sexta-feira, 22 de agosto de 2025

"Não é bom que o homem esteja só; farei para ele al­guém que o auxilie e lhe corresponda".

 A palavra “ʿēzer” (עֵזֶר) em hebraico bíblico significa, de forma geral:

  • Ajuda

  • Auxílio

  • Socorro

Na Bíblia, o termo aparece várias vezes:

  • Em Gênesis 2:18, quando Deus cria a mulher como “ʿēzer kenegdô” (עֵזֶר כְּנֶגְדּוֹ), geralmente traduzido como “uma ajudadora idônea” ou “auxílio que lhe corresponda”.

  • Em vários Salmos, a palavra é usada para se referir a Deus como o “socorro” ou “ajuda” do povo (ex.: Salmo 121:1-2).

Ou seja, não tem um sentido de “subordinação”, mas sim de força de apoio, parceria, alguém que fortalece e socorre.

No Pentateuco

  • Gênesis 2:18 – “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora (ʿēzer) que lhe seja idônea.”

  • Gênesis 2:20 – “... mas para o homem não se achava ajudadora (ʿēzer) que lhe fosse idônea.”


Nos Salmos

  • Salmo 33:20 – “A nossa alma espera no Senhor; ele é o nosso auxílio (ʿēzer) e o nosso escudo.”

  • Salmo 70:5 – “Eu sou pobre e necessitado; apressa-te, ó Deus! Tu és o meu amparo (ʿēzer) e o meu libertador...”

  • Salmo 115:9-11 – “... confiai no Senhor; ele é o auxílio (ʿēzer) e o escudo deles.”

  • Salmo 121:1-2 – “Elevo os olhos para os montes; de onde me virá o socorro (ʿēzer)? O meu socorro (ʿēzer) vem do Senhor, que fez os céus e a terra.”

  • Salmo 124:8 – “O nosso socorro (ʿēzer) está em o nome do Senhor, que fez os céus e a terra.”


Nos Profetas

  • Oseias 13:9 – “A tua perdição, ó Israel, vem de ti, e o teu verdadeiro auxílio (ʿēzer) está em mim.”


Em resumo:

  • Quando se refere à mulher em Gênesis, mostra o papel de parceria e complementaridade.

  • Quando se refere a Deus nos Salmos, mostra força, proteção e socorro.

Ou seja, ʿēzer tem um sentido nobre e forte, nunca de inferioridade.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

1.º de agosto: dia do carrulim, bebida típica do Paraguai

 "O Gole Sagrado do Dia 1º"

Todo ano, no primeiro dia de agosto, seu Modesto acordava com a mesma missão: tomar um gole de Carrulim antes do sol nascer, com a cara ainda amassada e o estômago roncando de susto. Era tradição — e, segundo ele, mais eficaz que vacina contra raiva, mau-olhado e sogra fofoqueira.

— Tem que tomar em jejum! — avisava ele, apontando o dedo como se fosse um padre dando sermão. — Se comer antes, já era. O cachorro louco te pega!

Dona Estefânia, sua esposa, já nem discutia mais. Toda vez que o via preparar a tal bebida — que parecia uma mistura de ervas, álcool e coragem líquida — ela apenas rezava para que o banheiro estivesse livre o dia inteiro.

Modesto abria o armário com toda a pompa, retirava a garrafa de Carrulim como se fosse um troféu olímpico e enchia o copinho de vidro com o líquido escuro que cheirava a botica, igreja e mato molhado ao mesmo tempo.

— Vai um gole, compadre? — ofereceu ao vizinho Paulinho, que havia ido só pedir açúcar emprestado.

— Deus me livre! — respondeu Paulinho, recuando dois passos e tropeçando no cachorro da casa, que saiu latindo como um condenado.

— Tá vendo?! Já tem bicho bravo rondando! — gritou Modesto, virando o gole com os olhos fechados, como quem mergulha de cabeça numa piscina de álcool.

A cada engolida, Modesto tossia, se contorcia e fazia careta de quem tinha visto o capeta, mas no final, soltava a famosa frase:

— Pronto! Agora tô imune até ao ex da minha filha!

