terça-feira, 25 de agosto de 2026

Feira do livro

 Eu não lembro exatamente quantos anos tinha.

Também não lembro o nome de todos os livros que vi, nem consigo dizer quem eram os escritores que estavam lá. Criança guarda as coisas de outro jeito. Às vezes esquece os nomes, mas não esquece os cheiros, as cores e aquilo que sentiu.

Da Feira do Livro de Foz do Iguaçu eu lembro assim.

Lembro de chegar e achar que havia livros demais no mundo.

Livros grandes, pequenos, fininhos, enormes. Livros com monstros, princesas, animais que falavam, crianças aventureiras e lugares que eu nem sabia que existiam. Alguns estavam tão bonitos nas prateleiras que dava vontade de levar para casa mesmo sem saber do que tratavam.

Eu queria tocar em todos.

Minha mãe dizia:

— Escolha um.

Mas escolher um livro no meio de tantos era uma tarefa quase impossível.

Eu pegava um, depois encontrava outro mais interessante. Colocava o primeiro no lugar, caminhava mais um pouco e descobria um terceiro.

Foi quando entendi que livro tinha um problema: a gente nunca quer apenas um.

Havia muita gente andando. Crianças sentadas ouvindo histórias, professores chamando seus alunos, pais carregando sacolas, escritores conversando com leitores. Em algum lugar alguém contava uma história e, mesmo com todo aquele movimento, algumas crianças permaneciam quietinhas, olhando para o contador como se o restante da feira tivesse desaparecido.

Eu fui uma delas.

Não lembro qual história ele contou.

Isso é engraçado.

Esqueci a história, mas nunca esqueci a sensação de ouvi-la.

Durante alguns minutos, Foz do Iguaçu deixou de ser Foz. Eu não estava mais numa feira. Estava em algum lugar muito distante, desses onde só conseguimos chegar quando alguém abre um livro.

Depois continuei caminhando.

Ganhei um marcador de páginas. Peguei alguns folhetos que provavelmente minha mãe jogou fora dias depois. Folheei livros que não compramos e fiquei namorando outros que eram caros demais.

Até que finalmente escolhi o meu.

Saí segurando aquele livro com as duas mãos.

Hoje não sei onde ele está.

Talvez tenha sido emprestado e nunca devolvido. Talvez esteja dentro de alguma caixa. Talvez tenha se perdido em alguma mudança. Pode ser até que eu ainda o encontre um dia, amarelado pelo tempo, esperando silenciosamente que eu me lembre dele.

Mas uma coisa eu sei:

alguma coisa daquela Feira voltou comigo.

Durante muitos anos pensei que tivesse sido apenas um livro.

Hoje percebo que não.

Voltei carregando a descoberta de que existiam milhares de vidas além da minha, escondidas dentro de páginas.

Voltei sabendo que era possível viajar sem sair de Foz do Iguaçu.

Voltei desconfiando que as palavras poderiam fazer uma pessoa rir, chorar, pensar e até enxergar o mundo de outro jeito.

Talvez seja por isso que, quando passo perto de uma feira de livros, ainda diminuo o passo.

O adulto continua andando.

Mas aquela criança que um dia entrou na Feira do Livro de Foz do Iguaçu ainda está lá dentro.

Curiosa.

Olhando as capas.

Folheando escondido.

Tentando decidir qual livro levar.

E acreditando, como acreditava naquele dia, que atrás de cada capa existe um mundo esperando alguém abrir a primeira página.

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