quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

"Que nojo, mãe. você tá ficando gagá!"

"Que nojo, mãe. você tá ficando gagá!" Meu filho disse isso quando me vi de pé numa poça da minha própria urina. Eu tinha 68 anos. Ele tinha 44. E morava de graça na minha casa...Meu nome é Margarida. Tenho 68 anos. Viúva há 12. Mãe de um filho único: Eduardo.E naquele dia, parada no corredor da minha própria casa, tremendo de vergonha, molhada da cintura prabaixo, eu entendi uma coisa:

Eu criei um monstro. E dei a ele as chaves do reino. 

Eram 7h20 da manhã.

Eu estava na porta do banheiro havia 45 minutos.

Batendo de leve. Depois batendo mais forte. Depois implorando:

— Eduardo, filho, eu preciso usar o banheiro… por favor…

Do outro lado da porta, o chuveiro ligado. Vapor saindo por baixo. Ele cantarolando.

45 minutos.

Eu, com 68 anos, bexiga que não segura mais como antes, corpo que não obedece como antigamente, segurando.

Apertando as pernas. Respirando fundo. Rezando pra aguentar.

Até que não aguentei.

Senti o quente descendo pela perna. A calça de moletom encharcando. A poça se formando no chão de cerâmica.

Comecei a chorar. De vergonha. De humilhação.

E foi nessa hora que a porta abriu.

Eduardo saiu, toalha na cintura, cabelo molhado, celular na mão.

Olhou pra mim. Olhou pra poça. Fez uma careta de nojo.

E disse:

— Que nojo, mãe. Já tá senil. Limpa isso antes que a casa toda fique fedendo.

Passou por cima da poça. Entrou no quarto dele. Bateu a porta.

Não perguntou se eu tava bem.

Não pediu desculpa por ter demorado.

Não estendeu a mão.

Só nojo.

Fiquei ali, parada, pingando.

Lembrei de quando ele nasceu. Pequeno. Frágil. Chorando no meu colo.

Lembrei de quando limpei a fralda dele mil vezes. Sem nojo. Sem reclamar.

Lembrei de quando paguei faculdade particular porque ele "não passava em federal".

Lembrei de quando ele se divorciou e voltou pra minha casa "só até se reerguer".

Isso faz 8 anos.

Oito anos morando de graça. Comendo da minha comida. Gastando minha luz, minha água, meu gás. Sem pagar um centavo de aluguel.

Oito anos enquanto eu, aposentada com um salário mínimo e meio, fazia mágica pra pagar conta, comprar remédio, e ainda dar a ele "conforto".

E ele me tratava como empregada.

Roupa suja largada no chão pra eu lavar.

Louça na pia pra eu fazer.

Banho de 50 minutos enquanto eu esperava na porta.

E agora, nojo.

Tomei banho. Troquei de roupa. Limpei o chão com lixívia.

E enquanto esfregava, tomei uma decisão.

Acabou.

Na segunda-feira, tirei o nome dele da conta de luz.

Na terça, tirei da conta de água.

Na quarta, cancelei a internet.

Na quinta, troquei a senha do wifi (que eu paguei roteador novo só pra isso).

Na sexta, esvaziei a geladeira e levei tudo pra casa da minha irmã.

No sábado, sentei na sala e esperei.

Eduardo acordou meio-dia. Foi pro banheiro. Tentou ligar o chuveiro.

Água fria.

Gritou:

— MÃE! O chuveiro tá quebrado!

Eu, sentada no sofá, livro aberto, respondi calma:

— Não tá quebrado. A conta de luz tá no teu nome agora. E como você não pagou, cortaram.

Silêncio.

Ele saiu do banheiro, olhou pra mim como se eu tivesse enlouquecido:

— Como assim no MEU nome?

— A casa é minha. Mas as contas agora são tuas. Se quer morar aqui, paga. Ou sai.

Ele deu uma risada de escárnio:

— Mãe, tu tá de brincadeira. Eu não tenho dinheiro pra isso.

— Então arranja.

— COMO? Eu tô desempregado!

Olhei firme:

— Eduardo, você tem 44 anos. Engenheiro formado. Oito anos "se reerguendo" na minha casa. Acho que já deu tempo de levantar, não acha?

Ele explodiu:

— A senhora tá louca! Eu sou teu FILHO! A senhora tem OBRIGAÇÃO de me ajudar!

Levantei. Peguei a bolsa. Calcei o sapato.

— Eu te ajudei 44 anos. Agora você se ajuda.

E saí.

Fui morar na casa da minha irmã por três meses.