Na vila, diziam que quem não tomava Carrulim no dia 1º tinha grandes chances de ficar doente, esquecer o CPF ou até encontrar o cachorro louco em forma de boleto atrasado. E Modesto, é claro, se considerava o mais protegido de todos.

No fundo, ninguém sabia exatamente o que tinha dentro da Carrulim. Uns diziam que era segredo indígena, outros que era receita da avó do diabo. Mas uma coisa era certa: depois de um gole, o dia ficava mais leve, e o cachorro louco... bem, esse nem passava na calçada. 

(autor desconhecido - dizem que vive em Foz do Iguaçu-PR  kkkk)

quinta-feira, 10 de julho de 2025

O barulho do Filosofia te irrita? ou não?

 Do livro "o mundo de sofia" vamos resumir: um coelho branco é tirado de dentro da cartola. E porque se trata de um coelho muito grande, este truque leva bilhões de anos pra acontecer. Todas as crianças nascem bem na ponta dos finos pelos do coelho. Por isso elas conseguem se encantar com a impossibilidade do número de mágica a que assistem. Mas conforme vão envelhecendo, elas vão se arrastando cada vez mais parao interior da pelagem do coelho. E ficam por lá. La embaixo é tão confortável que elas não ousam mais subir até a ponta dos finos pelos lá em cima. Só os filósofos têm ousadia para se lançarem nesta jornada rumo aos limites da linguagem e da existência. Alguns deles não chegam a conclui-la, mas outros se agarram com força aos pelos do coelho e berram para as pessoas que estão la embaixo, no conforto da pelagem, enchendo a barriga de comida e bebida: -senhoras e senhoras -gritam eles -estamos flutuando no espaço! Mas nenhuma das pessoas la de baixo se interessa pela gritaria dos filósofos. -deus do céu! Que caras mais barulhentos! -elas dizem. E continuam a conversar: sera que você poderia me passar a manteiga? Qual a colação das ações hoje? Qual o preço do tomate? Você ouviu dizer que a Lady Di esta grávida de novo? (Jostein Gaarder)

domingo, 6 de julho de 2025

Fazei Tudo o que Ele Vos Disser - JESUS LIBERTA

IGREJA QUADRANGULAR 06/07/2025

Sermão: Fazei Tudo o que Ele Vos Disser

Texto base: João 2:1-11


Introdução

Todos nós já preparamos uma festa ou um evento. O ser humano tem dentro de si essa inclinação natural para planejar, organizar e realizar projetos.

Dias atrás, celebramos o aniversário da minha esposa. Escolhemos o cardápio, fizemos a lista de convidados e organizamos tudo com carinho. O aniversário dela é no dia 20 de junho, e neste ano caiu numa sexta-feira recesso do feriado de Corpus Christi, o que nos deu um final de semana prolongado para organizar tudo com calma.

Gostamos muito de receber pessoas em nossa casa. Ela, mais detalhista do que eu, posiciona as cadeiras, analisa o ambiente... Falta só colocar o nome nos lugares (risos). Eu, no estilo mais prático, calculo: tantas pessoas, tantos pães, tantos quilos de carne, e por aí vai. Admito que, às vezes, exagero (risos).

Na vida espiritual, não é diferente. Também precisamos nos preparar para aquilo que Deus quer fazer em nós e através de nós. Foi pensando nisso que lembrei das bodas de Caná da Galileia, onde Jesus realizou o primeiro milagre de Seu ministério.


1. O Primeiro Milagre e a Graça da Nova Aliança

O casamento estava cuidadosamente planejado, como todo casamento deve ser. É um dia único, e nada pode dar errado. Contudo, faltou algo essencial: faltou vinho! (João 2:3)

Na simbologia bíblica, o vinho representa alegria, abundância e a graça da nova aliança trazida por Jesus. A água, usada nos rituais de purificação judaicos, representa a antiga aliança da lei. Jesus transforma a água em vinho, simbolizando a transição da Lei para a Graça.

Neste episódio, um detalhe chama atenção: Maria, ao perceber a falta do vinho, diz aos serventes:

“Fazei tudo o que Ele vos disser.” (João 2:5)

Aqui está o convite para todos nós: estamos dispostos a fazer tudo o que Jesus mandar?


