sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

“Onde estás?” “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra…”

INTRODUÇÃO

Amados irmãos,
há perguntas na Bíblia que ecoam mais alto do que respostas.
Perguntas que atravessam o tempo, rompem gerações e alcançam o coração do homem.

No princípio, Deus caminhava com o homem no jardim.
Não havia pecado, não havia medo, não havia distância.

Mas depois da desobediência, Deus faz uma pergunta que nunca deixou de ser feita:

“Onde estás?”

Não porque Deus não soubesse onde Adão estava,
mas porque Adão já não sabia mais onde estava em relação a Deus.

Séculos depois, em meio a uma tempestade, outra cena se forma:
um homem sai do barco, pisa nas águas e caminha enquanto mantém os olhos em Jesus.
Quando o vento sopra mais forte e o medo domina o coração, ele começa a afundar —
mas antes que se perca, uma mão se estende.

Hoje, o mesmo Deus que chamou Adão no jardim
e o mesmo Cristo que chamou Pedro sobre as águas
continua chamando homens e mulheres.

E a pergunta ainda ecoa no meio da igreja:

Onde estás?


LEITURA BÍBLICA 1

Gênesis 3:1–11

A tentação de Eva e a queda do homem

(Leitura do texto bíblico)


CONTEXTO

Adão tinha um encontro com Deus todas as tardes.

Deus dava as diretrizes para Adão de como adm o mundo (jardim).


LEITURA BÍBLICA 2

Números 13:30–33

(Leitura do texto bíblico)

CONTEXTO DOS ESPIAS

Aqueles homens foram alimentados por Deus durante 40 anos.
Viram o mar se abrir.
Viram água sair da rocha.
Tinham uma coluna de fogo para aquecer à noite.
Tinham uma nuvem para protegê-los do calor.
O maná caía do céu.

Mesmo assim, disseram:

“Éramos aos nossos olhos como gafanhotos.”


LEITURA BÍBLICA 3

Mateus 14:28–31

(Leitura do texto bíblico)


CONTEXTO DE PEDRO

Pedro andava com Jesus.
Tinha visto todas as maravilhas.
Viu Jesus alimentar milhares.
Viu Jesus curar, restaurar e devolver a vida.

E então vem a frase:

“Homem de pequena fé, por que duvidaste?”


DESENVOLVIMENTO

Por que a dúvida paralisa o homem?

1. Porque a dúvida quebra o eixo interno do homem

O ser humano precisa de referência para caminhar:

  • um norte

  • uma voz

  • um sentido

Quando a dúvida entra, o eixo se rompe.

📖 Tiago 1:6–8

“O que duvida é semelhante à onda do mar, levada e agitada pelo vento… homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos.”

👉 Sem eixo, qualquer vento empurra.


2. A dúvida divide o coração

A fé aponta para uma direção.
A dúvida cria duas possibilidades opostas.

📌 O homem deixa de caminhar e passa a oscilar:

  • quer obedecer, mas quer controlar

  • quer confiar, mas quer garantias

🔥 Onde o coração se divide, a caminhada trava.


3. Porque a dúvida desloca a autoridade

Quando o homem confia em Deus:

  • Deus é a referência

  • a Palavra é o critério

Quando a dúvida entra:

  • o homem se coloca no centro

  • a razão passa a julgar a promessa

📖 Provérbios 3:5

“Confia no Senhor de todo o teu coração…”

👉 A dúvida não pergunta, questiona para não obedecer.


4. A dúvida tira o homem do presente

Quem duvida:

  • revive o passado (“e se eu errar de novo?”)

  • antecipa o futuro (“e se não der certo?”)

📌 A fé age no agora.
📌 A dúvida paralisa no depois.

Por isso Pedro afunda:
não porque o vento surge,
mas porque ele para de confiar no momento presente.


5. A dúvida não é ausência de fé — é fé sem direção

Isso é importante pastoralmente.

Tomé duvidou, mas permaneceu com Jesus.
Pedro duvidou, mas clamou.

🔥 O problema não é sentir dúvida.
🔥 O problema é andar guiado por ela.

📖 Mateus 14:31

“Homem de pequena fé, por que duvidaste?”

Jesus não o chama de incrédulo,
mas de desfocado.


6. Porque a dúvida rompe o movimento

Fé sempre gera ação.
Dúvida sempre pede mais sinais.

📌 Enquanto o homem espera certeza absoluta, ele não sai do lugar.

  • Fé caminha mesmo sem ver.

  • Dúvida exige ver para caminhar.


7. APLICAÇÃO PASTORAL

Adão duvida da Palavra → se esconde.

Os espias duvidam da promessa → recuam.

Pedro duvida no meio do caminho → afunda.

👉 Não foi o inimigo que os parou.
👉 Foi a dúvida que os desorientou.


FRASES FORTES PARA O PÚLPITO

A dúvida não rouba apenas a fé; rouba o rumo.

Ou:

Quem não decide em quem confiar, acaba perdido em si mesmo.


CONCLUSÃO

A fé não elimina todas as perguntas,
mas dá direção suficiente para continuar andando.

📖 Salmos 119:105

“Lâmpada para os meus pés é a tua palavra…”

A lâmpada não ilumina tudo,
mas ilumina o próximo passo.







quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Quem Pensa Enriquece – Napoleon Hill - "O DESEJO DESPISTA A MÃE NATUREZA "

Estava lendo o livro Quem Pensa Enriquece – Napoleon Hill e para minha surpresa me deparei com esse trecho presente em um dos capítulos. Leitura mais que necessária.

 "O DESEJO DESPISTA A MÃE NATUREZA "

