terça-feira, 21 de agosto de 2012

RAUL SEIXAS

Salvador, 28 de junho de 1945 — São Paulo, 21 de agosto de 1989
 Acredito que não precisa dizer nada...

VARIAÇÕES LINGUÍSTICAS

  VARIAÇÕES LINGUÍSTICAS

 Causo de mineirim

Sapassado, era sessetembro, taveu na cozinha tomano uma picumel e cuzinhano um kidicarne cumastumate pra fazer uma macarronada cum galinhassada. Quascaí desusto quanduvi um barui vindedenduforno, parecenum tidiguerra. A receita mandopô midipipocadenda galinha prassá. O forno isquentô, o mistorô e o fiofó da galinhispludiu! Nossinhora! Fiquei branco quineim um lidileite. Foi um trem doidimais! Quascaí dendapia! Fiquei sem sabê dondecovim, proncovô, oncontô. Oiprocevê quelocura! Grazadeus ninguém semaxucô! (http//bacaninha.cidadeinternet.com.br/home/mensagens/engraçadas)

Assaltante nordestino

-Ei, bichim... Isso é um assalto... Arriba os braços e num se bula nem faça muganga... Arrebola o dinheiro no mato e não faça pantim se não enfio a peixeira no teu bucho e boto teu fato pra fora! Perdão, meu Padim Ciço, mas é que eu tô com uma fome da moléstia.

Assaltante mineiro

-Ô, sô, prestenção... Isso é um assarto, uai... Levanta os braço e fica quetim quesse trem na minha mão tá cheio de bala... Mió passá logo os trocado que eu num tô tão bão hoje. Vai andando, uai! Tá esperando o quê, uai!

Assaltante gaúcho

-ô, guri, ficas atento... Bah, isso é um assalto... Levantas os braços e te aquietas, tchê! Não tentes nada e cuidado que esse facão corta uma barbaridade, tchê. Passa as pila pra cá! E te manda a la cria, senão o quarenta e quatro fala.

Assaltante carioca

-Seguinte, bicho... Tu te deu mal. Isso é um assalto. Passa a grana e levanta os braços, rapá... Não fica de bobeira que eu atiro bem pra... Vai andando e, se olhar pra trás, vira presunto...

Assaltante baiano

-ô, meu rei... (longa pausa) Isso é um assalto... (longa pausa) Levanta os braços, mas não se avexe não... (longa pausa) Se num quiser nem precisa levantar, pra num ficar cansado... Vai passando a grana, bem devagarinho...(longa pausa) Num repara se o berro está sem bala, mas é pra não ficar muito pesado... não esquenta meu irmãozinho (longa pausa). Vou deixar teus documentos na encruzilhada...

Assaltante paulista

-Orra, meu... Isso é um assalto, meu... Alevanta os braços, meu... Passa a grana logo, meu... Mais rápido, meu, que eu ainda preciso pegar a bilheteria aberta pra comprar o ingreso do jogo do Corinthians, meu... Pô, se manda, meu...

CONCURSO DE GÍRIAS

a) “Maior corre no meu trampo hoje, mas firmão. Vou colar na minha goma, bater uma xepa e mandar um salve pra galera da minha área.”

b) “Aê, tô zarpando fora que fiquei de cruzar com uns camaradas pra colar num pico classe A.”

c) “Aê, Tuquinha, se liga, lagarto, que eu vou marcar uma mão pra você devolver minha lupa.”

d) “Dani, para de ser mamadeira e arruma um trampo logo.”

e) “Digo, se liga, você é mó talarico. Tentou furá os zoio do maluco da minha quebrada. Se liga, meu!”

sábado, 4 de agosto de 2012

LAVÍNIA

Entrou no quarto e fechou silenciosamente a porta.
Não acendeu a luz, preferindo ligar um pequeno abajur que iluminou debilmente o aposento. Deu alguns passos em direção à cama e sentou-se numa banqueta.
- Lavínia - murmurou - já estou aqui . Suspirou.
- Demorei um pouco, porque a governanta não queria me largar. Maldita! Tive que mentir que ia ao banheiro. Não foi boa essa, Lavínia? No banheiro. Soltou uma risadinha; um cão latiu ao longe, como se estivesse respondendo. Ela olhou com ansiedade pela janela. Nada viu. O gramado bem tratado brilhava à luz da lua. Folhas de plátano boiavam na piscina.
- Agora está tudo bem. Vou cuidar de ti como só eu sei fazer. Antes de mais nada, um banho; um bom banho fluente, de imersão. Vou prepará-lo agora mesmo. A governanta não quer que eu me aproxime da banheira. Diz que é perigoso, para uma menina de dez anos.
Ouviste esta, Lavínia? Perigoso para mim! Naturalmente, ouço e calo. Posso responder àquela ignorante? Nem sequer falamos a mesma linguagem: o meu vocabulário é maior, mais rico,
 mais expressivo. Leio numa semana mais livros do que ela em toda sua vida.
Abaixou-se, tirou os sapatos. - Não devemos fazer ruído.
Do bolso do casaco extraiu um pacote.
- Adivinha o que tenho aqui, Lavínia. Não adivinhas?
Pois, exatamente: marrom-glacês. Marrom-glacês! Não é ótimo? E olha que me deu trabalho surrupiá-los. Mas eu o fiz: nas ventas da governanta. Vou colocá-los aqui, na mesinha de cabeceira. Serão saboreados depois do banho, não antes: banho com estômago cheio é perigoso, dizia papai. Calou-se bruscamente e ficou a olhar pela janela. Depois disse, sem se voltar:
- Vais vestir o teu pijama de flanela azul, deitar na cama, acender a lâmpada de cabeceira e ler o teu livro predileto, saboreando os doces. Não é uma boa idéia, Lavínia? Me diz: alguém cuida tão bem de ti como eu? Mas assim deve ser, pois todos os outros são inimigos. Mamãe, aquele homem que vem aqui e a governanta.
Inclinou-se para a cama:
- E agora vem o melhor. Sabes o que vou fazer, antes de dormires? Vou te acariciar: passarei minha mão bem de leve em teu rosto suave, em teus cabelos de ouro, em tuas pálpebras macias. E, Lavínia - bem, isto não posso prometer, mas farei todo o possível - cantarei para ti.
Cantarei baixinho aquela música que papai ensinou antes de morrer, aquela em francês, te lembras? Sobre as meninas solitárias. Estarás bem enroladinha no cobertor, como uma larva no casulo. E eu te darei boa-noite...
A porta se abriu. Era a governanta, iluminada pela luz forte do corredor.
- Lavínia - disse ela, em voz baixa. - Não há ninguém aqui além de ti, vês? Estás falando sozinha - de novo. Agora, põe teus sapatos e desce; tua mãe e aquele senhor querem te dar boa noite.
Vão sair.
Arrumou-se vagarosamente. A governanta esperava, sorrindo sempre. Antes de sair,
Lavínia voltou-se para a cama e piscou um olho.
- Volto já - murmurou.

SCLIAR, Moacyr. Os melhores contos de Moacyr Scliar
(seleção e prefácio deRegina Zilberman). 3ª ed. São Paulo: Global, 2003.