2. Renúncia: O Caminho do Discipulado

Quando Jesus começou a chamar seus discípulos, cada um deles precisou renunciar a algo.
Renunciar significa abrir mão de um direito, posição, proposta ou crença. No hebraico, a palavra tem o sentido de afastar-se de algo.

Dois exemplos nos ensinam muito:

2.1 Nicodemos — O que não Renunciou

Nicodemos, um líder religioso importante (João 3), reconheceu que Jesus viera de Deus, pois ninguém poderia realizar milagres como Ele fazia. Nicodemos buscou Jesus à noite e ouviu a famosa frase:

“É necessário nascer de novo” (João 3:3).

Nicodemos sentiu vontade no coração, mas não fez a renúncia necessária. Continuou preso ao seu status e posição religiosa.

2.2 Mateus — O que Abandonou Tudo

Mateus, cobrador de impostos (Mateus 9:9), deixou imediatamente seu trabalho quando Jesus o chamou. A Bíblia não relata que ele pediu explicações. Ele simplesmente largou tudo e seguiu Jesus. Seu coração estava livre dos conceitos que aprisionam.

Como pode, para duas pessoas, a mesma oportunidade ter respostas tão diferentes?

Nicodemos permaneceu como alguém que reconhecia Jesus, mas não nasceu de novo. Mateus tornou-se autor de um evangelho inteiro e registrou o Sermão da Montanha (Mateus 5, 6 e 7).


3. O Sermão da Montanha: A Lei do Amor e da Graça

O Sermão da Montanha é um marco no ensino de Jesus. Assim como Moisés recebeu a Lei no Monte Sinai (Êxodo 19-20), Jesus revela a plenitude da Lei no Monte das Bem-Aventuranças, às margens do Mar da Galileia.

Repare como a trajetória bíblica se conecta:

  • Água em vinho: a Lei sendo transformada em Graça (João 2).

  • "Fazei tudo que Ele vos disser": Moisés exige o cumprimento da Lei; Jesus nos convida a sermos semelhantes a Ele.

  • Nascer de novo: Jesus não quer apenas obedientes à Lei, mas pessoas transformadas pela Graça.


4. A Liberdade em Cristo

Durante muito tempo, criaram-se regras e costumes que tornaram o caminho até Deus mais pesado do que deveria ser: tem que usar terno, as mulheres de um lado, os homens do outro, não pode isso, não pode aquilo...

Mas tudo isso não passa de religiosidade. Se não fosse pela Graça, ninguém conseguiria chegar ao Pai.

"Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus." (Efésios 2:8)

O Que é Graça?

Graça é favor imerecido.
É um presente que Deus nos dá, não porque merecemos, mas porque Ele é generoso.

A graça de Deus:

  • Revela Seu amor incondicional;

  • Nos dá uma nova chance;

  • Nos liberta do peso da culpa;

  • Muda nossa perspectiva em relação aos outros.

Como posso exigir punição contra alguém, se Deus — que é perfeito — me perdoou de tantos pecados?


5. Estamos Dispostos a Obedecer?

Jesus disse:

“Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me.” (Mateus 19:21)

Será que estamos dispostos?


6. Jesus Liberta em Todas as Áreas da Vida

Jesus continua libertando hoje:

  • Ele faz andar o paralítico — dá capacidade de caminhar corretamente na vida.

  • Ele faz ver o cego — clareia nossa visão espiritual.

  • Ele faz ouvir o surdo — abre nossos ouvidos para o discernimento.

  • Ele cura o leproso — restaura nossa dignidade.

  • Ele liberta o endemoniado — devolve nossa consciência e inteligência emocional.


Conclusão

Irmãos, Jesus não veio complicar a vida espiritual. Ele veio simplificar com amor e graça. Ele não quer que você apenas siga regras. Ele quer seu coração transformado.

