma faixa de areia à beira de um rio ou mar. Um espaço meio neutro, meio de ninguém. Há quem diga que era ali que trabalhadores se reuniam para protestar, justamente por não ser um território “formal”.
Outra versão, talvez a mais conhecida, aponta para a Place de Grève, em Paris, às margens do Rio Sena. Um lugar onde, durante séculos, trabalhadores se encontravam, primeiro para procurar emprego, depois para reivindicar direitos.
Não há um ano exato que marque o nascimento da greve como conhecemos hoje. Mas sabe-se que, no século XVIII, esses encontros começaram a ganhar um tom mais reivindicatório. Com a Revolução Francesa, o espaço virou símbolo. E, no século XIX, o termo faire grève já carregava o sentido que conhecemos: parar de trabalhar como forma de pressão.
Ou seja, essa história de parar para ser ouvido, não é de hoje.
E aí vem a pergunta que ecoa:
Por que as pessoas sempre precisam se reunir para exigir melhores condições?
Por que quem emprega não percebe isso antes?
Fico com a sensação de que existe um desencontro quase permanente: quem paga acredita que está pagando muito; quem recebe sente que recebe pouco. E os dois lados seguem, cada um convicto da sua própria razão.
Será que é da natureza humana essa dificuldade de perceber o outro?
Ou será que, no fundo, ninguém acha que precisa se preocupar mesmo?
Afinal, como diz o velho ditado:
“manda quem pode, obedece quem tem juízo.”
Uma frase que, no fundo, não é só sobre autoridade. É sobre conformismo. Sobre sobrevivência. Sobre saber que, às vezes, questionar custa caro.
E assim a roda gira.
“O que o chefe manda, se faz.”
“É melhor calar e obedecer.”
“Acatar a ordem superior.”
Mas até quando?
Porque, olhando para um dia como hoje, cidade travada, gente parada, rotina interrompida, talvez a gente precise encarar uma verdade desconfortável:
Se chegou ao ponto de parar tudo é porque, em algum momento, ninguém quis escutar quando ainda dava para ajustar.
No fim das contas, a greve não começa no dia em que o trabalho para.
Ela começa bem antes, no dia em que alguém percebe que está sendo ignorado e decide que, sozinho, já não dá mais.
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