Como um clímax adequado para este capítulo, desejo apresentar uma das pessoas mais incomuns que já conheci. Eu o vi pela primeira vez há 24 anos, minutos depois de ele ter nascido. Ele veio ao mundo sem nenhum sinal físico de ouvidos, e o médico admitiu, quando pressionado por uma opinião, que a criança talvez fosse surda e muda a vida inteira. Eu desafiei a opinião do médico. Eu tinha o direito de fazê-lo – eu era o pai da criança. Também tomei uma decisão e dei uma opinião, mas me expressei em silêncio, no segredo de meu coração. Decidi que meu filho ouviria e falaria. A natureza poderia me enviar um filho sem ouvidos, mas a natureza não poderia me induzir a aceitar a realidade da deficiência. Em minha mente eu sabia que meu filho ouviria e falaria. Como? Eu tinha certeza de que deveria haver um caminho e sabia que o encontraria. Pensei nas palavras do imortal Emerson: “Todo o curso das coisas vai nos ensinar fé. Precisamos apenas obedecer. Há orientação para cada um de nós e, ouvindo com humildade, ouviremos a palavra certa”. A palavra certa? Desejo. Mais do que qualquer outra coisa, desejei que meu filho não fosse surdo-mudo. Desse desejo nunca recuei nem por um segundo. Muitos anos antes, eu havia escrito: “Nossas únicas limitações são aquelas que estabelecemos na própria mente”. Pela primeira vez, indaguei se essa afirmação era verdadeira. Deitado na cama à minha frente estava um bebê recém-nascido sem o equipamento natural da audição. Mesmo que pudesse ouvir e falar, ele estava obviamente desfigurado para toda a vida. Com certeza, aquela era uma limitação que a criança não havia estabelecido na própria mente. O que eu poderia fazer a respeito? De alguma forma eu encontraria uma maneira de transplantar para a mente daquela criança meu desejo ardente de encontrar maneiras de transmitir som ao cérebro sem o auxílio dos ouvidos. Assim que meu filho tivesse idade suficiente para cooperar, eu preencheria sua mente tão completamente com o desejo ardente de ouvir que a natureza, por seus próprios métodos, traduziria tal desejo em realidade física. Todo esse pensamento se desenrolou em minha mente, mas não falei nada para ninguém. Todo dia renovava a promessa que havia feito a mim mesmo de não aceitar que meu filho fosse surdo-mudo. Quando o bebê cresceu e começou a perceber as coisas ao redor, observamos que ele tinha um leve grau de audição. Quando chegou à idade em que as crianças em geral começam a conversar, ele não fez nenhuma tentativa de falar, mas pudemos notar por suas ações que ele conseguia ouvir alguns sons tênues. Era tudo o que eu precisava saber. Eu estava convencido de que, se ele conseguia ouvir, mesmo que pouco, poderia desenvolver uma capacidade auditiva maior. Então aconteceu uma coisa que me deu esperança. Veio de uma fonte totalmente inesperada. Compramos uma vitrola. Quando nosso filho ouviu música pela primeira vez, entrou em êxtase e rapidamente se apropriou do aparelho. Logo mostrou preferência por determinadas gravações, entre elas “It’s a Long Way to Tipperary”. Em uma ocasião, tocou a faixa vezes e mais vezes, por quase duas horas, em pé diante da vitrola, com os dentes presos na beirada do equipamento. O significado desse hábito espontâneo só ficou claro para nós anos depois, pois até então nunca tínhamos ouvido falar do princípio da condução do som por via óssea. Logo depois que Blair se apropriou da vitrola, descobri que ele conseguia me ouvir bastante bem quando eu falava com os lábios tocando no seu osso mastoide ou na base de sua cabeça. Essas descobertas me colocaram de posse dos meios pelos quais comecei a traduzir em realidade o desejo ardente de ajudar meu filho a desenvolver a audição e a fala. Naquela época, ele estava tentando falar certas palavras. A perspectiva estava longe de ser animadora, mas o desejo amparado pela fé não conhece a palavra “impossível”. Tendo determinado que ele conseguia ouvir nitidamente o som de minha voz, comecei de imediato a transferir para sua mente o desejo de ouvir e falar. Logo descobri que meu filho gostava de histórias de ninar, então fui ao trabalho, criando histórias destinadas a desenvolver autoconfiança, imaginação e um desejo intenso de ouvir e ser normal. Havia uma história em particular que eu enfatizava, conferindo-lhe novos tons dramáticos cada vez que a contava. Essa história foi projetada para plantar na mente de Blair o pensamento de que sua deficiência não era um passivo, mas um ativo de grande valor. Apesar de toda a filosofia que eu havia examinado indicar claramente que toda adversidade traz consigo a semente de uma vantagem equivalente, devo confessar que não tinha a menor ideia de como a deficiência de Blair poderia se tornar um ativo. No entanto, continuei a prática de incluir essa filosofia nas histórias de ninar, esperando que chegasse a hora em que ele encontrasse algum plano pelo qual sua deficiência pudesse servir a um propósito útil. A razão me dizia sem rodeios que não havia compensação adequada para a falta de ouvidos e de aparelho auditivo natural. O desejo apoiado pela fé empurrou a razão para fora do caminho e me inspirou a continuar. Ao analisar a experiência em retrospecto, percebo agora que a fé de meu filho em mim teve muito a ver com os resultados surpreendentes. Ele não questionou nada do que eu disse. Vendi a ideia de que ele tinha uma vantagem distinta sobre o irmão mais velho e que essa vantagem se refletia de várias maneiras. Por exemplo, os professores da escola observavam que ele não tinha ouvidos, por isso dedicavam-lhe atenção especial e o tratavam com extraordinária bondade. Sempre foi assim. Sua mãe cuidava disso, visitando os professores e combinando com eles para que dessem a nosso filho a atenção extra necessária. Também vendi a ideia de que, quando ele tivesse idade suficiente para vender jornais (o irmão mais velho já havia se tornado comerciante de jornais), ele teria uma grande vantagem sobre o irmão, pois as pessoas lhe dariam dinheiro extra pela mercadoria ao ver que ele era um garoto brilhante e trabalhador, apesar de não ter ouvidos. Percebemos que, gradualmente, a audição de nosso filho estava melhorando. Além disso, não tinha a menor tendência de ficar constrangido por causa de sua condição. Quando tinha sete anos de idade, ele deu a primeira prova de que nosso método de nutrir sua mente estava dando frutos. Por vários meses, implorou pelo privilégio de vender jornais, mas sua mãe não consentia. Ela temia que a surdez tornasse perigoso ele ir sozinho à rua. Por fim, Blair se encarregou do assunto por si. Certa tarde, quando foi deixado em casa com os empregados, escalou a janela da cozinha, saltou para o lado de fora e partiu por conta própria. Pediu emprestados seis centavos de capital ao sapateiro do bairro, investiu em jornais, vendeu tudo, reinvestiu e repetiu a operação até tarde da noite. Depois de fazer o balanço contábil e pagar os seis centavos emprestados por seu banqueiro, verificou um lucro líquido de 42 centavos. Quando chegamos a casa naquela noite, o encontramos na cama dormindo com o dinheiro preso na mão bem fechada. A mãe abriu a mão dele, tirou as moedas e chorou. Ora, francamente! Chorar por causa da primeira vitória do filho me pareceu muito inapropriado. Minha reação foi inversa. Ri de todo o coração, pois soube que o esforço de plantar na mente de meu filho uma atitude de fé em si mesmo tinha sido bem-sucedido. A mãe viu no primeiro empreendimento comercial do filho um garotinho surdo que saíra pelas ruas e arriscara a vida para ganhar dinheiro. Eu vi um homenzinho empreendedor corajoso, ambicioso e autoconfiante, cuja confiança em si mesmo havia aumentado cem por cento ao fazer negócios por iniciativa própria e vencer. A transação me agradou, porque soube que Blair havia demonstrado uma característica de desenvoltura que o acompanharia por toda a vida. Eventos posteriores provaram que isso era verdade. Quando seu irmão mais velho queria alguma coisa, se atirava no chão, esperneava e chorava pelo que queria – e conseguia. Quando o “menino surdo” queria alguma coisa, planejava uma maneira de ganhar o dinheiro e depois comprava por si. Ele ainda segue o mesmo plano. A verdade é que meu filho me ensinou que as desvantagens podem ser convertidas em degraus pelos quais se pode subir na direção de algum objetivo digno, a menos que sejam aceitas como obstáculos e usadas como álibis. O menino surdo passou de ano nas séries fundamentais, no ensino médio e na faculdade sem conseguir ouvir seus professores, exceto quando gritavam alto e a curta distância. Ele não frequentou escolas para surdos. Não permitimos que ele aprendesse a linguagem dos sinais. Decidimos que ele deveria levar uma vida normal e se relacionar com crianças normais e mantivemos tal decisão, embora nos custasse muitos debates acalorados com o pessoal das escolas. Enquanto cursava o ensino médio, nosso filho experimentou um aparelho auditivo elétrico, mas não serviu de nada, devido, acreditamos nós, à condição revelada quando ele tinha seis anos de idade: o Dr. J. Gordon Wilson, de Chicago, operou um lado de sua cabeça e descobriu que não havia sinal de aparelho auditivo natural. Durante a última semana de faculdade (dezoito anos após aquela cirurgia), aconteceu uma coisa que marcou a virada mais importante da vida de Blair. Mediante o que pareceu mero acaso, ele ganhou outro aparelho auditivo elétrico, enviado para teste. Ele demorou a testá-lo, devido à decepção anterior com dispositivo semelhante. Por fim, pegou o aparelho, colocou-o na cabeça sem muito cuidado, ligou a bateria e eis que, como se por um passe de mágica, o desejo de toda a sua vida de ter uma audição normal se tornou realidade. Pela primeira vez na vida, Blair ouviu praticamente tanto quanto qualquer pessoa com audição normal. “Deus se move de formas misteriosas para realizar suas maravilhas.” Exultante por causa do mundo transformado que lhe fora trazido pelo aparelho auditivo, ele correu para o telefone, ligou para a mãe e ouviu a voz dela com perfeição. No dia seguinte, ouviu claramente as vozes dos professores na sala de aula pela primeira vez na vida. Antes ele só conseguia ouvi-los quando gritavam a curta distância. Ele ouviu rádio. Ouviu filmes. Pela primeira vez na vida, pôde conversar livremente com outras pessoas sem a necessidade de que falassem alto. A verdade é que ele tomou posse de um mundo