No início eram apenas dois cães, Nino e Lola. Juarez ia todos os dias visitar o canil. Quando chegava, era uma festa: rabos abanando, pulos e lambidas.
No meio do quintal havia uma grande árvore. Juarez fez apenas uma recomendação:
— Podem brincar onde quiserem, mas não cavem debaixo daquela árvore.
Nino e Lola nunca tinham pensado em cavar ali. Mas, depois da proibição, começaram a olhar para aquele lugar com curiosidade.
Até que apareceu uma gatinha.
— Por que vocês não podem cavar aí?
— Juarez não deixou — respondeu Lola.
— Talvez ele tenha enterrado um osso...
Lola olhou para Nino. Nino olhou para Lola.
Um osso?
Lola deu a primeira patada. Nino, a segunda. Em poucos minutos, havia terra para todos os lados.
Então ouviram os passos de Juarez.
Pela primeira vez, em vez de correrem para recebê-lo, esconderam-se.
— Nino, onde você está?
NIno apareceu com a cabeça baixa e o focinho sujo de terra.
— Foi a Lola!
— Ah, claro! — reclamou ela. — E quem ajudou a cavar?
Juarez aproximou-se do buraco e explicou:
— Eu não proibi vocês porque havia alguma coisa escondida aqui. Do outro lado desta cerca passa uma estrada. Eu estava protegendo vocês.
Os dois abaixaram as orelhas.
Talvez tenha sido naquele dia que os cães aprenderam algo que os humanos também demorariam muito para entender: nem todo limite existe para nos impedir de viver. Alguns existem justamente para preservar a vida.
E dizem que foi assim que os cachorros herdaram de Nino e Lola duas características que carregam até hoje: quando fazem alguma coisa errada, sabem perfeitamente que fizeram...
E, mesmo tendo casa, comida, carinho e uma caminha confortável, basta alguém deixar o portão aberto para quererem descobrir o que existe do outro lado.

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