O Peso que Caiu das Mãos
Dizem que o tempo cura tudo. Mas não é verdade. O tempo, sozinho, apenas ensina a conviver com a dor. O que cura mesmo é o perdão.
Havia dentro dele um quarto escuro, trancado por dentro. Nesse quarto moravam vozes antigas, cenas repetidas, palavras que feriram como lâminas. Toda vez que lembrava, o coração endurecia um pouco mais. Ele dizia: “Eu já superei”. Mas não tinha superado — apenas tinha aprendido a esconder.
Até que, numa dessas noites silenciosas da alma, entendeu algo simples e profundo: quem não perdoa carrega correntes invisíveis. O ofensor talvez nem lembrasse mais… mas ele lembrava. E doía.
Foi então que percebeu o escândalo do cristianismo: Deus perdoa culpados. Não porque o erro seja pequeno, mas porque o amor é maior. Na cruz, o Inocente pediu perdão pelos culpados. E se Deus perdoa assim, quem somos nós para viver colecionando dívidas?
Perdoar não foi esquecer. A memória continuou lá.
Perdoar não foi dizer que estava tudo certo. Não estava.
Perdoar foi soltar. Soltar o direito de cobrar. Soltar o peso de reviver. Soltar a prisão de sentir.
No começo parece perda. Parece injustiça. Parece fraqueza. Mas não é. Perdão é força mansa. É coragem silenciosa. É libertação disfarçada de renúncia.
Naquela noite, sem testemunhas, sem aplausos, ele fez uma oração curta, dessas que não saem da boca, só do coração:
“Senhor, eu entrego.”
E algo caiu. Não do céu. Caiu de dentro.
O peso. A pedra. A corrente.
O outro continuou sendo o outro. O passado continuou sendo passado. Mas ele… ele ficou livre.
Porque no Reino de Deus, quem perdoa não perde, renasce.
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