modificado. Nos recusamos a aceitar o erro da natureza e, por um desejo persistente, induzimos a natureza a corrigir o erro pelos únicos meios práticos disponíveis. O desejo havia começado a pagar dividendos, mas a vitória ainda não estava completa. O garoto ainda precisava encontrar uma maneira prática e definitiva de converter sua deficiência em um ativo equivalente. Mal percebendo o significado do que já havia alcançado, mas intoxicado pela alegria do mundo sonoro recém-descoberto, Blair escreveu uma carta ao fabricante do aparelho auditivo, descrevendo sua experiência com entusiasmo. Algo na carta, algo que talvez não estivesse escrito nas frases, mas por trás delas, levou a empresa a convidá-lo a ir a Nova York. Quando chegou, Blair fez uma visita guiada pela fábrica e, enquanto conversava com o engenheiro-chefe, contando sobre a transformação de seu mundo, um palpite, uma ideia ou uma inspiração – chame como quiser – fulgurou em sua mente. Foi o impulso de pensamento que transformou sua deficiência em um ativo destinado a pagar dividendos em dinheiro e felicidade aos milhares para sempre dali em diante. A essência do impulso de pensamento foi a seguinte: ele poderia ajudar os milhões de surdos que passam a vida sem o benefício de aparelhos auditivos caso conseguisse encontrar uma maneira de contar para eles a história de seu mundo transformado. Naquele momento, Blair decidiu dedicar o resto da vida a prestar um serviço útil a pessoas com problemas de audição. Durante um mês inteiro, ele executou uma pesquisa intensiva, analisando todo o sistema de marketing do fabricante de aparelhos auditivos, e criou meios de se comunicar com pessoas com deficiência auditiva em todo o mundo a fim de compartilhar com elas seu mundo transformado recém-descoberto. Feito isso, elaborou um plano de dois anos com base em seus achados. Quando apresentou o plano à empresa, recebeu um cargo na mesma hora com o objetivo de realizar sua ambição. Mal sonhava ele, quando foi trabalhar, que estava destinado a levar esperança e alívio prático a milhares de surdos que, sem sua ajuda, estariam condenados para sempre ao surdimutismo. Logo depois de se associar ao fabricante de aparelhos auditivos, meu filho me convidou para assistir a uma aula organizada por sua empresa com o objetivo de ensinar surdos a ouvir e a falar. Eu nunca tinha ouvido falar dessa forma de educação, portanto fui à aula cético, mas com uma esperança de que meu tempo não fosse totalmente desperdiçado. Ali vi uma demonstração que me deu uma visão muito ampliada do que eu tinha feito para despertar e manter vivo na mente de meu filho o desejo de ouvir normalmente. Vi surdos-mudos sendo ensinados a ouvir e a falar mediante a aplicação do mesmo princípio que eu havia usado mais de vinte anos antes para salvar meu filho do surdimutismo. Assim, por um estranho giro da roda do destino, meu filho Blair e eu estávamos destinados a ajudar a corrigir o surdimutismo daqueles que ainda nem nasceram, porque somos os únicos seres humanos vivos, que eu saiba, que estabeleceram definitivamente o fato de que o surdimutismo pode ser corrigido a ponto de restaurar a vida normal àqueles que sofrem dessa deficiência. Se foi possível para um, será possível para outros. Não há dúvida de que Blair teria sido surdo-mudo a vida inteira se sua mãe e eu não tivéssemos conseguido moldar sua mente como moldamos. O médico que assistiu o parto nos disse confidencialmente que a criança talvez nunca ouvisse ou falasse. Algumas semanas atrás, o Dr. Irving Voorhees, respeitado especialista nesses casos, examinou Blair minuciosamente. Ficou espantado ao constatar o quanto meu filho ouve e fala e disse que seu exame indicava que, “teoricamente, o garoto não deveria conseguir ouvir nada”. Mas o rapaz ouve, apesar de as imagens de raios X mostrarem que não há nenhuma abertura no crânio onde seus ouvidos deveriam estar. Quando plantei na mente de Blair o desejo de ouvir, conversar e viver como uma pessoa normal, esse impulso produziu alguma influência estranha que levou a natureza a se tornar construtora de pontes e transpor o abismo de silêncio entre o cérebro de Blair e o mundo exterior por meios que os especialistas médicos mais argutos não foram capazes de interpretar. Seria um sacrilégio para mim sequer conjeturar sobre como a natureza realizou esse milagre. Seria imperdoável se eu deixasse de contar ao mundo o que sei a respeito do humilde papel que desempenhei nesse estranho acontecimento. É meu dever e privilégio dizer que acredito, e não sem razão, que nada é impossível para a pessoa que sustenta o desejo com a fé duradoura. Na verdade, um desejo ardente tem maneiras tortuosas de se transmutar em seu equivalente físico. Blair desejou uma audição normal, agora a tem. Ele nasceu com uma desvantagem que poderia facilmente ter enviado alguém com desejo menos definido para a rua com um punhado de lápis e uma caneca de lata. Essa desvantagem agora promete servir de meio pelo qual ele prestará um serviço útil a muitos milhões de deficientes auditivos, além de lhe proporcionar um emprego útil com compensação financeira adequada pelo resto da vida. As pequenas mentiras brancas que plantei na mente de Blair quando ele era criança, levando-o a acreditar que sua deficiência se tornaria um grande patrimônio, que ele poderia capitalizar, estão justificadas. Na verdade, não há nada, certo ou errado, que a crença somada ao desejo ardente não possa tornar real. Essas qualidades estão à disposição de todos. Em toda a minha experiência ao lidar com homens e mulheres com problemas pessoais, nunca lidei com um único caso que demonstre mais definitivamente o poder do desejo. Às vezes os autores cometem o erro de escrever sobre assuntos dos quais têm apenas conhecimento superficial ou muito elementar. Foi uma sorte eu ter tido o privilégio de testar a solidez do poder do desejo a partir da condição de meu filho. Talvez tenha sido providencial a experiência ter ocorrido dessa forma, pois com certeza ninguém está mais preparado do que ele para servir de exemplo do que acontece quando o desejo é posto à prova. Se a mãe natureza se curva à vontade do desejo, seria lógico achar que meros humanos possam derrotar um desejo ardente? Estranho e imponderável é o poder da mente humana. Não entendemos o método pelo qual ela utiliza todas as circunstâncias, todos os indivíduos, todas as coisas físicas ao seu alcance como meios de transmutar o desejo em sua contraparte física. Talvez a ciência descubra esse segredo. Plantei na mente do meu filho o desejo de ouvir e falar como qualquer pessoa normal ouve e fala. Esse desejo agora se tornou realidade. Plantei em sua mente o desejo de converter seu maior obstáculo em seu maior patrimônio. Esse desejo foi realizado. O modus operandi pelo qual o resultado espantoso foi alcançado não é difícil de descrever. Consiste em três fatos muito definidos: primeiro, misturei a fé com o desejo de audição normal e transmiti isso a meu filho. Segundo, comuniquei a ele meu desejo por todos os meios disponíveis, mediante esforço persistente e contínuo ao longo de anos. Terceiro, ele acreditou em mim. Quando este capítulo estava sendo concluído, chegaram as notícias da morte de Mme. Schumann-Heink. Um breve parágrafo no comunicado de imprensa dá a pista para o sucesso estupendo dessa cantora e mulher incomum. Cito o parágrafo porque a pista que contém não é outra senão o desejo. No início de sua carreira, Ernestine Schumann-Heink visitou o diretor da Ópera da Corte de Viena para um teste de voz. Mas ele não a testou. Depois de dar uma olhada na garota desajeitada e malvestida, ele exclamou sem muita gentileza: “Com essa cara e sem qualquer personalidade, como você pode esperar ter sucesso na ópera? Minha boa criança, desista dessa ideia. Compre uma máquina de costura e vá trabalhar. Você nunca poderá ser cantora”. Nunca é muito tempo. O diretor da Ópera da Corte de Viena sabia muito sobre técnica de canto. Mas pouco sabia sobre o poder do desejo quando assume a proporção de uma obsessão. Se soubesse mais sobre esse poder, não teria cometido o erro de condenar um gênio sem lhe dar uma oportunidade. Há muitos anos, um de meus colegas de trabalho adoeceu. Com o passar do tempo ele piorou e acabou levado ao hospital para uma cirurgia. Pouco antes de ele ser conduzido para a sala de cirurgia, dei uma olhada nele e me perguntei como alguém tão magro e debilitado poderia passar por uma grande operação com sucesso. O médico avisou que havia pouca ou nenhuma chance de eu vê-lo vivo novamente. Mas essa era a opinião do médico. Não era a opinião do paciente. Pouco antes de ser levado embora, ele sussurrou debilmente: “Não se preocupe, chefe, vou sair daqui em alguns dias”. A enfermeira assistente olhou para mim com pena. Mas o paciente se salvou. Depois que tudo terminou, o médico disse: “Nada além do próprio desejo de viver o salvou. Ele nunca teria conseguido se não tivesse se recusado a aceitar a possibilidade da morte”. Acredito no poder do desejo apoiado pela fé porque vi esse poder alçar homens de começos humildes a elevados patamares de poder e riqueza, vi esse poder roubar o túmulo de suas vítimas, vi esse poder servir de meio pelo qual os homens dão a volta por cima depois de derrotados de centenas de maneiras diferentes, vi esse poder proporcionar uma vida normal, feliz e bem-sucedida a meu filho, apesar de a natureza o ter enviado ao mundo sem ouvidos. Como alguém pode aproveitar e usar o poder do desejo? Isso é respondido neste e nos capítulos subsequentes deste livro. Essa mensagem está sendo divulgada ao mundo ao final da mais longa e talvez mais devastadora depressão que a América já viu. É razoável presumir que a mensagem possa chamar a atenção de muitos que foram atingidos pela Depressão, aqueles que perderam suas fortunas, aqueles que perderam suas posições e as multidões que precisam reorganizar seus planos e dar a volta por cima. A todos eles desejo transmitir o pensamento de que toda conquista, não importa qual seja sua natureza ou propósito, deve começar com um desejo intenso e ardente por algo definido. Por meio de algum estranho e poderoso princípio de “química mental” nunca revelado, a natureza encerra no impulso do desejo intenso “aquele algo” que não reconhece a palavra “impossível” e que não aceita a realidade do fracasso.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

