Existiam algumas frases emblemáticas que saíam da boca do meu pai, e essa era uma delas: “Quem bate esquece; quem apanha, não.” Quando ele falava isso, com certeza, o contexto o perturbara.
Entendo-o, pois a frase expressa uma ideia muito humana: para quem causa a dor, o episódio pode ser pequeno e passageiro; para quem a recebe, pode deixar uma marca por muito tempo. E não precisa se referir à agressão física. Vale para palavras, humilhações, injustiças, abandonos e atitudes aparentemente pequenas.
Acredito que essa frase também nos ensina que existem muitas maneiras de bater sem usar as mãos. Uma palavra dita no momento errado, uma brincadeira que humilha, um comentário feito diante de outras pessoas, um desprezo, uma ausência. Para quem fez, talvez não tenha significado quase nada. Para quem recebeu, pode ter significado muito.
Talvez por isso algumas pessoas se lembrem, décadas depois, de uma frase ouvida na infância, de uma vergonha passada na escola ou de uma injustiça sofrida no trabalho. Quem provocou aquilo provavelmente seguiu a vida e esqueceu. Quem sentiu a dor guardou até os detalhes.
Mas há um lado dessa frase que me inquieta ainda mais: somos muito bons em lembrar das vezes em que apanhamos e nem sempre tão bons em lembrar das vezes em que batemos. Pode ser que alguém carregue até hoje uma palavra que dissemos e da qual já nem nos lembramos.
Talvez meu pai soubesse disso.
Hoje, quando aquela velha frase me volta à memória, penso menos em quem me feriu e mais nas marcas que eu mesmo posso ter deixado pelo caminho.