quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Quinze minutos

 

Foi incrível o que vivenciei hoje pela manhã.

Meu trajeto de casa até o trabalho leva apenas quinze minutos. Rápido. Curto demais para grandes acontecimentos. Mas, às vezes, quinze minutos são suficientes para guardar uma vida inteira de reflexões.

Logo no início do caminho, três senhoras seguiam para o trabalho empurrando seus carrinhos de catar papelão. Vida dura. Rotina pesada. Mas havia algo que contrariava qualquer dureza: em um dos carrinhos, bem acomodadinho dentro de uma caixa de entrega de supermercado, um menininho tomava sua mamadeira. Tinha sombrinha protegendo do sol, um travesseirinho improvisado… e um cuidado que transbordava amor. Era lindo de ver. No meio da precariedade, havia zelo. Havia ternura.

Segui adiante.

Num semáforo, um homem tomava chimarrão dentro do carro. Parava, servia a cuia, aguardava o sinal abrir. Quase paramos lado a lado. Quase pedi uma. Por um instante, fui transportado aos meus melhores dias em Chopinzinho, Paraná. O mate tem dessas coisas: ele aquece mais que as mãos, aquece memórias.

Em frente ao JL Shopping, uma moça estava sentada no chão. Mochila aos pés. Cabeça encostada nos joelhos. Ainda era cedo, o ar estava fresco. Havia um silêncio em volta dela que gritava. Parei na faixa elevada para esperar um pedestre atravessar e algo me chamou a atenção: uma senhora se aproximou, agachou-se e começou a conversar com a moça da mochila.

Talvez perguntasse:
— Você está bem?
— Precisa de algo?

Quem faz isso hoje em dia? Quem interrompe a própria pressa para cuidar do outro? Quem desacelera a rotina frenética para oferecer presença?

Uma lição em segundos.

E ainda houve mais.

Os rapazes que oferecem estacionamento para os turitas que visitarão Cidade do Leste no Paraguai. As mulheres começam a estender seus panos de pratos em um varal que servirá de vitrine durante o dia todo. Muitas pessoas já caminhando na Paraná, mantendo suas saúdes. O vendedor de quiabos na esquina.
O vendedor de chipas paraguaias — essa especiaria tão rica, tão emblemática da nossa região.
O rapaz das paçoquinhas, que dependia daqueles trocados para garantir o primeiro gole de café da manhã. Era cedo, mas a barriga já avisava.

A cidade acordava. E cada rosto carregava uma história invisível.

No último semáfaro a minha mente voltou para as três mulheres dos carrinhos. Voltou para o menino na caixinha de mercado.

Em qual escola ele irá estudar?
Qual será sua profissão?
Com quem se casará?
Quantos filhos terá?
Chegará à vida adulta?

Ou até quando esse cuidado e carinho de sua mãe serão a força que sustentará o seu futuro?

Tantas perguntas poderíamos fazer a todas as crianças de hoje. Mas fiz todas para aquela. Talvez porque seu contexto fosse tão único que, por um instante, quase duvidamos de um futuro promissor.

Lembrei-me de um texto usado para o trabalho de conclusão de curso de uma pós-graduação que fiz na UNIOESTE,  Natal na Barca, de Lygia Fagundes Telles. Aquela criança de colo que a narradora julgava estar morta. Morta para uma vida que ainda precisaria viver. Às vezes, olhamos para certas realidades e, apressadamente, decretamos destinos. Mas a vida insiste. A vida surpreende.

Refleti.

Cheguei ao destino.

A rua tão calma. O portão fechado. Abri. Sorri por estar ali. Dia de trabalho como outro qualquer. Uma escola. E, dentro dela, muitas vidas e muitos futuros passam por nossas mãos todos os dias.

Vamos fazer matrículas.
A vida de todos segue.
A nossa vida segue.

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