Ela não discutia. Ela argumentava.
Discutir, para ela, era coisa de amador. Argumentar era arte, ciência e, se deixasse, esporte olímpico.
Era uma verdadeira máquina de argumentação. Não gostava de perder uma discussão, não por orgulho, dizia , mas por “compromisso epistemológico com a verdade”. Ninguém sabia exatamente o que isso queria dizer, mas todos perdiam para ela.
Se era verde, era verde. E pronto.
Mas não “pronto” simples. Era pronto com argumento de autoridade, dados estatísticos, e, se necessário, citação de pensador renomado. “Como diria Lúcia Helena Galvão…”, começava ela. E o debate já estava encerrado antes de começar.
Um dia ela se casou e a argumentação invadiu o casamento.
— Amor, acha que devo usar o vestido azul? — perguntou ela, inocente.
— Acho lindo — respondeu o marido, distraído.
Silêncio.
Ela virou lentamente.
— Me dê três argumentos que justifiquem sua escolha.
— Hã?
— Três. Pode ser lógico, estético ou emocional. Mas fundamentado.
O marido piscou duas vezes. Pensou em correr. Ficou.
— Combina com seu olho, valoriza sua elegância e eu gosto.
Ela anotou mentalmente.
— Fraco. Muito fraco. Argumento subjetivo. Próximo.
E assim eram os dias...
Ela queria saber se as opiniões das pessoas eram realmente opiniões ou apenas ecos do vento.
— Vou votar em fulano.
— Por quê?
— Ah! todo mundo vai.
— Falácia da maioria. Próximo.
— Vou de bermuda hoje.
— Justifique.
— Tá calor, ué!
— Cite a temperatura média, por favor.
O marido começou a suspeitar que viver com ela era como fazer um doutorado permanente.
Certo dia, ele tentou surpreender:
— Amor, vamos passar nosso aniversário de casamento no Chile!
Ela arregalou os olhos.
— Chile? Interessante. Mas… por que Chile?
Ele respirou fundo.
— Vinho. Cordilheira. Neve. Romantismo.
— Continue.
— Pablo Neruda…
Ela sorriu. Era um sorriso que ele havia descoberto, com o tempo, que representava um sim vindo da alma.
— Neruda disse: “Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejeiras.”
O marido, emocionado:
— Viu? Romântico!
Ela respondeu:
— Bom argumento. Poético. Aceitável.
Foram ao Chile.
Na primeira noite, em Santiago, ele abriu um vinho.
—Este vinho tem notas de frutas vermelhas — disse.
Ela perguntou:
— Quais frutas? Percentual? Safra? Altitude da colheita?
No terceiro dia, diante da Cordilheira dos Andes, ele tentou filosofar:
—Às vezes, amor, a vida não precisa de argumento. Só precisa ser vivida.
Ela olhou séria.
Silêncio.
Depois disse:
— Continue.
Ele respirou fundo: “Ao vencedor, as batatas.” Machado de Assis.
No casamento, às vezes, não precisamos argumentos. E tudo bem.
Ela ficou pensativa.
— Interessante, muito interessante.
Pausa.
— Mas formule melhor.
Ele desistiu.
Meses depois, discutiam sobre comprar um carro.
— Motor?
—1.6.
— Cavalos?
— 120.
— Porta-malas?
— 450 litros.
— Consumo urbano?
— Não sei!
Ela cruzou os braços.
— Argumentação incompleta.
Ele olhou para o teto e murmurou:
— “Escuta, garota, será a estrada uma prisão?”
Ela respondeu imediatamente:
— Engenheiros do Hawaii. Boa referência cultural. Mas não responde minha pergunta.
Apesar de tudo, eles riam. Riam muito, riam juntos.
Porque, no fundo, ela não queria vencer discussões. Queria sentido. Queria verdade. Queria que as escolhas tivessem alma.
Guimarães Rosa escreveu: “Viver é muito perigoso.” Ela adaptaria: "Viver sem argumento é mais perigoso ainda".
Enfim, numa noite simples, sem debate, sem tese, sem estatística, ela apenas encostou a cabeça no ombro dele e disse:
— Hoje não tenho argumentos. Só tenho você.
E o sono justificou, como argumento de autoridade, que terem casado valeu a pena.
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