Eduardo ligava todo dia. Xingando. Chorando. Implorando.

Eu bloqueava.

Descobri, pela vizinha, que ele tinha arrumado emprego num supermercado. Caixa. Salário mínimo.

Que tinha vendido o videogame pra pagar luz.

Que tava comendo miojo porque não sabia cozinhar.

Que tava lavando a própria roupa (mal lavada, segundo a vizinha, mas tava lavando).

Bem feito.

Três meses depois, voltei pra casa.

Toquei a campainha. Ele abriu.

Tava mais magro. Barba por fazer. Olheiras. Roupa amassada.

Me olhou e não disse nada. Só abriu a porta.

Entrei.

A casa tava uma bagunça, mas limpa. Cheiro de desinfetante. Louça lavada (mal enxaguada, mas lavada). Roupa no varal.

Sentei no sofá.

Ele sentou do outro lado, cabeça baixa.

Ficamos em silêncio por cinco minutos.

Até que ele falou, voz embargada:

— Eu… eu te pedi desculpas?

— Não.

— Então eu peço agora. Desculpa, mãe.

Olhei pra ele. Olhos vermelhos. Mãos tremendo.

— Desculpa por quê?

Ele respirou fundo:

— Por tudo. Por ter te tratado como empregada. Por ter te humilhado. Por ter achado que você me devia alguma coisa. Por… — a voz quebrou — …por ter sentido nojo de você quando você precisava de mim.

Silêncio.

— Eu tô trabalhando, mãe. Ganhando pouco. Mas tô pagando as contas. Tô aprendendo a cozinhar (mal, mas tô tentando). Tô limpando a casa. E… — ele olhou pra mim, finalmente — …eu entendi. Eu entendi o que você fez a vida inteira sozinha.

Levantei. Fui até ele. Segurei o rosto dele com as duas mãos.

— Eu te amo, filho. Mas amor de mãe não é ser capacho. É ensinar a andar. Mesmo que doa.

Ele chorou. Eu chorei.

Abracei meu filho. O homem que ele finalmente tinha virado.

Fiquei mais seis meses com ele. Ensinando receita. Ensinando a passar roupa. Ensinando a fazer mercado. Ensinando a viver.

Ele arrumou emprego melhor. Saiu do caixa. Voltou pra área dele.

Começou a pagar aluguel simbólico. Dividia conta. Fazia janta de surpresa.

Voltou a ser meu filho. Não meu parasita.

E então, eu contei.

Numa noite de domingo, depois do jantar que ele fez (macarrão com molho de tomate que ficou bom de verdade), sentei com ele na mesa.

— Eduardo, eu preciso te contar uma coisa.

Ele olhou, preocupado:

— O que foi, mãe?

Respirei fundo.

— Há 11 meses, fui diagnosticada com câncer de pâncreas. Estágio avançado. Sem chance de cura.

O rosto dele desabou.

— O quê? Mas… mas você tá bem… você…

— Estou tomando remédio pra dor. Mas os médicos me deram entre 6 meses e 1 ano.

Ele começou a chorar.

— Por que você não me contou? Por que você…

Segurei a mão dele.

— Porque eu precisava te ensinar a viver sem mim antes de eu ir embora.

Silêncio.

— Quando você me humilhou naquele corredor, eu percebi: se eu morrer agora, você não sobrevive. Não porque falta dinheiro. Mas porque você não sabe ser gente.

Ele soluçou.

— Então eu saí. Não por raiva. Por amor. Porque mãe que ama não deixa filho na muleta. Deixa ele aprender a andar. Mesmo que caia. Mesmo que doa.

Puxei um envelope da bolsa. Coloquei na mesa.

— Esses oito meses que você achou que eu te "cortei", eu guardei cada centavo que economizei sem te sustentar. Tá tudo aqui. R$ 48 mil. No teu nome. Pra quando eu partir.

Ele olhou pro envelope como se fosse bomba.

— Eu não quero teu dinheiro, mãe. Eu quero você.

Sorri, com lágrima no rosto:

— E você me teve. Melhor do que nunca. Porque agora você é homem. E quando eu for, você vai ficar bem.

Morri quatro meses depois.

Eduardo estava do meu lado. Segurando minha mão. Homem feito. Pagando as próprias contas. Vivendo sozinho (tinha alugado um apartamento pequeno perto do trabalho).

Na hora que fechei os olhos, ouvi ele sussurrar:

— Obrigado, mãe. Por não ter desistido de mim.

E eu fui. Em paz. 


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Chico- Cartas de Paz e Consolação

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