O convite de hoje é simples e profundo:
Fazei tudo o que Ele vos disser.





quinta-feira, 26 de junho de 2025

VULNERABILIDADE

 "Ser vulnerável significa estar aberto para as próprias emoções, fraquezas e medos, permitindo que os outros vejam suas imperfeições e se conectem com você em um nível mais profundoÉ a coragem de mostrar suas fragilidades, reconhecer suas limitações e aceitar que não se tem controle sobre tudo". (definição IA)

Assim você percebe que é hora de não confiar na força de seu braço.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

terça-feira, 27 de maio de 2025

O que pediríamos?

Hoje, no momento em que pedalávamos nossas bicicletas pelas ruas de Foz do Iguaçu, conhecemos o Geovane. Um jovem rapaz, morador de rua, maltrapilho. Ele carregava uma sacola imensa e estava de pés descalços. Isso chamou a atenção da minha esposa.

Paramos as bicicletas e perguntamos se ele queria um par de chinelos. Ele, com uma voz mansa de criança, respondeu que sim. Combinamos com ele de nos esperar, pois iríamos até o mercado ali próximo para comprar o que precisava. Geovane nos acompanhou.

Antes de entrar no mercado, perguntamos o que mais ele gostaria, além dos chinelos. Sabíamos que a ausência de calçado nos pés dele incomodava mais a nós do que a ele. Fomos nós que sentimos a falta dos chinelos. Para ele, isso talvez nem fosse mais uma necessidade. Mesmo assim, insistimos: “O que mais você quer além dos chinelos?”

Ele sorriu. Um sorriso de menino. E respondeu, com os olhos brilhando:
— “Eu quero um guaraná.”

Talvez a lembrança da infância tenha feito esse desejo brotar. Talvez fosse a única coisa capaz de trazer à tona uma memória boa, um prazer, uma felicidade — algo que ainda resistia na lembrança de um tempo em que ele habitava um mundo mais saudável. Um guaraná pode parecer muito pouco. Mas, para ele, era um passaporte de um minuto para o mundo em que eu e minha esposa ainda vivemos.

Naquele instante, me lembrei do trecho do evangelho de Marcos, quando Jesus pergunta ao paralítico:
“O que queres que eu te faça?”

Talvez o paralítico não soubesse o que pedir. Talvez já tivesse esquecido o que a vida poderia oferecer, porque vivera tempo demais em um mundo que o ensinou a não desejar, a não pedir, a não esperar.

Geovane já não sabe mais o que pedir. Já não sabe mais pedir. Vive daquilo que acreditam que ele precise. Sua memória parece ter se esvaziado das coisas que antes lhe davam alegria, prazer, talvez paz.

E eu me pergunto:
O que eu pediria se tivesse a oportunidade de estar frente a frente com Jesus?

Vivemos em um mundo cheio de piadas sobre os três desejos do gênio da lâmpada. Pessoas pedem riquezas, pedem vidas que não conhecem, mas que acreditam ser ideais, prazerosas.

Quantos Geovanes estão por aí, anestesiados.
Quantos Geovanes estão cegados, ensurdecidos.

Pensemos.
O que pediríamos?

sexta-feira, 23 de maio de 2025

"A Fé que Desce pelo Telhado"

 "A Fé que Desce pelo Telhado"

(Baseado em Marcos 2:1-12)

O sol brilha forte sobre Cafarnaum. Jesus está dentro de uma casa ensinando. A multidão se aglomera ao redor — homens, mulheres, crianças — todos ansiosos para ouvir suas palavras.

Narrador:
Era um daqueles dias em que ninguém queria perder uma palavra sequer de Jesus. A casa estava tão cheia, que não havia espaço nem à porta.

Jesus (falando à multidão):
— O Reino de Deus está entre vocês. Arrependam-se e creiam nas boas novas!

Quatro homens chegam carregando uma maca. Nela está um amigo — paralisado, sem conseguir se mover. Eles olham para a multidão. Não há como passar.

Homem 1 (olhando ao redor):
— Não tem como entrar por aqui… a casa está lotada.

Homem 2 (determinadamente):
— Não viemos até aqui pra desistir agora. Ele precisa ver Jesus!

Homem 3 (apontando o telhado):
— E se... a gente subisse por lá?

Eles trocam olhares. Um plano ousado. Mas a fé era maior que o medo.