"Que nojo, mãe. você tá ficando gagá!"

"Que nojo, mãe. você tá ficando gagá!" Meu filho disse isso quando me vi de pé numa poça da minha própria urina. Eu tinha 68 anos. Ele tinha 44. E morava de graça na minha casa...Meu nome é Margarida. Tenho 68 anos. Viúva há 12. Mãe de um filho único: Eduardo.E naquele dia, parada no corredor da minha própria casa, tremendo de vergonha, molhada da cintura prabaixo, eu entendi uma coisa:

Eu criei um monstro. E dei a ele as chaves do reino. 

Eram 7h20 da manhã.

Eu estava na porta do banheiro havia 45 minutos.

Batendo de leve. Depois batendo mais forte. Depois implorando:

— Eduardo, filho, eu preciso usar o banheiro… por favor…

Do outro lado da porta, o chuveiro ligado. Vapor saindo por baixo. Ele cantarolando.

45 minutos.

Eu, com 68 anos, bexiga que não segura mais como antes, corpo que não obedece como antigamente, segurando.

Apertando as pernas. Respirando fundo. Rezando pra aguentar.

Até que não aguentei.

Senti o quente descendo pela perna. A calça de moletom encharcando. A poça se formando no chão de cerâmica.

Comecei a chorar. De vergonha. De humilhação.

E foi nessa hora que a porta abriu.

Eduardo saiu, toalha na cintura, cabelo molhado, celular na mão.

Olhou pra mim. Olhou pra poça. Fez uma careta de nojo.

E disse:

— Que nojo, mãe. Já tá senil. Limpa isso antes que a casa toda fique fedendo.

Passou por cima da poça. Entrou no quarto dele. Bateu a porta.

Não perguntou se eu tava bem.

Não pediu desculpa por ter demorado.

Não estendeu a mão.

Só nojo.

Fiquei ali, parada, pingando.

Lembrei de quando ele nasceu. Pequeno. Frágil. Chorando no meu colo.

Lembrei de quando limpei a fralda dele mil vezes. Sem nojo. Sem reclamar.

Lembrei de quando paguei faculdade particular porque ele "não passava em federal".

Lembrei de quando ele se divorciou e voltou pra minha casa "só até se reerguer".

Isso faz 8 anos.

Oito anos morando de graça. Comendo da minha comida. Gastando minha luz, minha água, meu gás. Sem pagar um centavo de aluguel.

Oito anos enquanto eu, aposentada com um salário mínimo e meio, fazia mágica pra pagar conta, comprar remédio, e ainda dar a ele "conforto".

E ele me tratava como empregada.

Roupa suja largada no chão pra eu lavar.

Louça na pia pra eu fazer.

Banho de 50 minutos enquanto eu esperava na porta.

E agora, nojo.

Tomei banho. Troquei de roupa. Limpei o chão com lixívia.

E enquanto esfregava, tomei uma decisão.

Acabou.

Na segunda-feira, tirei o nome dele da conta de luz.

Na terça, tirei da conta de água.

Na quarta, cancelei a internet.

Na quinta, troquei a senha do wifi (que eu paguei roteador novo só pra isso).

Na sexta, esvaziei a geladeira e levei tudo pra casa da minha irmã.

No sábado, sentei na sala e esperei.

Eduardo acordou meio-dia. Foi pro banheiro. Tentou ligar o chuveiro.

Água fria.

Gritou:

— MÃE! O chuveiro tá quebrado!

Eu, sentada no sofá, livro aberto, respondi calma:

— Não tá quebrado. A conta de luz tá no teu nome agora. E como você não pagou, cortaram.

Silêncio.

Ele saiu do banheiro, olhou pra mim como se eu tivesse enlouquecido:

— Como assim no MEU nome?

— A casa é minha. Mas as contas agora são tuas. Se quer morar aqui, paga. Ou sai.

Ele deu uma risada de escárnio:

— Mãe, tu tá de brincadeira. Eu não tenho dinheiro pra isso.

— Então arranja.

— COMO? Eu tô desempregado!

Olhei firme:

— Eduardo, você tem 44 anos. Engenheiro formado. Oito anos "se reerguendo" na minha casa. Acho que já deu tempo de levantar, não acha?

Ele explodiu:

— A senhora tá louca! Eu sou teu FILHO! A senhora tem OBRIGAÇÃO de me ajudar!

Levantei. Peguei a bolsa. Calcei o sapato.

— Eu te ajudei 44 anos. Agora você se ajuda.

E saí.

Fui morar na casa da minha irmã por três meses.

Eduardo ligava todo dia. Xingando. Chorando. Implorando.

Eu bloqueava.

Descobri, pela vizinha, que ele tinha arrumado emprego num supermercado. Caixa. Salário mínimo.

Que tinha vendido o videogame pra pagar luz.

Que tava comendo miojo porque não sabia cozinhar.

Que tava lavando a própria roupa (mal lavada, segundo a vizinha, mas tava lavando).

Bem feito.

Três meses depois, voltei pra casa.

Toquei a campainha. Ele abriu.

Tava mais magro. Barba por fazer. Olheiras. Roupa amassada.

Me olhou e não disse nada. Só abriu a porta.

Entrei.

A casa tava uma bagunça, mas limpa. Cheiro de desinfetante. Louça lavada (mal enxaguada, mas lavada). Roupa no varal.

Sentei no sofá.

Ele sentou do outro lado, cabeça baixa.

Ficamos em silêncio por cinco minutos.

Até que ele falou, voz embargada:

— Eu… eu te pedi desculpas?

— Não.

— Então eu peço agora. Desculpa, mãe.

Olhei pra ele. Olhos vermelhos. Mãos tremendo.

— Desculpa por quê?

Ele respirou fundo:

— Por tudo. Por ter te tratado como empregada. Por ter te humilhado. Por ter achado que você me devia alguma coisa. Por… — a voz quebrou — …por ter sentido nojo de você quando você precisava de mim.

Silêncio.

— Eu tô trabalhando, mãe. Ganhando pouco. Mas tô pagando as contas. Tô aprendendo a cozinhar (mal, mas tô tentando). Tô limpando a casa. E… — ele olhou pra mim, finalmente — …eu entendi. Eu entendi o que você fez a vida inteira sozinha.

Levantei. Fui até ele. Segurei o rosto dele com as duas mãos.

— Eu te amo, filho. Mas amor de mãe não é ser capacho. É ensinar a andar. Mesmo que doa.

Ele chorou. Eu chorei.

Abracei meu filho. O homem que ele finalmente tinha virado.

Fiquei mais seis meses com ele. Ensinando receita. Ensinando a passar roupa. Ensinando a fazer mercado. Ensinando a viver.

Ele arrumou emprego melhor. Saiu do caixa. Voltou pra área dele.

