terça-feira, 27 de outubro de 2026

A ARTE DE FUGIR


Há quem diga que Hitler não morreu em Berlim. Que atravessou oceanos, mudou de nome e terminou seus dias tranquilamente na Argentina. Aqui em Foz do Iguaçu, existe até uma lenda urbana — ou, para amenizar, um simples boato — de que sua esposa e filha teriam vivido na cidade.

O curioso é que a Argentina realmente recebeu nazistas fugitivos depois da Segunda Guerra Mundial. Adolf Eichmann, por exemplo, viveu por lá até ser capturado, em 1960. Mais recentemente, em 2025, a filha de um oficial nazista foi investigada por ocultar uma pintura roubada durante a guerra. Parece que certas histórias insistem em atravessar gerações e fronteiras.

E, falando em fronteiras...

Mais de oito décadas depois, a Argentina volta a aparecer numa história de partida apressada. Desta vez, o personagem é brasileiro, tem sobrenome conhecido e protagoniza uma controvérsia política após as eleições. Fala-se de passaportes, Justiça e de uma viagem rumo aos Estados Unidos, passando justamente pela fronteira de Foz do Iguaçu.

O senhor Tancredo Neves, um nome que remete a democracia, jamais imaginaria que a ponte que leva seu nome pudesse aparecer numa história dessas. Rota de fuga ou simples rota de saída? Ainda há perguntas sem respostas.

Espera. Não estou comparando personagens históricos. Seria uma injustiça com a própria História. Observo apenas essa curiosa coincidência geográfica que parece fazer da Argentina uma espécie de sala de embarque dos grandes embaraços políticos.

Talvez seja o tango.

Afinal, poucas coisas combinam tanto com uma fuga quanto um tango bem executado. Dois passos para um lado, um para o outro, uma virada inesperada e, quando o parceiro percebe, já não há ninguém no salão.

Mas fugir é um verbo interessante.

O menino foge da bronca. O adolescente, da responsabilidade. O adulto, das dívidas. O político, às vezes, das perguntas. E há quem passe a vida inteira fugindo de si mesmo.

A diferença é que nem todos podem escolher o destino.

O trabalhador desempregado não dispõe de avião particular. A mãe que precisa alimentar os filhos não atravessa fronteiras para escapar da realidade. E o cidadão comum, quando convocado pela Justiça, dificilmente encontra uma aeronave esperando do outro lado da ponte.

Aliás, nós, moradores de Foz do Iguaçu, sabemos que atravessar a Ponte Tancredo Neves pode ser uma aventura. Dependendo do horário, o trânsito é tão lento que dá tempo de pensar na vida, reconsiderar decisões e até se arrepender de algumas escolhas.

Mas há quem consiga transformar uma travessia de fronteira em capítulo da história política nacional.

A História tem dessas ironias. Muda os personagens, troca os figurinos, moderniza os transportes, mas não existe ponte suficientemente longa, nem avião suficientemente rápido, capaz de nos fazer fugir da nossa própria história.

Emerson Fulgencio de Lima

Nenhum comentário:

MICHELINY VERUNSCHK: A LITERATURA QUE RECUPERA HISTÓRIAS ESQUECIDAS

A FORÇA DA MULHER | ESPECIAL OUTUBRO ROSA — 10ª E ÚLTIMA MATÉRIA Entre memória, história e imaginação, Micheliny Verunschk constrói uma lite...