De onde vem esse “não pode”, se não há um padrão absoluto?
Ele disse que não acreditava em Deus.
Disse com a tranquilidade de quem escolhe café sem açúcar: simples, sem drama.
E logo emendou, quase como um alívio:
— Então pecado não existe pra mim.
Fiquei pensando nisso enquanto atravessava a rua, desviando de gente apressada e de um cachorro que parecia saber mais da vida do que todos nós juntos.
Talvez ele tivesse razão.
Pecado, essa palavra antiga, pesada, carregada de púlpito e culpa, realmente precisa de Deus para existir. Afinal, como ofender alguém em quem não se crê?
Mas o curioso é que, mesmo sem Deus, ele continuava usando outras palavras.
Falava em injustiça, em desrespeito, em limites que não podem ser ultrapassados.
Se indignava com corrupção, se revoltava com a violência, se entristecia com a mentira.
Não chamava de pecado — chamava de absurdo.
Mudou o nome, mas não o desconforto.
No fundo, ninguém vive num mundo onde tudo é permitido. Nem os que negam o céu conseguem morar no caos. Sempre há algo que “não se faz”. Um território invisível que, quando pisado, provoca culpa, vergonha ou aquele silêncio constrangedor que ninguém sabe explicar.
Sem Deus, o erro vira falha.
Sem Deus, o pecado vira crime, trauma ou desvio.
Sem Deus, a consciência continua lá — só muda o vocabulário.
E isso me intriga.
Porque se o homem é a medida de todas as coisas, por que algumas coisas continuam fora de medida?
Quem escreveu esse “não pode” que insiste em sobreviver mesmo quando Deus é retirado da conversa?
Talvez o pecado só exista para quem acredita em Deus.
Mas a sensação de ter ultrapassado um limite… essa parece existir para todo mundo.
No fim das contas, talvez o problema nunca tenha sido o nome da coisa.
Talvez seja o fato de que, com ou sem fé, o ser humano continua tentando explicar por que algumas escolhas pesam tanto no coração.
E peso, convenhamos, não depende de crença.
Um comentário:
parabéns professor, ótimo texto
Postar um comentário