Começou a pagar aluguel simbólico. Dividia conta. Fazia janta de surpresa.

Voltou a ser meu filho. Não meu parasita.

E então, eu contei.

Numa noite de domingo, depois do jantar que ele fez (macarrão com molho de tomate que ficou bom de verdade), sentei com ele na mesa.

— Eduardo, eu preciso te contar uma coisa.

Ele olhou, preocupado:

— O que foi, mãe?

Respirei fundo.

— Há 11 meses, fui diagnosticada com câncer de pâncreas. Estágio avançado. Sem chance de cura.

O rosto dele desabou.

— O quê? Mas… mas você tá bem… você…

— Estou tomando remédio pra dor. Mas os médicos me deram entre 6 meses e 1 ano.

Ele começou a chorar.

— Por que você não me contou? Por que você…

Segurei a mão dele.

— Porque eu precisava te ensinar a viver sem mim antes de eu ir embora.

Silêncio.

— Quando você me humilhou naquele corredor, eu percebi: se eu morrer agora, você não sobrevive. Não porque falta dinheiro. Mas porque você não sabe ser gente.

Ele soluçou.

— Então eu saí. Não por raiva. Por amor. Porque mãe que ama não deixa filho na muleta. Deixa ele aprender a andar. Mesmo que caia. Mesmo que doa.

Puxei um envelope da bolsa. Coloquei na mesa.

— Esses oito meses que você achou que eu te "cortei", eu guardei cada centavo que economizei sem te sustentar. Tá tudo aqui. R$ 48 mil. No teu nome. Pra quando eu partir.

Ele olhou pro envelope como se fosse bomba.

— Eu não quero teu dinheiro, mãe. Eu quero você.

Sorri, com lágrima no rosto:

— E você me teve. Melhor do que nunca. Porque agora você é homem. E quando eu for, você vai ficar bem.

Morri quatro meses depois.

Eduardo estava do meu lado. Segurando minha mão. Homem feito. Pagando as próprias contas. Vivendo sozinho (tinha alugado um apartamento pequeno perto do trabalho).

Na hora que fechei os olhos, ouvi ele sussurrar:

— Obrigado, mãe. Por não ter desistido de mim.

E eu fui. Em paz. 


Repost
Chico- Cartas de Paz e Consolação

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A Vida em Teleprompter

 A Vida em Teleprompter

Ultimamente, tenho reparado que há gente que não vive mais: apresenta a própria vida. Acorda, pisca, respira e — se pudesse — colocaria tudo no teleprompter.

O sujeito vai pedir pão na padaria e, antes de abrir a boca, pensa:
“Boa tarde. Pausa dramática. Gostaria de dois pães franceses, por favor. Sorriso natural.

Há quem não consiga dizer “bom dia” sem antes alinhar postura, ajustar o olhar e conferir se o texto está subindo na velocidade correta. O improviso virou artigo de luxo, quase um ato de rebeldia. Falar sem roteiro? Jamais. Vai que sai uma frase espontânea, uma opinião genuína ou — pior ainda — um erro de português!

Tem gente que usa prompt pra tudo:
– Para postar foto do café: “crie uma legenda profunda, minimalista e inspiradora sobre um pão com manteiga”.
– Para terminar namoro: “escreva um texto empático, firme, sem gatilhos emocionais, mas com leve esperança futura”.
– Para pedir desculpa: “tom acolhedor, sem assumir totalmente a culpa”.

O problema não é usar prompt. O problema é não saber mais viver sem ele. A pessoa vai contar uma história e, no meio da conversa, trava. Olha pro nada, como se estivesse esperando alguém digitar: “continue”.

Rir de uma piada virou algo arriscado. Antes de soltar a gargalhada, é preciso confirmar se o humor é apropriado, se não fere ninguém, se não vai gerar debate nos comentários. Há quem ria em versão beta.

E o mais curioso: quanto mais prompts, menos humanidade. Tudo muito bem escrito, muito bem pensado… e estranhamente vazio. Falta o tropeço, a pausa errada, a palavra fora do lugar. Falta o “eu falei sem pensar, mas era isso mesmo”.

Talvez a vida não precise de teleprompter. Talvez precise só de coragem. Coragem de errar a fala, repetir frase, gaguejar ideia e, ainda assim, seguir.

Porque viver lendo texto é fácil. Difícil mesmo é viver ao vivo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

O Lixo — Luís Fernando Veríssimo (Pedagas digitais)

Em uma aula de "Boas práticas nas Redes Sociais" fiz um comentário sobre "pegadas digitais" e o "lixo" que produzimos ao longo dos anos ao usarmos as redes. Então inevitavelmente veio-me a lembrança o texot "O lixo" do autor gaucho Luís Fernando Veríssimo. O texto oportunizou-nos entender com tanta clareza o que são "pegadas" que posto aqui para quem mais quiser usar. O Veríssimo, com certeza autorizaria... No final, seguem algumas atividades propostas. Boa leitura e bom trabalho. 
Att. Emerson Fulgencio de Lima.

O lixo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo.
É a primeira vez que se falam.

— Bom dia...
— Bom dia.
— A senhora é do 610.
— E o senhor do 612.
— É.
— Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
— Pois é...

— Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
— O meu quê?
— O seu lixo.
— Ah...

— Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
— Na verdade sou só eu.
— Mmmm. Notei também que o senhor usa muita comida em lata.
— É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
— Entendo.

— A senhora também...
— Me chame de você.
— Você também, perdoe a indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida no seu lixo. Champignons, coisas assim...
— É que eu gosto muito de cozinhar, fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...

— Você não tem família?
— Tenho, mas não aqui.
— No Espírito Santo.
— Como é que você sabe?
— Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
— É. Mamãe escreve todas as semanas.
— Ela é professora?
— Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
— Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.

— O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
— Pois é...

— No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
— É.
— Más notícias?
— Meu pai. Morreu.
— Sinto muito.
— Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
— Foi por isso que você recomeçou a fumar?
— Como é que você sabe?
— De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
— É verdade. Mas consegui parar outra vez.
— Eu, graças a Deus, nunca fumei.
— Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimidos no seu lixo...
— Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou.
— Você brigou com o namorado, certo?
— Isso você também descobriu no lixo?
— Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
— É, chorei bastante, mas já passou.
— Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
— É que eu estou com um pouco de coriza.
— Ah.

— Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
— É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
— Namorada?
— Não.
— Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
— Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
— Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
— Você já está analisando o meu lixo!
— Não posso negar que o seu lixo me interessou.

— Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
— Não! Você viu meus poemas?
— Vi e gostei muito.
— Mas são muito ruins!
— Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
— Se eu soubesse que você ia ler...
— Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
— Acho que não. Lixo é domínio público.
— Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
— Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...

— Ontem, no seu lixo...
— O quê?
— Me enganei ou eram cascas de camarão?
— Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
— Eu adoro camarão.
— Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
— Jantar juntos?
— É.
— Não quero dar trabalho.
— Trabalho nenhum.
— Vai sujar a sua cozinha?
— Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
— No seu lixo ou no meu?

VERÍSSIMO, Luís Fernando. O analista de Bagé. RJ: Objetiva. 2002

ATIVIDADES DE INTERPRETAÇÃO – “O Lixo”, de Luís Fernando Veríssimo

1. Compreensão Literal

1. Onde os personagens se encontram pela primeira vez?
2. O que eles estavam carregando quando se encontraram?
3. Por que a mulher sabe que o homem é do Sul?
4. O que o homem descobre sobre a mulher a partir do lixo dela?
5. Por que o homem voltou a fumar?

2. Interpretação e Análise

6. Como o lixo funciona como meio de “conversa” entre os personagens, mesmo antes de eles se conhecerem?
7. O que os detalhes observados no lixo revelam sobre a personalidade de cada um?
8. Em que momento percebemos que o homem começou a se interessar por ela?
9. O que a atitude dos dois revela sobre privacidade e invasão de intimidade?
10. Como o humor é construído ao longo do diálogo?

3. Reflexão Crítica

11. Você considera correto ler e analisar o lixo de outra pessoa? Justifique sua resposta.
12. Hoje em dia, além do lixo físico, deixamos “rastros” de outras formas. Quais seriam?
13. No conto, o lixo aproxima os personagens. Na vida real, essas informações poderiam afastar ou prejudicar alguém? Explique.

