quinta-feira, 15 de outubro de 2026

ILKA AGRIPINA VERA: A PROFESSORA QUE AJUDOU A ESCREVER A HISTÓRIA DE FOZ DO IGUAÇU


Foto: Áurea Cunha /
Arquivo Guatá

  Pioneira da educação iguaçuense, Ilka Vera dedicou mais de quatro   décadas ao magistério e deixou um legado que ultrapassa as salas de     aula.

 Por Emerson Fulgencio - pesquisas realizadas e organização do texto  com uso de IA. 

 Antes de Foz do Iguaçu se transformar em um dos principais destinos   turísticos do Brasil, antes da construção de Itaipu e do crescimento   acelerado da cidade, havia pessoas que, silenciosamente, construíam os   alicerces de nossa história. Algumas erguiam prédios, outras abriam   estradas. E havia aquelas que ensinavam as primeiras letras.

 Entre elas estava Ilka Agripina Vera, uma mulher cuja trajetória se   confunde com a própria história da educação iguaçuense.

 Nascida em 23 de junho de 1919, em Foz do Iguaçu, Ilka era filha de   Diego Ignácio Vera, argentino, e de mãe de origem paraguaia. Sua família representa bem a identidade fronteiriça da cidade, formada pelo encontro de diferentes povos, idiomas e culturas.

Seu pai foi responsável pelo funcionamento de um dos primeiros geradores de energia elétrica da cidade, movido a lenha. Enquanto ele ajudava a iluminar a pequena Foz do Iguaçu, a filha, anos depois, dedicaria a vida a outra forma de iluminação: o conhecimento.

Uma menina que queria aprender

A infância de Ilka aconteceu em uma Foz muito diferente daquela que conhecemos. As oportunidades de escolarização eram escassas, e o acesso à educação dependia, muitas vezes, da iniciativa de particulares ou de religiosos.

Sua primeira experiência escolar foi traumática. Em entrevista concedida ao jornalista Juvêncio Mazzarollo, em 1993, ela contou que abandonou uma pequena escola depois de presenciar uma professora castigar um aluno com a palmatória.

Ilka não concordava com aquela violência.

Passou a aprender em casa, com a ajuda de um tio, até ingressar, em 1928, na recém-criada Escola Bartolomeu Mitre. Fez parte da primeira turma de formandos da instituição.

A menina que enfrentou dificuldades para estudar se tornaria, anos depois, uma das professoras mais importantes da cidade.

O magistério como missão

Antes de ingressar definitivamente no magistério, Ilka trabalhou em atividades ligadas às obras realizadas no Parque Nacional do Iguaçu e também na área de enfermagem.

Sua experiência como educadora começou com filhos de trabalhadores envolvidos na construção da Usina São João, no Parque Nacional. Em 1947, passou a atuar oficialmente como professora na Escola Bartolomeu Mitre.

Posteriormente, também lecionou no Colégio Monsenhor Guilherme, onde trabalhou com a disciplina de História.

Foi uma das pioneiras na alfabetização de adultos em Foz do Iguaçu, numa época em que muitos trabalhadores não haviam tido oportunidade de frequentar a escola.

Sem os recursos tecnológicos de hoje, Ilka desenvolveu uma maneira própria de ensinar. Utilizava elementos da natureza, objetos simples e situações do cotidiano para tornar a aprendizagem mais próxima da realidade dos alunos.

Não precisava de grandes equipamentos para ensinar. Precisava conhecer seus estudantes.

Em sua entrevista de 1993, deixou uma frase que merece permanecer na memória de todos os educadores:

“O principal segredo do sucesso do professor é cativar os alunos.”

Uma afirmação simples, mas de extraordinária profundidade pedagógica.

A professora que enxergava além do comportamento

Entre os episódios de sua carreira, um revela especialmente sua sensibilidade.

Certa vez, ao enfrentar problemas de indisciplina com um aluno, Ilka tomou uma atitude pouco habitual: retirou-o da sala. Incomodada com a própria reação, procurou compreender o que estava acontecendo.

Descobriu que o menino enfrentava dificuldades familiares, relacionadas à separação dos pais.

O estudante posteriormente pediu desculpas e se tornou um dos melhores alunos.

A história revela uma educadora que, muito antes de expressões como educação socioemocional ganharem espaço nos debates pedagógicos, compreendia que o comportamento de uma criança nem sempre poderia ser explicado apenas pelo que acontecia dentro da sala de aula.

Era preciso olhar para o aluno. Conhecer sua história. Compreender suas dores.

Uma vida dedicada à educação

Ilka continuou estudando ao longo da vida, conquistando formação no magistério e, posteriormente, licenciatura em História.

Ao longo de mais de quatro décadas de trabalho, ajudou a alfabetizar gerações de iguaçuenses. Entre seus antigos estudantes estavam pessoas que mais tarde se tornariam médicos, engenheiros, advogados e profissionais de diferentes áreas.

Mas ela não costumava destacar um aluno em particular. Sua satisfação estava na aprendizagem e no reconhecimento recebido daqueles que passaram por suas salas de aula.

Na década de 1990, recebeu da Câmara Municipal o título de cidadã benemérita de Foz do Iguaçu, em reconhecimento à sua contribuição para a educação pública.

Ilka faleceu em 31 de janeiro de 2012, aos 92 anos.

Deixou, porém, algo que não pode ser medido apenas por diplomas, homenagens ou anos de serviço: o conhecimento transmitido a milhares de pessoas e a influência que esse conhecimento exerceu sobre suas vidas.

Uma professora que também amava sua cidade

Além de educadora, Ilka cultivava um profundo sentimento de pertencimento a Foz do Iguaçu.

Na década de 1950, escreveu um poema dedicado à cidade, no qual exaltava suas belezas naturais, sua gente e a importância do trabalho e da instrução para o desenvolvimento local.

O manuscrito foi preservado pela família e divulgado posteriormente, acrescentando mais uma dimensão à memória dessa mulher que testemunhou tantas transformações da fronteira.

Ilka conheceu uma Foz de ruas tranquilas, cinemas improvisados, escolas ainda em formação e uma população que começava a construir sua identidade urbana.

Viu a cidade crescer, transformar-se e ganhar projeção internacional.

E participou desse processo ensinando.

A memória de quem ensinou não pode ser esquecida

Foz do Iguaçu costuma contar sua história por meio das grandes obras, dos monumentos, das Cataratas, da Ponte da Amizade e da Usina de Itaipu.

Tudo isso tem sua importância.

Mas uma cidade também é construída por pessoas que, muitas vezes, não aparecem nas fotografias oficiais de inaugurações.

Professores que ensinavam com poucos recursos. Mulheres que enfrentaram limitações de sua época. Educadores que abriram caminhos para gerações inteiras.

Ilka Agripina Vera pertence a esse grupo.

Sua trajetória nos lembra que a história da educação não se resume a prédios escolares, reformas curriculares ou políticas públicas. Ela também é feita de relações humanas, persistência, dedicação e compromisso.

Talvez essa seja uma das maiores lições deixadas por Ilka: uma cidade não se desenvolve apenas quando aprende a construir grandes obras, mas também quando oferece às pessoas a oportunidade de aprender a ler o mundo.

E Ilka ajudou Foz do Iguaçu a fazer exatamente isso.


Fontes históricas: Entrevista de Ilka Agripina Vera concedida ao jornalista Juvêncio Mazzarollo, em 1993, publicada no livro Foz do Iguaçu: Retratos (1997); acervo Guatá Cultura em Movimento; revista Escrita, edição 53, e Museu da Imprensa de Foz do Iguaçu.

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