Eles sobem com esforço. Cada um segura um lado da maca. Chegam ao telhado. Começam a remover as telhas com cuidado, abrindo um espaço bem acima de onde Jesus está.

Narrador:
A multidão se espanta ao ver o teto sendo aberto. A luz entra pela abertura. E, lentamente, o paralítico é descido com cordas, bem aos pés de Jesus.

Jesus observa. Vê a fé deles — não só a dos amigos, mas a fé de um coração que ansiava por cura e esperança.

Jesus (olhando para o paralítico):
— Filho, os teus pecados estão perdoados.

Os fariseus e mestres da lei murmuram entre si.

Fariseu (em pensamento):
— Como ele se atreve? Só Deus pode perdoar pecados!

Jesus percebe o que eles pensam.

Jesus (voltando-se para eles):
— O que é mais fácil dizer: "Os teus pecados estão perdoados", ou "Levanta-te, pega a tua maca e anda"?
— Mas, para que saibam que o Filho do Homem tem autoridade para perdoar pecados...

sexta-feira, 16 de maio de 2025

"Xerenguentengo Deus lovado chorou /Arremenda minha camisa que eu arremendo seu xerengo"

Dona Aurora era uma senhora alegre e cheia de histórias curiosas para contar. Todos na pequena vila sabiam que, quando ela começava a cantarolar aqueles versos peculiares, era sinal de que uma nova aventura estava prestes a acontecer.

Numa tarde ensolarada, enquanto ela arremendava sua camisa sob a sombra de um antigo pé de jabuticaba, um estranho som ecoou do outro lado do quintal. Era um xerengo, um bicho misterioso que só ela conhecia bem. Dona Aurora ergueu os olhos, fitando com curiosidade o pequeno monte de folhas secas onde o barulho vinha se escondendo.

"Xerenguentengo, Deus lovado chorou," murmurou ela, com um sorriso malicioso. "Arremenda minha camisa que eu arremendo seu xerengo!"

Enquanto as folhas se mexiam timidamente, revelando um pequeno ouriço-cacheiro curioso, dona Aurora riu alto, como se o xerengo entendesse cada palavra de sua cantoria. E assim, entre risos e canções, mais um capítulo das histórias encantadas da dona Aurora se desdobrava naquele quintal cheio de magia.

O ouriço a observava com olhos brilhantes, a cabecinha inclinada de lado como se tentasse decifrar os versos que ela cantava. Dona Aurora largou a camisa no colo e estendeu a mão devagar, sem pressa.

— Não se assuste, criatura. Aqui ninguém te faz mal, só te dá nome e poesia.

O bichinho hesitou, mas depois se aproximou aos poucos, farejando o ar quente da tarde. Dona Aurora riu de novo e disse:

— Vai ver você é mesmo um xerengo de verdade! E olha que eu já vi muita coisa nesse mundo, mas xerengo que aparece ao som de cantiga é novidade até pra mim.

Ela se levantou, os joelhos estalando como as dobradiças do portão velho, e caminhou até a cozinha. De lá trouxe uma tigelinha com pedaços de mamão maduro e os depositou ao pé do jabuticabeira.

— Come aí, xerengo. E fique à vontade. Mas ó… quem entra no meu quintal acaba virando parte da história, viu?

Naquela noite, dona Aurora ficou até mais tarde sentada na varanda, observando o quintal iluminado pela lua. O xerengo — ou seja lá o que fosse — estava enrolado em folhas secas, dormindo sossegado como quem achou o lugar certo no mundo.

Ela sorriu, ajeitou o xale nos ombros e cantarolou bem baixinho, antes de fechar os olhos:

— “Xerenguentengo Deus lovado chorou… Arremenda minha camisa que eu arremendo seu xerengo…”

E assim, naquela casa de canto encantado, onde música e bicho se entendiam sem pressa, a noite descansava em paz, embalada por uma senhora que sabia que, quando a gente canta com verdade, até o impossível aparece.

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Manifesto do MITÁ ARANDU

Manifesto do MITÁ ARANDU Antes de existir um menino, existiu uma pergunta. E toda grande pergunta nasce da curiosidade. O Mitá Arandu é aqu...