ATIVIDADE EXTRA: “O Lixo” e as PEGADAS DIGITAIS

Contexto:
Assim como no conto o lixo revela hábitos, sentimentos e aspectos íntimos dos personagens, na internet também deixamos rastros que revelam muito sobre nós: pesquisas, curtidas, compras, localização, mensagens, fotos, etc. São as chamadas pegadas digitais.

Atividade: “O que meu lixo digital diz sobre mim?”

Instrução para o aluno:

  1. Liste cinco tipos de pegadas digitais que você deixa quando usa a internet (ex.: histórico de busca, stories, comentários...).

  2. Agora, relacione cada um deles com algo semelhante ao “lixo” no conto.

    • O que alguém descobriria sobre você apenas observando esses rastros?

  3. Depois, responda:

    • Você ficaria confortável se um desconhecido analisasse essas informações? Por quê?

    • O que isso diz sobre a necessidade de proteger nossa privacidade digital?

  4. Por fim, escreva um parágrafo explicando como o conto “O Lixo” pode servir como metáfora para os perigos e cuidados com nossas pegadas digitais.

✔ Objetivo da atividade:

  • Desenvolver consciência crítica sobre privacidade.

  • Comparar texto literário com situações contemporâneas.

  • Relacionar literatura, tecnologia e ética.


domingo, 16 de novembro de 2025

O Coração que Escolheu Amora

Era uma vez uma menina chamada Amora, que tinha esse nome porque, desde pequena, sua risada lembrava o doce das amoras maduras. Amora morava em uma casa cheia de crianças, cores e brinquedos compartilhados. Lá, todos esperavam um dia encontrar uma família.

Amora gostava de desenhar corações.
Desenhava corações vermelhos, azuis, verdes, dourados…
Dizia que cada coração tinha um sonho diferente.
Mas o coração que ela mais desenhava era o “coração que escolhe” — um coração grande, brilhante, que encontrava outro coração só seu.

Um dia, enquanto Amora pintava mais um de seus corações na varanda, chegou um casal: Dona Lídia e Seu Pedro. Eles caminhavam devagar, observando cada criança com muito carinho. Amora continuou desenhando, tímida, mas com esperança piscando nos olhos.

— Que coração bonito é esse? — perguntou Dona Lídia, encantada.

— É o coração que escolhe — respondeu Amora. — Ele sempre encontra alguém que combina com ele.

Dona Lídia e Seu Pedro se entreolharam.
Seu Pedro sorriu devagar.

— E você acha que o seu já encontrou alguém? — perguntou ele.

Amora pensou por um instante. Depois, colocou o lápis no chão, respirou fundo e disse:

— Eu acho que… talvez… hoje ele esteja escolhendo.

Dona Lídia se ajoelhou ao lado dela.

— Sabia que o nosso coração também estava procurando alguém? — disse, com a voz macia. — Procurando alguém exatamente como você.

O coração de Amora pulou dentro do peito. Era como se todas as amoras doces do mundo tivessem estourado de alegria ali dentro.

Naquele dia, Amora empacotou seus desenhos, abraçou todos os amigos e saiu segurando a mão de sua nova família. Na porta, ela olhou para trás e viu o sol brilhando diferente, como se estivesse sorrindo para ela.

Na nova casa, Amora ganhou um quarto todo decorado com seus desenhos de coração. E, no centro da parede principal, ela colocou o maior de todos: o coração que escolhe.

— Por que esse aqui fica no meio? — perguntou Seu Pedro.

Amora sorriu.

— Porque foi ele que nos encontrou.

E, desde então, sempre que alguém perguntava a história dela, Amora dizia com orgulho:

— Eu sou a menina que foi escolhida pelo coração.

E sua risada doce continuava enchendo a casa de alegria, igualzinha ao sabor das amoras maduras no pé.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Aibofobia é o medo de palíndromos

Aibofobia é o medo de palíndromos, palavras ou frases que se leem da mesma forma de trás para frente (como "arara" ou "socorram-me subi no ônibus em Marrocos"). A palavra "aibofobia" é, ironicamente, ela mesma um palíndromo. A expressão foi criada na década de 70 para brincar com a ideia de medo de palavras longas e complicadas.
O que é um palíndromo: Uma palavra, frase ou numeral que, quando lido de trás para frente, resulta na mesma sequência (ignorando-se acentos e espaços). 
Exemplos de palíndromos: "ovo", "radar", "Otto", "Roma é amor" e "20/02/2002". 
Origem da palavra: A intenção ao criar o termo foi jocosa, já que a palavra criada para designar o medo de palíndromos é também um palíndromo. 
Fontes: IA Google. 

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Lorenzo e as Sementes da Transformação

 Lorenzo era um menino obediente, dedicado e estudioso. Todos os anos, saía de férias uma semana antes da data prevista no calendário, pois suas notas na escola eram excelentes. Como recompensa, passava alguns dias na casa dos avós, que moravam em uma pequena cidade do interior do Paraná.

Os dias ao lado dos avós eram repletos de ternura e aprendizado. A casa tinha um encanto especial. Sua avó, dona Luzia, fazia lindos bordados e, todas as tardes, preparava uma mesa delicadamente arrumada para o tradicional chá. A mesa transbordava de delícias: bolachas pintadas, bolo de reis e outras guloseimas irresistíveis. O chá, com um toque de cravo e canela, exalava um aroma que parecia vir de um mundo encantado.

Seu avô, Jonadab, era uma pessoa singular. Apaixonado por leitura, mantinha uma biblioteca em casa e adorava contar histórias. Todas as noites, sentado em sua cadeira favorita — que até levava seu nome gravado —, ele mergulhava Lorenzo em narrativas fascinantes.

Certa noite, Lorenzo perguntou:

— Vô, de onde vêm essas histórias? O senhor inventa tudo?

Jonadab sorriu, pensativo.

— Algumas, sim. Outras são segredos guardados, esperando o momento certo para serem revelados.

Lorenzo franziu a testa, intrigado, mas o avô apenas piscou para ele e mudou de assunto.

As manhãs na casa dos avós eram agitadas. Depois do café, Lorenzo ajudava a avó nos afazeres da casa. Ela lhe ensinava receitas que preparariam para o almoço. Um dia, fricassê; no outro, madalena; moranga com carne seca, feijão melhorado — como ela chamava o feijão com linguiça calabresa e outras carnes saborosas —, farofa com muito coentro... Cada prato era uma nova descoberta.

À tarde, o tempo era do avô. Depois da soneca pós-almoço, Jonadab sempre tinha uma engenhoca para mostrar. Eles já haviam confeccionado juntos uma coleção de jogos de tabuleiro ao longo das férias passadas: Mancala, Jogo da Onça, Jogo Real de Ur e muitos outros.

Mas naquela tarde, algo diferente aconteceu.

O avô acordou da soneca e chamou Lorenzo com um brilho misterioso no olhar.

— Venha comigo. Tenho algo especial para lhe mostrar.

Lorenzo o seguiu até a biblioteca. Jonadab abriu uma gaveta e retirou uma porção de sementes, colocando-as sobre a mesa.

Os olhos de Lorenzo brilharam de curiosidade.

— Sementes, vô? Para plantar?

— Sim... — Jonadab sorriu. — Mas não são sementes comuns.

Eram pequenos pacotinhos transparentes, cheios de sementes coloridas e brilhosas. Em cada pacote, uma etiqueta com palavras escritas à mão. Lorenzo pegou um deles e leu em voz alta:

— “Semente da transformação.”

Ele olhou para o avô, intrigado.

— O que acontece quando plantamos?

Jonadab sorriu de canto.

— Isso, meu neto, só podemos descobrir de um jeito...

Lorenzo sentiu o coração acelerar. Agora só tinha uma coisa em mente: plantar.

— Calma, Lorenzo! — disse o avô. — Você precisará ter muito cuidado com essas sementes, pois não pode desperdiçá-las.

Lorenzo saiu pensativo da biblioteca, segurando um dos pacotinhos.

“Sementes da transformação”, repetia em sua mente. “Será que posso transformar o mundo? Transformar as pessoas?”

A ideia parecia grandiosa, mas algo dentro dele o fez hesitar. “E se isso fosse errado? E se eu estivesse interferindo no livre-arbítrio de cada um?”

Ele parou no meio do caminho e pensou em voz alta:

— Não posso impor uma transformação... mas posso sugerir.

