segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A Vida em Teleprompter

 A Vida em Teleprompter

Ultimamente, tenho reparado que há gente que não vive mais: apresenta a própria vida. Acorda, pisca, respira e — se pudesse — colocaria tudo no teleprompter.

O sujeito vai pedir pão na padaria e, antes de abrir a boca, pensa:
“Boa tarde. Pausa dramática. Gostaria de dois pães franceses, por favor. Sorriso natural.

Há quem não consiga dizer “bom dia” sem antes alinhar postura, ajustar o olhar e conferir se o texto está subindo na velocidade correta. O improviso virou artigo de luxo, quase um ato de rebeldia. Falar sem roteiro? Jamais. Vai que sai uma frase espontânea, uma opinião genuína ou — pior ainda — um erro de português!

Tem gente que usa prompt pra tudo:
– Para postar foto do café: “crie uma legenda profunda, minimalista e inspiradora sobre um pão com manteiga”.
– Para terminar namoro: “escreva um texto empático, firme, sem gatilhos emocionais, mas com leve esperança futura”.
– Para pedir desculpa: “tom acolhedor, sem assumir totalmente a culpa”.

O problema não é usar prompt. O problema é não saber mais viver sem ele. A pessoa vai contar uma história e, no meio da conversa, trava. Olha pro nada, como se estivesse esperando alguém digitar: “continue”.

Rir de uma piada virou algo arriscado. Antes de soltar a gargalhada, é preciso confirmar se o humor é apropriado, se não fere ninguém, se não vai gerar debate nos comentários. Há quem ria em versão beta.

E o mais curioso: quanto mais prompts, menos humanidade. Tudo muito bem escrito, muito bem pensado… e estranhamente vazio. Falta o tropeço, a pausa errada, a palavra fora do lugar. Falta o “eu falei sem pensar, mas era isso mesmo”.

Talvez a vida não precise de teleprompter. Talvez precise só de coragem. Coragem de errar a fala, repetir frase, gaguejar ideia e, ainda assim, seguir.

Porque viver lendo texto é fácil. Difícil mesmo é viver ao vivo.

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