Um sorriso nasceu em seu rosto. Sim, ele poderia criar cenários fascinantes, que fariam as pessoas se transformarem por si mesmas, apenas observando o mundo ao seu redor.

Respirou fundo, sentindo a brisa suave da tarde.

— E o agricultor das sementes transformadoras... saiu a transformar! — disse, rindo. — Opa, quero dizer... saiu a plantar!


Próximo à casa dos avós, havia uma família que vivia em discussão. Ouvia-se de longe quando estavam em conflito. Trocavam xingamentos uns com os outros: pai com filho, filho com mãe, irmão com irmão. Parecia que não se amavam. Todos os dias havia um conflito novo.

Lorenzo pensou: o que uma semente poderia fazer ali, naquele ambiente? Ou ainda... talvez precisasse de muitas sementes ali. E dedicou-se àquela primeira plantação.

A família tinha um filho da idade de Lorenzo — então aquela seria a porta de entrada.

Lorenzo bateu palmas.

— Olá! Sou o Lorenzo, neto do senhor Jonadab e da dona Luzia. Vim passar as férias na casa dos meus avós. Posso brincar com seu filho, senhora?

A mulher que o atendera à porta viu um sorriso no rosto de Lorenzo e percebeu que ali existia bondade.

— Claro, pode sim. Vou chamá-lo. Robertinho! Venha aqui! O vizinho veio brincar com você!

Lorenzo cumprimentou o novo amiguinho, e os dois saíram correndo pelo quintal.

Havia alguns pneus velhos jogados por lá. Eles pegaram um e começaram a rodar, fazendo de conta que era o carro deles. Lorenzo estava ganhando a confiança do novo amigo.

Brincaram um pouco e então começou a execução do plano.

— Você já plantou alguma coisa na horta ou no canteiro? Já cultivou alguma planta? — perguntou Lorenzo.

O menino respondeu depressa, sem pensar:

— Nunca!

— Vamos fazer umas floreiras em sua casa? Eu gosto de flores e plantas.

Então os dois correram até a casa dos avós de Lorenzo, pegaram ferramentas e começaram o trabalho.

A mãe de Robertinho achou aquilo o máximo. As crianças estavam brincando em harmonia — era lindo de se ver. E, mais do que depressa, a mãe se propôs a ajudar, pois viu que seria um trabalho grande.

— O dia passou tão rápido! — disse a mãe de Robertinho a Lorenzo. — Vamos nos lavar, que vou preparar alguma coisa para comermos.

Lorenzo não pôde ficar, pois já era tarde e precisava ajudar a avó no jantar.

— Amanhã eu volto — disse Lorenzo. — Trarei as sementes para plantarmos.

A mulher, com um sorriso que há muito não se via, despediu-se do novo vizinho e amigo do filho. Entrou em casa abraçada com Robertinho, cantando e conversando sobre o canteiro e o que fizeram naquela tarde encantadora.

O pai de Robertinho chegou, viu que existiam mudanças: alguma coisa havia revirado a terra da frente da casa. Mal sabia ele que a reviravolta seria ainda maior.

Robertinho, ao ver o pai, correu ansioso para contar-lhe sobre o que fizeram à tarde — sobre Lorenzo, o canteiro, o futuro jardim.

Enquanto isso, a mãe preparava o jantar. Os outros irmãos chegaram e viram que algo diferente estava acontecendo: o pai conversando com Robertinho, a mãe arrumando a mesa cantarolando algo. Ficaram assustados — a terra na frente da casa toda remexida, a mãe e o Robertinho cheirosos, de banho tomado, e uma alegria no ar que ninguém sabia explicar.

— Venham todos! — chamou a mãe. — Está pronto!

O cheiro estava delicioso, a mesa bem arrumadinha. Todos se sentaram.

— Mãe, o que é aquilo lá na frente da casa? — perguntou o filho mais velho.

— Estamos fazendo um jardim — respondeu Robertinho. — O Lorenzo vai trazer as sementes para plantarmos amanhã.

— Quem é o Lorenzo? — perguntou o filho do meio.

— O neto da nossa vizinha, dona Luzia.

— Mas, mãe, nós nunca conversamos com eles! Como o Lorenzo veio parar aqui?

— Ele veio chamar o Robertinho para brincar. Os dois são praticamente da mesma idade.

— Hummm... entendi — respondeu o mais velho. — É aquele menino que sempre vem passar as férias com os avós, não é?

— Sim, ele mesmo.

Todos jantaram. A mãe começou a recolher a louça, e Robertinho foi ajudá-la — o que causou espanto nos irmãos. O exemplo, porém, já começava a dar frutos. O irmão mais velho percebeu a mudança e também se levantou para ajudar.

— Precisamos dormir e descansar — disse a mãe. — Amanhã temos que terminar o nosso jardim.

— Isso mesmo! — completou Robertinho. — Amanhã o trabalho será o dia todo!

Naquela noite, depois de muito tempo, a casa descansou em silêncio de paz.

Na manhã seguinte, bem cedinho, o cheirinho de café despertou todos. Robertinho já estava no quintal esperando o amigo Lorenzo com as sementes.

— Vô, quais sementes devo plantar hoje no jardim dos nossos vizinhos? — perguntou Lorenzo.

O avô sorriu com ternura.

— Filho, hoje você vai plantar várias sementes. E, no momento em que estiver plantando, diga ao seu amiguinho sobre a importância de regar todos os dias, pois elas precisam nascer, crescer e florescer. O cuidado com as plantas é muito parecido com o cuidado que temos uns com os outros. O amor é um sentimento que precisa ser zelado, alimentado.

— Uma vez meu pai me disse que o amor é como um fogo: se você põe combustível nele, ele fica forte, ardente; se não se preocupa, ele apaga. E depois, para reacender, é muito difícil — às vezes até impossível.

— Então explique isso para o seu novo amiguinho. As plantas, assim como as pessoas, precisam ser bem cuidadas, observadas, servidas, atendidas, protegidas, amadas...

Lorenzo saiu dali saltando de alegria. O avô havia preparado o semeador para muito mais do que um único jardim.

Chegando à casa dos novos amigos, lá estavam mãe e filho preparados para o grande dia: plantar as sementes no mais novo jardim da rua. O jardim estava mudando a história daquela casa, daquela família, daquela rua.

— Oi, Lorenzo! — saudou Robertinho, sorridente. — Estamos prontos!

Lorenzo, com os olhos brilhantes e um sorriso de lado, respondeu:

— Oiiii! Essa noite quase nem dormi, e vocês?

Todos riram.

Hora de começar.

Lorenzo tirou os pacotinhos do bolso. As sementes eram coloridas, apaixonantes, hipnotizantes.

Cada pacote tinha um nome, e isso chamou a atenção da mãe de Robertinho.

— Lorenzo, que flor é essa? No pacotinho está escrito “Mais sorrisos”.

Lorenzo respondeu, lembrando-se das palavras do avô:

— Essa planta, quando florescer, vai encantar as pessoas de tal maneira que todos que passarem por esta rua não conseguirão fazer cara feia.

As risadas ecoaram longe.

Robertinho, curioso, pegou outro pacote.

— Nesse aqui está escrito “Amizade”. O que é isso, Lô?

Lorenzo vivia um momento único. Sentia-se o professor da jardinagem do amor.

— Amizade é algo que precisamos cultivar em nossas vidas, Ricardinho. Um bom amigo é mais que um irmão. Ter amigos permite que nossas vidas sejam mais completas, nos faz reconhecer o quanto precisamos uns dos outros. Amizade é algo que deve florescer sempre.

Lorenzo também queria plantar e escolheu suas sementes.

— Vou plantar essas aqui!

— Deixa eu ver, Lorenzo? — pediu a mãe de Robertinho. — Uau! Está escrito “Sementes da família”. Nunca tinha visto isso antes. Já estou curiosa para ver as flores que vão nascer. Onde seu avô conseguiu isso, menino?

— As “sementes da família”, meu avô disse que são plantadas o ano todo, a vida toda. Essas sementes são a grande esperança de que estamos cumprindo o maior projeto de Deus, que é a família. Mas não devemos apenas plantar — e sim ensinar as pessoas a cuidar, para que floresçam. Assim como um pai que tem filhos, e os filhos têm filhos, que são os netos, e assim por diante.

— Essas sementes são tão poderosas que, uma vez plantadas, dão flores cujas pétalas caem na terra e permitem nascer novas flores. Não é legal? Meu avô até falou que essas flores são como uma grande bênção que se derrama na vida de uma pessoa. Elas ultrapassam gerações e atingem os filhos dos nossos filhos...

Aquele dia ficaria marcado na história daquelas pessoas.

— Lorenzo, já é meio-dia! Meu Deus, o papai e seus irmãos já vão chegar! — disse a mãe de Robertinho. — Me envolvi tanto que nem lembrei de preparar o almoço!

Para surpresa de todos, tudo já havia sido preparado. A vó Luzia e o vô Jonadab estavam com tudo pronto. Fizeram um banquete para a família do amiguinho de Lorenzo.

Quando o pai de Robertinho chegou, foi a maior surpresa. Todos já estavam esperando para, juntos, irem à casa ao lado almoçar.

Uma mesa comprida estava posta, com pratos, copos, guardanapos de pano, talheres — tudo muito bem organizado pelo vô Jonadab, que adorava arrumar a mesa nos mínimos detalhes. A vó Luzia fizera tudo com o maior carinho — até farofa com coentro tinha!

Todos estavam maravilhados com o que a amizade podia gerar. A mãe de Robertinho sorria sem parar; ela não vivia uma harmonia assim há muito tempo. O pai não tinha palavras. Vivia ali há tanto tempo e jamais havia sequer cumprimentado o senhor Jonadab. Amizades que poderiam ter tornado a vida muito mais significativa, bela e verdadeira.

— O almoço está uma delícia, dona Luzia — disse Robertinho.

— Você ainda não sabe o que vem por aí — respondeu ela, sorrindo. — Fiz bolo de reis, curau e, como sei que o Jonadab gosta de pudim, fiz um só pra ele. Mas vocês devem comer um pouquinho de cada!

— Meu Deus, quanta coisa boa, dona Luzia! — falou o filho mais velho, ainda de boca cheia.

— Sr. Jonadab — interrompeu a mãe de Robertinho —, onde o senhor arrumou aquelas sementes tão diferentes?

Jonadab sorriu e respondeu:

— Então, meus vizinhos... A vida nos permite opções. Escolhemos todos os dias se iremos ser felizes ou tristes, se iremos sorrir ou chorar. Não é fácil, mas temos a oportunidade de construir nosso mundo sempre, todas as manhãs.

— Durante muito tempo, comecei a cultivar flores e percebi que elas passam por um processo muito parecido como o da vida. Temos que preparar a terra, tirar os matinhos, regar, proteger do sol, do frio, dos invasores. Assim é a família.

— As flores, para mim, são como a família. Já perceberam que sempre que florescem, vêm em cachos? Dificilmente estão sozinhas em uma planta. Quando eu guardava uma semente para o próximo cultivo, por não saber o nome de todas, fui colocando aqueles nomes que vocês viram. Sempre acreditei que um jardim atrai pessoas, alegra, tira suspiros e sorrisos apaixonantes. É assim que vejo a família.

— Parabéns, senhor Jonadab. Parabéns, dona Luzia. Vocês são um exemplo de família — disse a mãe de Robertinho.

Robertinho e Lorenzo se abraçaram enquanto a vó Luzia servia mais pudim.

— Estou curioso para ver as flores que vão nascer no nosso jardim, Robertinho. Me manda foto, pois semana que vem já volto pra minha casa — disse Lorenzo.

— Deixa comigo, Lorenzo — respondeu a mãe de Robertinho.

O pai de Robertinho também quis participar:

— Estou pensando em até pintar a casa, Lorenzo, pra combinar com as flores! — brincou.

— Eu ajudo! — disse um dos filhos.

— Eu também! — completou o outro.

A família havia sido envolvida nesse novo projeto. As sementes estavam plantadas. O semeador havia feito seu papel. Agora era hora de cuidar — para que todos pudessem viver um grande florescer.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

O Perdão

O Perdão 

(baseado em Efésios 4:32 — “Sede bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-vos como Deus vos perdoou em Cristo.”)

Era uma manhã ensolarada, e Lia brincava feliz no quintal. 
As flores balançavam com o vento, e o cheiro doce das margaridas enchia o ar.

Mas, de repente, Lia ouviu uma voz zangada:

— Você pegou meu brinquedo sem pedir! — gritou sua amiga Sofia. 

Lia ficou vermelha de raiva.
— Não era seu, era meu! — respondeu, cruzando os braços.
As duas se viraram e foram embora, magoadas. 

O dia passou devagar. Lia sentia um peso no peito, mas não queria admitir que estava triste.
Foi então que ouviu um piado fraquinho vindo do jardim.

— Pi... pi... 

Atrás de uma moita, Lia encontrou um passarinho caído, com a asa machucada.
— Oh, pobrezinho! Eu vou te ajudar. — disse ela, pegando-o com cuidado.

Com o coração cheio de compaixão, Lia limpou a asinha, fez um curativo com um pedacinho de pano e o colocou numa caixinha com algodão.
Durante dias, ela cuidou do passarinho com amor. 

Mas um dia, enquanto trocava a água, o passarinho bicou o dedo dela.
— Ai! Isso doeu! — gritou Lia, assustada.
Por um instante, sentiu vontade de deixá-lo sozinho...
Mas o olhou de novo e pensou:
— Ele não quis me machucar. Está com medo.

Então, Lia sorriu e disse baixinho:
— Eu te perdoo, pequenino. Todos erramos às vezes.

No domingo seguinte, Lia foi à igreja com sua família. O pastor contou a história de Jesus, que perdoou até quem o machucou.
O coração de Lia bateu mais forte. Ela entendeu. 

Assim que chegou em casa, correu até a casa de Sofia.
— Sofia, me desculpa por ter brigado com você.
Sofia sorriu e respondeu:
— Eu também quero te pedir perdão.

As duas se abraçaram e foram brincar no jardim. 
O passarinho, agora curado, voou sobre elas e cantou alto, como se dissesse:
— O perdão faz o coração voar mais alto! 

Perdoar é cuidar com amor, mesmo quando dói.
Foi assim que Lia aprendeu o que Jesus quis dizer. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

A vara e o mundo (O pai, a mãe, o professor) Todo dia é dia do professor.

A vara e o mundo (O pai, a mãe, o professor) 

Antigamente, havia uma vara atrás da porta. Não era enfeite, nem ameaça de mentira. Era símbolo de limite — simples, visível, compreendido.
Quando a criança aprontava alguma peraltice, sabia o que a esperava. Ia até o canto, pegava a vara com as próprias mãos e entregava à mãe. Não corria. Chorava, é verdade, mas entendia.
Era a dor curta que ensinava a lição longa.

O pai não gritava, não precisava. Bastava um olhar. Autoridade não era violência — era presença. Era o saber que o “não” significava “não” e o “agora” significava “agora”.
E, curiosamente, havia respeito. E amor. Amor daqueles que não temem, mas reconhecem a importância do limite.

Mas os tempos mudaram.
A vara foi escondida, depois esquecida, e por fim condenada.
Os pais deixaram de corrigir, não por medo de machucar, mas por preguiça de ensinar.
Trocaram a disciplina pela desculpa, o exemplo pelo discurso.
E assim, aos poucos, perderam a autoridade — não porque deixaram de bater, mas porque deixaram de educar.

As malcriações, antes contidas na sala de casa, migraram para as salas de aula.
Lá, professores viraram reféns de olhares desafiadores e celulares em punho.
A escola, que antes moldava caráter, agora tenta apenas sobreviver ao recreio.

E o tempo continuou.
Aquelas crianças cresceram.
Saíram das escolas e foram para as ruas, onde os limites já não existiam.
Hoje, vemos vídeos de pessoas sendo abordadas por policiais e… correndo.
Fugindo da lei, da ordem, da responsabilidade — talvez até da vara que nunca conheceram.

O mundo parece cheio de adultos que nunca foram corrigidos.
De meninos que envelheceram sem aprender a ouvir “não”.
De meninas que confundem liberdade com ausência de regras.

E assim seguimos: uma sociedade que repele a vara, mas abraça o caos.
Porque, no fundo, a falta que faz não é da dor — é da lição.

Dia do professor é todo dia.